Campeonato Brasileiro

Antes da glória no Maracanã, o Coritiba derrubou gigantes para se consagrar em 1985

O Coritiba decidiu a taça contra o Bangu, mas deixou Atlético Mineiro, Flamengo, São Paulo, Cruzeiro, Corinthians e Santos pelo caminho, em uma campanha grandiosa

O Coritiba viveu o principal momento de sua história no Maracanã, há exatos 30 anos. Diante de 91 mil nas arquibancadas, a maioria feita por torcedores de outros clubes unidos para apoiar o Bangu, os alviverdes conquistaram o Campeonato Brasileiro. A equipe do grande Ênio Andrade, já campeão nacional com Inter e Grêmio, até saiu em vantagem no jogo único da final, em uma cobrança de falta poderosa de Índio. Só que os alvirrubros pressionavam bem mais. Buscaram o empate dez minutos depois e até viraram, com Marinho, em um gol anulado pelo árbitro. O 1 a 1 durante 120 minutos levou a decisão aos pênaltis. Ado, na sexta cobrança dos cariocas, errou. Consagrou o time de heróis do Coxa, liderado por Rafael, Toby e Lela.

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O jogo em pleno Maracanã, diante do bom time do Bangu, marcou o desfecho glorioso da trajetória do Coritiba. Porém, a campanha vitoriosa não se resume apenas àquela decisão. Ênio Andrade, que chegou ao Alto da Glória logo nas primeiras rodadas substituindo Dino Sani, montou uma equipe pragmática. Fortaleceu o sistema defensivo e criou um contra-ataque mortal, o suficiente para que os paranaenses surpreendessem outras forças do futebol nacional. Pelo caminho, o Coxa bateu também Flamengo, Santos, São Paulo, Cruzeiro, Corinthians e Atlético Mineiro.

FUTEBOL - HISTÓRIA DO CORITIBA - ESPORTES - ACERVO - Os jogadores do Coritiba em pé(da esquerda para a direita): Gomes, Heraldo, Almir, o goleiro Rafael, Camarotta, André e Dida - Agachados: Lela, Marildo, Índio, Toby e Édson, antes da partida contra o Bangu, válida pela final do Campeonato Brasileiro de 1985 - Estádio Mário Filho(Maracanã) - Rio de Janeiro - RJ - Brasil - 31/07/1985 - Foto: Acervo/Gazeta Press

De fato, o maior título da história do Coritiba não começou bem. O regulamento era duro, e os “20 grandes” do país brigavam por apenas oito vagas na segunda fase, enquanto as outras oito ficariam entre as 20 equipes “menores”. Apesar das duas vitórias logo nas duas primeiras rodadas, batendo o São Paulo de Müller (cuja aposta de Cilinho nos futuros “Menudos do Morumbi” era criticada) e o Cruzeiro de Joãozinho, os paranaenses atravessaram as outras oito rodadas do primeiro turno com apenas mais um triunfo, sobre o Náutico. Pior, chegaram a ser goleados por 4 a 0 pelo Internacional, no segundo jogo de Ênio Andrade no comando. A equipe fechou na oitava colocação entre os 10 times do Grupo A. Teria a chance de se recuperar no segundo turno, mas a classificação dependia de um milagre.

No entanto, o Coritiba se refez para a segunda metade da primeira fase. Era outro time, especialmente pelas grande atuações fora de casa. Outra vez, começou batendo São Paulo e Cruzeiro (com Índio buscando a virada por 3 a 2 com dois gols depois dos 36 do segundo tempo), mas dentro do Morumbi e do Mineirão. Na sequência, perdeu para o Bahia e empatou com o Vasco em casa, além de bater o Goiás fora. Até um dos grandes resultados da campanha, superando o Flamengo dentro do Maracanã. É verdade que os rubro-negros já não viviam o esplendor do início da década, mas contavam com um time forte, encabeçado por Fillol, Mozer, Andrade e Adílio – além dos garotos Jorginho e Bebeto. Marildo decidiu o primeiro triunfo do Coxa no Maracanã naquela campanha, por 1 a 0.

