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Superação, entrega e bom futebol: Mesmo sem a taça, o Brasil sub-20 deu orgulho e também exemplo

Pouco importava o relógio batendo quatro e meia da manhã. Quem se aventurou em assistir à final do Mundial Sub-20 nesta madrugada, certamente aproveitou a jornada. E o resultado nem era o mais importante. Claro que teve gente fula da vida por esperar 120 minutos e ver o Brasil perder a decisão para a Sérvia por 2 a 1, com um gol sofrido aos 12 do segundo tempo da prorrogação. Normal, é do jogo. No entanto, a maioria parecia satisfeita, independente da derrota. Valeu ver o time jogando no ataque o tempo todo, com um jogo coletivo afinado. Valeu notar as camisas sujas dos garotos, se contorcendo de câimbra no fim, mas sem deixar de correr. Valeu perceber o desabrochar dos talentos. Ainda que o bom futebol e o esforço não tenham valido taça. Valeram, ao menos, a vitória do bom trabalho na base.

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O Brasil entrou no Mundial Sub-20 sob a expectativa de ser chacota. O time se arrastou no Sul-Americano da categoria, com um futebol extremamente pragmático, dependente de chutões e bolas aéreas, além de lampejos. As críticas resultaram em uma convocação contestável, com bons talentos deixados de fora da viagem para a Nova Zelândia. E, para piorar, o técnico responsável pela lista acabou demitido. Por mais que seu trabalho estivesse longe de ser um primor, Alexandre Gallo saiu por posturas bem mais passíveis de críticas nos bastidores da CBF. Ao menos acertaram na reposição. Além de trazerem Erasmo Damiani, de bagagem, para a coordenação, apostaram em Rogério Micale para o comando, técnico de sucesso na base.

O que tinha muito para ser um fracasso, se transformou em sucesso. Gallo deixou um bom legado especialmente ao buscar prodígios perdidos fora do país, como Danilo e Andreas Pereira, correndo o risco de se perderem em outras seleções. Porém, nunca conseguiu formar um time de verdade, o que acabou sendo o grande mérito de Micale. O campeão da Copa São Paulo com o Figueirense e da Taça Belo Horizonte com o Atlético Mineiro soube reproduzir os seus bons trabalhos. Ao invés da busca pelo resultado, que se impregna na base, a seleção passou a contar com objetivo. O jogo ofensivo, de bom toque de bola e pressão no campo de ataque. As vitórias se tornaram fim, e não meio. Prevaleceu o talento disponível entre as promessas, que culminou em uma grande campanha do Brasil, muito acima do esperado.

Obviamente, nem tudo saiu à perfeição. A Seleção venceu todos os seus jogos na primeira fase, mas nem sempre encantando. Sofreu mais do que deveria contra o Uruguai e teve sua cota de sorte contra Portugal. Embalou mesmo na semifinal, contra Senegal, quando enfiou uma goleada por 5 a 0 com tudo aquilo que se fetichiza sobre futebol brasileiro: triangulações, dribles, qualidade técnica, muitos gols. Boa atuação que se repetiu também na final, contra a Sérvia. Só não havia exatamente a mesma liberdade. O time do leste europeu se fechava muito bem na defesa, com linhas de marcação disciplinadas. E, quando os brasileiros achavam uma brecha, paravam no goleiro e capitão Rajkovic, o melhor do campeonato.

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O Brasil finalizou mais e teve mais posse de bola na decisão em Auckland. Teve a vitória nas mãos em vários momentos. Assim como poderia perder antes. Depois de um excelente início de primeiro tempo, parando na defesa sérvia, o Brasil tomou pressão. Salvou-se graças ao goleiro Jean. Já na volta do intervalo, quando tinha mais volume e buscava finalizar, tomou o gol em um ataque rápido concluído por Mandic após boa jogada de Zivkovic. Por sorte, o time não se abateu e buscou o empate instantaneamente, em ótima jogada individual de Andreas Pereira, que acabara de sair do banco. E o meia quase fez o segundo, em cobrança de falta espalmada por Rajkovic.

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A prorrogação veio e, por mais que o Brasil diminuído sua capacidade ofensiva, com a troca de Gabriel Jesus (que muito perturbou, mas também se afobou) por Alef, seguiu martelando.  Malcom, especialmente, tinha as pernas que nenhum dos desgastados adversários conseguiam acompanhar. Faltou o gol. Todo postado no campo de ataque, a Seleção também oferecia suicidamente as costas de sua zaga. Acabou sofrendo com isso da pior maneira possível, em um contra-ataque que Maksimovic concluiu. Até havia tempo, mas não o suficiente. Ao apito final, os brasileiros choraram. Derrota sentida pelo título tão próximo, mas não pelo excelente resultado da campanha. E pela forma como a equipe se portou.

O Brasil sem recursos de seis meses atrás se transformou em uma equipe dinâmica, muito consistente coletivamente e com pinceladas de talento individual. Não é algo que surgiu do nada. Mas sim de uma mentalidade que agregou a inteligência tática dos jogadores com o que eles sabiam fazer com a bola nos pés. Os mesmos que tocavam com precisão e driblavam também se movimentavam na troca de posições e pressionavam a saída de bola. Nem foi preciso apelar para o chuveirinho para tentar vencer nos momentos de desespero. A Seleção jogou na bola. E, simples assim, quase saiu campeã.

Difícil dizer quem deste time vai vingar. Promessas não faltam, passando por todas as posições. Jean operou verdadeiros milagres, em especial na decisão. Marlon foi quase impecável no miolo de zaga, muito firme, a não ser pelo erro de opção no gol final. Lucão se destacou pelo alto, enquanto João Pedro e Jorge (especialmente no ataque) deram um enorme gás na lateral. A cadência e a segurança se misturavam entre Danilo e Jajá, entregando a bola saída de bola a Boschilia. Marcos Guilherme cresceu ao longo do torneio, incansável, combinando-se à habilidade de Gabriel Jesus. Do banco, com extrema categoria, Andreas Pereira foi o melhor da decisão. Jean Carlos se entregou na fogueira de substituir Judivan. E ainda haviam os outros no banco, com Alef, Malcom e Léo Pereira. Ou os outros que sequer foram convocados, incluindo Gerson, Carlos, Otávio, Nathan, Gabigol e mais tantos.

Provável que não saia ninguém do nível de Neymar. Ou mesmo que não tantos vingarão na seleção principal quanto a geração de 2011. Independente disso, o saldo final do trabalho é positivo. Especialmente pela capacidade de jogar um bom futebol que este time demonstrou. Algo que a gente até se desacostumou a ver no time principal, e que por isso mesmo se faz mais importante. Nas categorias de base essa mentalidade se torna fundamental. Para formar jogadores mais inteligentes e dinâmicos, menos robotizados.

Que este elenco não entregue tantos talentos mesmo ao time olímpico. Uma maneira de trabalhar e de pensar o jogo ficam. É o que pavimenta o futuro desses garotos mesmo em seus clubes, enquanto fortalece a sequência de Micale e Damiani após desarmarem a bomba que receberam nas mãos, quase explodindo. O que vale mais, vencer como Dunga nos últimos meses ou perder como a seleção sub-20 no Mundial? A satisfação com a postura, mais do que com o resultado, diz muito. Quando se batia na tecla de uma reformulação após a Copa de 2014, é esse caminho que muitos imaginavam. E só depois de erros e erros é que, por um acaso, a CBF conseguiu acertar. Momento de aproveitar a deixa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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