Brasil

As massas simplesmente exalam uma angústia ignorante


por Raphael Zarko (@raphazarko)

Imagino Flavio Costa, momentos depois da derrota traumatizante na final da Copa de 1950 para o Uruguai, aos berros nos microfones.

– O Brasil perdeu porque a torcida não apoiou. Ninguém acreditou quando eles empataram. Esse silêncio no Maracanã, um silêncio de 200 mil pessoas no Maracanã, que sepultou qualquer chance de reação do nosso escrete e culminou com o último gol contra nós.

Será que faria algum sentido o treinador inflar o peito, atacar todos brasileiros e dizer que o Brasil só vai ganhar uma Copa do Mundo bem longe do país. Porque só assim não vai sofrer a pressão da torcida, não vai conviver com as desconfianças. E a tese teria sua comprovação oito anos depois, quando, na Suécia, Pelé e Garrincha, sem vaias da própria torcida, sem desconfiança de pertinho, venceram a Copa do Mundo. Não foi o grande time, os grandes e imortais craques daquela época, mas o fator “não teve ninguém para atrapalhar”.

Uma grande bobagem. Falta do que fazer, preguiça de analisar ou descaramento mesmo.

É isso que se observa hoje no futebol quando Daniel Alves critica torcida, quando Oswaldo de Oliveira faz o mesmo e até quando ouvimos que “a torcida do Vasco não tem do que reclamar”. Imagina… Um time despedaçado, que só está em quinto (ainda!) graças a outro time. Uma torcida que percebe um clube em frangalhos. “Vai reclamar de quê? Só se for de barriga cheia.”, dizem. É mole?

O tema torcida x desempenho é um pé no saco. Uma ondinha de conveniência ordinária, falsa, dissimulada. Como se não fosse da natureza de qualquer um reclamar do que não está gostando, racionalmente ou não. Oswaldo tirou autoridade sabe-se lá de onde para dizer que a torcida do Botafogo foi injusta com Fahel. Lembrou que era execrado no Engenhão e no Bahia fez gol contra o Botafogo e vai bem por lá, segundo Oswaldo.

Primeiro que quando Fahel era do Botafogo Oswaldo estava bem longe. Depois que uma torcida não vai nunca conseguir se manifestar da maneira mais adequada, sem ser cruel, irônica. Aliás, deveria fazê-lo diferente por quê?

Oswaldo imaginava mesmo que Fahel erraria mais um passe, perderia mais uma bola, levaria outro cartão vermelho e os botafoguenses formariam, em mosaico, a seguinte mensagem: “Caro Fahel, sabemos da sua limitação técnica e, igualmente, da sua persistência e força de vontade. Mas não o queremos mais como titular do time. Peço desculpas por qualquer inconveniente, mas é para o bem de todos. Grato.”

A vaia é o primeiro recurso. E assim sempre vai ser. A perseguição a um jogador pode ser burra, provocar efeito imediato até contrário ao time, mas só quer dar um recado: treinador, enquanto este cara estiver em campo, vai ser foda de aturar. Se liga, porra!

Dias depois de começar este texto, Eder Luis, atacante do Vasco, caprichou na contribuição ao tema e disse que era lamentável os vascaínos gritarem olé contra o próprio time. Mesmo precipitado e falando besteira, sobrou um pouco de lucidez nas palavras do ponta vascaíno, que também falou em “desgaste” na relação com a torcida. E os vascaínos foram muito mais para cima de Dinamite do que dos jogadores. Faltou lucidez para entender isso.

A muleta da culpa da torcida, seja para o bem – como quando o Vasco estava “isolado” na segunda colocação, mas já em declínio e, este, acontecia porque a “torcida não apoiava, jogava contra” – ou seja para o mal – em times que estão à beira do rebaixamento, une toda hipocrisia do futebol.

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Raphael Zarko

Raphael Zarko, jornalista, corista, errante judeu. Idealista nato do futebol, mais parau João Saldanha e seu jeito peculiar de ver futebol do que teorias e modernismos. O Yougol nasceu no dia primeiro de maio, numa viagem para Buenos Aires, com Eduardo Zobaran e Raphael Zarko. Ele é um resultado de expressões invertidas do jogo, associações indevidas, reflexões descabidas e informações com opiniões. Maior frustração da vida foi não ter visto Pelé e Garrincha jogarem ao vivo. Contato: [email protected] ou @raphazarko. Eduardo Zobaran está de autos. Ou de quarentena, como queiram.

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