Já na reta final da campanha, o Coritiba empatou com o Internacional no Couto Pereira, antes de perder para Náutico e Portuguesa. Apesar da liderança mantida, chegou à rodada decisiva empatado com o Guarani e tendo Fluminense, Botafogo, Atlético Mineiro, Corinthians e Palmeiras no encalço. Os alviverdes precisavam fazer a sua parte contra o Santos. E conseguiram de maneira dramática, com Lela marcando o gol da vitória aos 45 do segundo tempo, que tirou a classificação já nas mãos do Fluminense. A equipe de Ênio Andrade fechou o segundo turno na liderança do parelho Grupo A. Conforme o regulamento, a primeira colocação garantiu os paranaenses como um dos quatro classificados à fase seguinte, já que tinham feito apenas a sétima melhor campanha na soma dos turnos. Entre aqueles que o Coxa ajudou a eliminar, Fluminense, Grêmio, Botafogo e Palmeiras caíram precocemente.

rafael

Na segunda fase, o Corinthians se tornou o grande desafio do Coritiba, em um grupo que também contava com Sport e Joinville. Apenas o primeiro colocado se classificaria. Só que os paulistas, que faziam boa campanha até então, perderam embalo. O Brasileirão de 1985 sofreu uma longa pausa entre maio e junho, por causa das Eliminatórias da Copa de 1986 e do início dos estaduais (com a CBF, para variar, alvejada de críticas), o que permitiu também a Ênio Andrade colocar ordem na casa e à diretoria contornar problemas de salários atrasados – reclamando também da forma como o calendário prejudicava as rendas com ingressos.

A reestreia aconteceu com um empate diante do Sport em Recife. Já na segunda rodada, outra vitória grandiosa para a campanha: 1 a 0 sobre o Corinthians no Couto Pereira. Após a venda de Sócrates para a Fiorentina, os alvinegros investiram pesado naquele ano, montando um time formado por vários jogadores com passagens com convocações no currículo – entre eles, Carlos, Wladimir, Dunga, Zenon, Casagrande e Serginho Chulapa, além do uruguaio De León. Só que a “seleção de papel” não vinha em boa fase e entrou em pânico no Couto Pereira. Lela definiu o resultado, enquanto Rafael e Heraldo seguraram as pontas na defesa.

A vitória aumentou a confiança do Coritiba. O time pegou embalo, com duas vitórias sobre o Joinville, apesar da derrota para os corintianos em crise na visita a São Paulo. A decisão da classificação ficou para a última rodada, diante do Sport de Carlos Alberto Silva. E o empate por 0 a 0, diante de 30 mil pessoas no Alto da Glória, bastou para que os paranaenses confirmassem a vaga nas semifinais. O adversário era o Atlético Mineiro, de mais tradição e um time melhor no papel. Contudo, o Coxa também se destacava pela força tática da equipe montada por Ênio Andrade, e estava motivado pelo bicho gordo após avançar de fase.

Por ter melhor campanha, o Galo decidiria em casa. E o Coritiba precisou lidar com um desfalque sensível no primeiro jogo: Rafael estava suspenso. Entretanto, seu reserva era um dos melhores goleiros da história do clube, Jairo, que contribuiu na vitória por 1 a 0 no Couto Pereira – a mais importante de toda a campanha. Em jogo marcado por uma pane elétrica, que deixou parte dos refletores sem luz por 20 minutos, o zagueiro Heraldo fuzilou para anotar o tento decisivo. Do outro lado, estava a magnífica base do time atleticano nos anos 1980, já passando de seu auge, mas repleto de jogadores de Seleção: João Leite, Nelinho, Luizinho, Elzo, Paulo Isidoro, Everton e Reinaldo.

