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Bi Mundial do Santos em 1963 foi sobre um Milan histórico

Há exatos cinquenta anos, o Santos conquistava o bimundial, contra o Milan, jogando no Maracanã. Derrotado na ida, em Milão, por 4 a 2, o Alvinegro Praiano conseguiu igualar o placar na volta, em partida que perdia por 2 a 0 no intervalo, e forçou um terceiro jogo, vencido pelos brasileiros por 1 a 0. A história daquela equipe multicampeã, de Pelé, Pepe e Coutinho, já é muito conhecida. Mas quem era aquele Milan? Qual foi o caminho percorrido pelo time italiano para chegar até àquela decisão? A geração derrotada pelo Santos teve muita importância na história dos Rossoneri, e o momento que vivia o clube italiano à época torna a conquista do Peixe ainda mais relevante.

Nas décadas de 1950 e 1960, o Milan não estava entre as principais forças do futebol italiano, mas já começava a ganhar seu espaço. Os principais esquadrões da época no país eram o da Internazionale e o da Juventus. Campeão nacional em 1901, 1906 e 1907, os Rossoneri haviam passado quase cinquenta anos sem o título, voltaram a conquistá-lo em 1951 e, posteriormente, com uma geração consagrada, levantou a taça três vezes em um espaço de quatro anos (1954/55, 1956/57 e 1958/59).

Mazzola e Amarildo, brasileiros campeões pelo Milan
Mazzola e Amarildo, brasileiros campeões pelo Milan

No time que enfrentou o Santos em 1963, havia três remanescentes dessas três últimas conquistas: Cesare Maldini, Mario Trebbi e José Altafini, conhecido aqui no Brasil como Mazzola. O ítalo-brasileiro era um dos principais jogadores do Milan na época. Na conquista do título europeu que deu ao Rossonero o direito de disputar o Mundial Interclubes, Mazzola foi o artilheiro com 14 gols, maior número de tentos que um jogador conseguiu em uma só edição do torneio e repetido apenas por Lionel Messi, em 2011/12.

Criada em 1955/56, a Copa dos Campeões teve seu início de história com supremacia do Real Madrid, que conquistou nas cinco primeiras temporadas mais da metade de seus atuais nove títulos. Em 1961, o Benfica quebrou a hegemonia madridista, levou o bicampeonato em 1962 já com a ajuda de Eusébio e ensaiava ser a nova grande potência europeia. No entanto, o clube português viu seus planos de tricampeonato serem frustrados em 1963 pelo Milan, que tornou-se, assim, a primeira equipe italiana a vencer o torneio.

A conquista dos Rossoneri alavancou o time, ainda mais por ter sido sobre o Benfica, que era o time a ser batido na época. O título, no entanto, despertou também o interesse de Juve e Inter na competição, pois se o Milan, que estava um patamar abaixo, havia conquistado, era “obrigação” deles também conseguir. Campeão nas duas temporadas seguintes, o rival de Milão conseguiu seu objetivo, enquanto o clube de Turim teve que esperar mais de duas décadas antes de seu primeiro título, que veio em 1985.

A trajetória do Milan em sua conquista inédita da Europa
Time do Milan em Wembley, no dia da conquista sobre o Benfica
Time do Milan em Wembley, no dia da conquista sobre o Benfica

A fórmula de disputa do torneio europeu naquela época era muito diferente. Contando inicialmente com 28 equipes, a competição tinha apenas jogos de mata-mata. As 28 equipes se enfrentavam em jogos de ida e volta nas preliminares, e os 14 vencedores avançavam para a primeira fase, adicionando-se a esse estágio mais duas equipes, que, nesta temporada, foram o atual campeão Benfica e o Reims.

Na fase preliminar, o Milan não tomou conhecimento do Union Luxembourg e passou com um placar agregado de 14 a 0, do qual Mazzola foi responsável por oito gols. O adversário seguinte dos Rossoneri foi o inglês Ipswich Town. Na ida, vitória tranquila por 3 a 0, em Milão. Jogando na Inglaterra, a equipe italiana foi derrotada por 2 a 1, mas avançou para as quartas-de-final. Contra os britânicos, Dino Sani foi o único brasileiro a conseguir balançar a rede, no jogo realizado na Itália.

Pôster da revista France Football para o título do Milan
Pôster da revista France Football para o título do Milan

Na luta por uma vaga na semifinal, Mazzola voltou a mostrar seu poder ofensivo já no primeiro jogo. Na Turquia, contra o Galatasaray, o Milan venceu por 3 a 1, com um dos gols sendo anotado pelo jogador, campeão mundial pelo Brasil em 1958 e jogador da Itália na Copa de 1962, que tornaria a marcar mais três na volta, em Milão, vencida por 5 a 0.

Já nas semifinais, o Milan enfrentou o Dundee, da Escócia, que tinha feito 6 a 2 sobre o Anderlecht no agregado na fase anterior. O jogo de ida, em Milão, foi decisivo para o time italiano, que definiu a parada contra os escoceses com um 5 a 0, que teve gols de Dino Sani, dois de Barison e dois de Mora. Na volta, o Milan não teve sua classificação nem um pouco ameaçada e, mesmo com a derrota por 1 a 0, estava na decisão.

