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Arena atrapalha, mas não é a principal causa dos problemas financeiros do Corinthians

Desistir da contratação de Dudu talvez tenha sido o momento em que o Corinthians colocou o pé no chão. Não dava mais para manter altos padrões de investimento no time de futebol. Simplesmente porque não havia dinheiro suficiente para pagar todas as contas. A folha salarial já estava alta e foi ainda mais recheada com contratações como Vágner Love e Cristian. Há ainda um inconveniente boleto que precisa ser saldado: as parcelas do sonho da casa própria, que completa um ano de vida útil nesta segunda-feira. O marco zero foi aquela derrota para o Figueirense por 1 a 0, em 18 de maio de 2014.

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Embora muitos se sentissem totalmente confortáveis no Pacaembu, a Arena Corinthians foi a realização dos sonhos de outra parte grande da torcida, cansada de ver esse assunto virar piada na boca dos rivais, e sob certo ponto de vista, um sucesso. O Corinthians, após 34 partidas, tem uma média de público muito respeitável de 31 mil pessoas, a melhor do Brasil. Esportivamente, soube transformar o estádio em alçapão. Já realizou grandes jogos naqueles metros quadrados, como aquele contra o São Paulo pela Libertadores. Foram apenas duas derrotas: a da estreia e para o Guaraní-PAR nas oitavas de final, na qual, para falar a verdade, o resultado foi irrelevante porque o time naquela altura estava eliminado de qualquer jeito.

O preço disso tudo foi uma dívida superior a R$ 1 bilhão que precisa ser paga em 12 anos. Não deveria ser um problema incontornável para um dos clubes que mais fatura no futebol brasileiro, com liderança em bilheteria, contrato de direitos de transmissão mais alto ao lado do Flamengo, em aproximadamente R$ 110 milhões só no Brasileirão, e potencial de marketing enorme pelo tamanho de sua torcida. Mas os erros de gestão que começaram ainda no final da gestão Andrés Sánchez comprometeram qualquer margem de erro que o Corinthians teria para enfrentar os percalços, como, por exemplo, a demora na venda dos naming rights e dos CIDs, documentos de isenção fiscal cedidos pela prefeitura às empresa que quiserem se instalar na zona leste.

Por mais trunfo esportivo e de auto-estima que a Arena seja ao Corinthians, também se tornou uma pedra no sapato do departamento financeiro no mesmo momento em que a estratégia de gestão do clube atingiu o seu esgotamento. Desde a presidência de Andrés até a de Mário Gobbi, a crença foi em um círculo: investimento pesado no futebol, time competitivo, faturamento que supera as despesas e mais investimento. O problema foi que em certo momento a capacidade de gerar renda complementar foi comprometida. Não havia mais Ronaldo para alavancar o marketing. A tentativa de replicar o modelo com Adriano e Alexandre Pato foi fracassada. O desempenho esportivo dos dois, aliás, também não foi dos melhores. A polpuda bilheteria do Itaquerão no último ano foi depositada diretamente na conta do fundo gestor do estádio e será assim até ele ser quitado.

Com dois problemas desse tamanho no orçamento, não seria novidade haver um aperto de cintos durante e logo após a construção de um estádio. Muitos passaram por isso. O Grêmio atualmente é um deles. O São Paulo passou por uma época de vacas magras quando o Morumbi estava sendo erguido e outra quando a estrutura foi recuperada. É natural que os recursos já escassos de clubes que contam moedinhas para pagar a conta de luz não sejam suficientes para manter um time competitivo e pagar os pedreiros. Talvez o grande pecado tenha sido não deixar isso muitíssimo claro à torcida.

“Cenários feitos em épocas de euforia sempre atrapalham”, afirma o especialista em gestão e marketing esportivo e diretor da Pluri Consultoria, Fernando Ferreira. Ele se refere ao delicioso período pré-Copa do Mundo, quando todos os problemas do futebol brasileiro seriam resolvidos com as novas arenas, sempre lotadas e com calendários intermináveis de shows de música. O País das Maravilhas no qual Alice são os clubes, e os estádios, o coelho que os leva ao buraco. “Toda a construção do parque de novas arenas foi construídas em épocas de euforia e em cima de projeções difíceis de se concretizar. No longo prazo, a situação se reverte, porque o clube tem um patrimônio capaz de gerar muita renda. Tem um valor enorme. Só que tem um preço.”

Erros de gestão foram o fermento do bolo, como renovar o contrato de Emerson Sheik por dois anos a R$ 500 mil ou trazer Vágner Love e Cristian por salários que, somados, chegam a R$ 1 milhão ao mesmo tempo em que havia dívidas com jogadores do elenco. “Um ano e meio atrás, erramos a mão, não só em renovação, mas em contratação de jogador”, admitiu Andrés Sánchez, superintendente de futebol e sabe-tudo do Itaquerão em entrevista à TV Gazeta.