Após o primeiro jogo, Ênio Andrade passou a ser cotado para assumir a seleção brasileira, caso Telê Santana aceitasse uma proposta do exterior. No entanto, o Atlético Mineiro ainda era o favorito e tinha a vantagem de poder vencer por um gol de diferença que estaria na final. O Mineirão lotou, mas, diante de 65 mil pessoas, o herói não foi ninguém do estrelado time alvinegro. Rafael fechou o gol para segurar o empate por 0 a 0. As defesas providenciais renderam até mesmo a nota 10 na Bola de Prata da revista Placar. O goleiro virou santo para a torcida, e fez valer a reza do massagista Osvaldo Sarti – um personagem importante nos bastidores daquela campanha, considerado o “feiticeiro” dos alviverdes.

Já na decisão, o desafio do Coritiba seria o Bangu. Vindo dos grupos “mais fracos” na primeira fase, os alvirrubros eliminaram Internacional e Vasco na segunda etapa, e passaram nas semifinais pelo Brasil de Pelotas – que também surpreendera o Flamengo. Em um time sem craques, Ênio Andrade admitia as suas limitações técnicas, mas ressaltava a inteligência de seus jogadores para imprimir um ritmo muito forte. Uma equipe unida e coesa, que encerrou o último capítulo de sua grande história no Maracanã, desencadeando uma enorme festa em Curitiba a partir daquele 31 de julho. O dia mais feliz da história coxa-branca.

O título do Coxa, segundo um dos maiores poetas do Brasil

Hoje, 1º de agosto, em Curitiba, o céu amanheceu branco e verde. Os passarinhos só diziam: Lela, Lela, Rafael, Rafael. E no ar pairava um forte cheiro de pólvora de foguetes e pó-de-arroz. Nada mais me restava a não ser filosofar: “Não se pode ganhar sempre”.

E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim, onde tremula o pavilhão rubro-negro, e fiz descer a bandeira dos meus sonhos. E foi com um misto de pesar e júbilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arqueadversário, hoje, aqui e agora, para sempre, campeão brasileiro de 1985.

Um demônio (ou um anjo?) vestido de preto e vermelho (um Exu?) me sussurrava brabo com Tóbi na grande área do Bangu: “Teu time é tua pátria, traidor. Vendeste a lama por um escanteio, vira-casaca. Então, foi para isso que te demos tantas alegrias?”. Nesse momento, recebi um passe do Índio e, vendo que eu estava em campo livre pela esquerda, o demônio rubro-negro preferiu a falta, mas, antes que me atingisse, toquei a bola na perna dele, e foi lateral a meu favor. Foi isso, tudo isso. E muito mais.

Foi ver uma equipe coesa, coerente, bem orquestrada, enfrentar os faixas-pretas do futebol brasileiro, e sair na frente. Foi ver um time de um Estado de poucas glórias esportivas explodir no templo máximo do futebol brasileiro. Foi muito bom saber que futebol não é só coisa de Cariocas, paulistas, mineiro e gaúchos. E, se o título foi nosso, pode bem ser de pernambucanos, baianos, catarinenses e capixabas, de goianos e mato-grossenses, brancos, negros e mulatos queridos do meu Brasil, que escrevem com os pés a arte maior do meu país.

O futebol é o termômetro, a radiografia do Estado do Brasil.

Seria por acaso que, nestes tempos de insuportável dívida externa, nossos grandes craques estejam lá fora, na Europa, com os números que selam nossa dependência aos bancos estrangeiros? Não, com mil pênaltis, não. No Brasil, se o futebol vai bem, é sinal de que as coisas estão indo bem. Se o futebol vai mal, algo vai mal na terra de Pelé, Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo e daquele reserva de ponta-esquerda do Náutico, do Ferroviário, dos Nenecas, Tatas, Paquitos, Muçuns e Evaristos, que fazem as alegrias dos nossos domingos.

Este título do Coritiba, de um time de tradição, mas interiorano, é um título da democracia, um título da Nova República, um título para todo mundo que só senta nas arquibancadas do Maracanã como crianças pobres em volta de uma grande fogueira esperando gritar gol, como quem espera que lhe joguem a alegria de um pedaço de pão.

Obrigado, Coritiba, por essa alegria. Você esteve à altura do teu destino.

Do atleticano Paulo Leminski, na edição de 9 de agosto de 1985 da Revista Placar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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