O adversário não poderia ser mais duro: o Benfica, de Eusébio. O peso do duelo, realizado em Wembley, serviu apenas para credenciar ainda mais o título como uma grande conquista. O primeiro tempo parecia encaminhar o clube português para sua terceira taça consecutiva, com Eusébio abrindo o placar aos 19 minutos. No segundo tempo, assim como em quase toda a competição, Mazzola foi decisivo e marcou os dois gols da virada, aos 13 e aos 24 minutos.

Gols de Milan 2 x 1 Benfica

Duelos com o Santos pelo Mundial

O Mundial Interclubes era decidido em jogos de ida e volta, e o Milan jogou a primeira em casa. No San Siro, os Rossoneri não tardaram a abrir o placar. Giovanni Trapattoni (esse mesmo que é técnico hoje, ex-seleção italiana e irlandesa), aos três minutos de partida, inaugurou o marcador. O segundo gol italiano foi marcado pouco depois, aos 15 minutos, pelo brasileiro Amarildo, outro campeão do mundo, este em 1962. Na volta do intervalo, o Santos esboçou uma reação, com Pelé diminuindo a desvantagem para 2 a 1 aos 10 minutos da etapa complementar. No entanto, o time comandado por trataria logo de garantir a vitória, com Amarildo, novamente, fazendo o terceiro aos 22 minutos, e Mora, aos 37, o quarto. Pelé, de pênalti, dois minutos depois, deu sua última contribuição ao Santos no título e fechou o placar em 4 a 2.

Diante de um time tão bem postado defensivamente e sem Pelé, o Peixe sabia que a tarefa de reverter o resultado naquele 14 de novembro de 1963 não seria nada fácil, mesmo jogando no Maracanã. Ao final do primeiro tempo, o cenário era desolador: o Milan vencia por 2 a 0, gols de Mazzola e Mora, e o time brasileiro estava irreconhecível. Na volta para o segundo tempo, uma mudança de postura completa garantiu ao Santos o resultado de que precisava. Dos cinco minutos da etapa final até os 23, a equipe marcou quatro gols, sendo dois deles em cobranças de falta de Pepe, o Canhão da Vila. Almir, que substituía Pelé, e Lima, fizeram os outros dois.

Gols da virada do Santos na narração de Fiori Gigliotti

Expulso, Maldini é conduzido para fora do gramado do Maracanã
Expulso, Maldini é conduzido para fora do gramado do Maracanã

O resultado forçou um terceiro e último jogo, realizado dois dias depois, em 16 de novembro de 1963, também no Maracanã. O único gol da partida, que deu o título mundial ao Santos, foi marcado por Dalmo, de pênalti. Cesare Maldini cometeu a infração em Almir, dentro da área, e, insatisfeito com a decisão do árbitro Juan Regis Brozzi, da Argentina, armou confusão e acabou sendo expulso. Provavelmente a ausência de alguém como Maldini por 60 minutos fez muita falta ao Milan, pela liderança que este exercia em campo. Rivera, que não foi para o jogo, também poderia ter feito a diferença para os italianos, embora o Santos também tivesse o desfalque de Pelé. Desta forma, as mais de 120 mil pessoas presentes no Maracanã viram o Peixe conquistar o bimundial, enquanto o Milan teve de retornar à Itália com a frustração de uma derrota que, até aquele intervalo do dia 14, estava fora de cogitação.

O Milan aos olhos de quem esteve em campo

Pepe, o Canhão da Vila, foi essencial para a conquista do bimundial do Santos, com dois gols de falta no segundo jogo que justificaram seu apelido. Em entrevista à Trivela, o segundo maior artilheiro da história do Peixe, com 405 gols, falou sobre o Milan, seus talentos individuais e deu seu relato sobre a partida.

Conhecimento prévio sobre os Rossoneri

“A gente conhecia um pouco o Milan pois já havíamos jogado com eles. Dizer que a gente conhecia do goleiro ao ponta-esquerda não é verdade, mas a gente sabia que era um grande time. Tinha alguns jogadores de destaque, como o Olivera, o Maldini, o Trapattoni, o próprio Mazzola, Amarildo, a gente sabia que era um time forte e que a nossa tarefa era uma tarefa muito difícil. Mas estávamos confiantes. Para isso (o jogo), nós concentramos no Maracanã uma semana antes.”

Os principais jogadores do Milan

“O Mazzola e o Amarildo eram os grandes destaques do time do Milan. Dois jogadores brasileiros, de seleção brasileira, que foram campeões mundiais e tudo, mas o time do Milan era um todo. O Rivera, o meia-esquerda, era sensacional. Um jogador cerebral, de muita qualidade. E atrás ali do Maldini eles tinham o Trapattoni, que era um jogador que marcava muito forte, sem dar pontapé, um marcador, e ela era encarregado de marcar o Pelé, com o Maldini na sobra. Esses eram os destaques deles, um ponta-direita também que era muito bom, o Mora, ele entrava pelo meio, em diagonal. Era um time certinho mesmo.”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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