Nesse contexto, a surpresa seria se não houvesse cortes no departamento de futebol ou atraso de salários. De acordo com reportagem do Portal UOL, a ideia é reduzir 15% das despesas. A folha salarial está em R$ 9 milhões mensais, R$ 108 milhões por ano, um pouco mais que a parcela do Itaquerão. O Corinthians também tenta encher os bolsos com transferências. O bom zagueiro Gil é o que mais está sendo empurrado para a porta porque o clube detém 90% dos seus direitos econômicos. Depois de alguns anos de megalomania, a ordem diretiva agora é outra: jogadores jovens e mais modestos. Esse novo perfil de formação de time condiz muito mais com quem acaba de construir um estádio do que pagar R$ 40 milhões em Alexandre Pato conhecendo o prejuízo que viria pela frente.

Deve doer no coração ver uma arrecadação tão boa, a maior do Brasil, e não poder mexer nela. A renda bruta de R$ 70 milhões em um ano de funcionamento pode ser considerada muito boa para os padrões brasileiros. Mas, acreditem, não corresponde ao que os gestores esperavam. Em março do ano passado, Andrés estimava uma renda total de R$ 175 milhões. Em novembro, falava em R$ 250 milhões a partir de 2015, “sem o Corinthians colocar um tostão” na arena e ainda dividindo o lucro entre o fundo que a construiu e o clube.

Hoje em dia, o estádio vive basicamente de bilheteria porque os naming rights ainda não foram negociados e a comercialização de camarotes e cadeiras cativas começou há 15 dias. Mas mesmo com a venda dessas propriedades, como os especialistas de marketing esportivo as chamam, dificilmente o valor chegará ao que era esperado. O lucro com arrecadação, tirando as taxas administrativas, foi de aproximadamente R$ 40 milhões em 12 meses. Pouco para saldar os R$ 75 milhões anuais que o clube precisa começar a pagar a partir de agosto do empréstimo do BNDES, segundo Andrés Sánchez . A Trivela entrou em contato com a assessoria do dirigente, mas não foi respondida até o fechamento desta reportagem.

Corinthians no seu primeiro treino no Itaquerão
Corinthians no seu primeiro treino no Itaquerão

O modo mais imediato de juntar dinheiro é vendendo o nome do estádio, negociação tocada por Andrés Sánchez desde a primeira pedra chegar ao terreno. A pedida é de R$ 400 milhões por um contrato de 20 anos, mas está difícil. Em um contexto de ajuste fiscal e recessão técnica da economia, com um Palácio do Planalto ocupado por uma presidente pouco afável ao mercado financeiro, é um duro desafio tirar centenas de milhões de reais de qualquer empresa brasileira. Por outro lado: “Quando começaram a falar em R$ 400 milhões, a taxa de câmbio para o dólar era R$ 1,65. Hoje, é R$ 3. O que era mais de U$ 200 milhões virou U$ 130 milhões. Teve um desconto razoável para o gringo”, explica Fernando Ferreira. Além de procurar um investidor estrangeiro, o especialista diminuiria a pedida. “Tivemos um mercado mais favorável, mas foi um problema de precificação. Foi o problema de nove entre dez propriedades do futebol brasileiro. Tenta se passar o preço de acordo com o que você quer ou acha que vale. Eu faria um contrato de 10 anos. Fecha por R$ 150 milhões por 10 anos e já garante as primeiras prestações”, explica.

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Mas Andrés continua tentando R$ 400 milhões por duas décadas. Aliás, a sua confiança é inabalável. Na entrevista à TV Gazeta, no último domingo, disse que não entende por que há “tanto carnaval” sobre a possibilidade de o Corinthians não pagar as prestações em dia. “Deixamos de fazer duas coisas para deixar a engenharia financeira tranquila: os CIDs, que está começando a resolver, e o nome do estádio. Por que não vendemos? Primeiro, porque acharam que não ia acabar. E foi um problema para eu tomar R$ 400 milhões de uma empresa, em um país que não tem cultura de falar o nome da arena. Estou chegando aos finalmentes e um inteligente cobre o nome do Allianz Parque”, afirmou, lembrando a polêmica do jogo entre Palmeiras e Atlético Mineiro pelo Campeonato Brasileiro. Os CIDs somam R$ 420 milhões, mas o Corinthians está com dificuldades para vendê-los porque um processo do Ministério Público questiona a sua legalidade. Sem falar que a Odebrecht ainda não terminou a obra, o que ainda deve demorar mais 30 ou 40 dias. Atrapalha principalmente a pretensão de usar o Itaquerão para mais eventos corporativos

Com tudo isso, um ano depois, Andrés não faria nada diferente. Na verdade, apenas uma coisinha: “Acho que se tivesse reforçado o Pacaembu seria mais prático, mas o estádio tem sido excelente. Lógico que valeu a pena”. Uma pesquisa entre os torcedores do Corinthians provavelmente corroboraria a opinião do dirigente, mas esse trem já passou. O Itaquerão foi construído, e de fato valeu a pena, embora sempre seja prudente desconfiar do otimismo de Andrés. Boa parte dos corintianos gostou do novo estádio e tem orgulho de ter uma casa própria. Quase todos os ingressos são vendidos com frequência e o time dificilmente perde em Itaquera. A questão é encontrar a fórmula para o estádio trazer apenas benefícios para o público e talvez essa fórmula seja ter um pouco de paciência.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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