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“A leste, a Muralha da China; a oeste, Domingos da Guia”: os 15 anos sem o Divino Mestre

“A leste, a Muralha da China. A oeste, Domingos da Guia. Nunca houve zagueiro mais sólido na história do futebol. Domingos da Guia foi campeão em quatro cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu e Buenos Aires) e foi adorado pelas quatro: quando jogava, os estádios enchiam. Antes, os zagueiros se agarravam aos atacantes feito selos em envelope, e livravam-se da bola como se ela lhes queimasse os pés, chutando-a o quanto antes para o alto. Domingos, ao contrário, deixava passar o adversário, investida vã, enquanto lhes roubava a bola, e depois tomava todo o tempo do mundo para tirar a pelota da zona de perigo. Homem de estilo imperturbável, fazia tudo assobiando e olhando para o outro lado. Desprezava a velocidade. Jogava em câmera lenta, mestre do suspense, amante da lentidão”.

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As palavras de Eduardo Galeano em ‘Futebol ao Sol e à Sombra’ ajudam a dimensionar a categoria de Domingos da Guia. Poucos são aqueles que, ainda vivos, foram testemunhas oculares do talento do carioca. Um dos primeiros defensores a ganhar a pecha de craque. Mesmo sendo raros os seus registros em vídeo, fica difícil de conquistar o posto de Domingos como o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos. As muitas linhas escritas sobre o Divino Mestre já servem para dimensionar a sua grandeza.

Curiosamente, Domingos da Guia se transformou em um grande zagueiro graças ao maior técnico da história do basquete brasileiro. Antes de ser bicampeão mundial com a seleção, Kanela também treinou equipes de futebol. E em sua passagem pelo Bangu que o comandante reposicionou o garoto, então meio-campista, na defesa. O rapaz que trabalhava como mata-mosquitos no Departamento de Saúde Público do Rio de Janeiro e também na Fábrica de Tecidos Bangu começou a fazer fama no futebol. Tornou-se um dos jogadores mais aclamados da América do Sul nas décadas de 1930 e 1940.

O sucesso de Domingos da Guia extrapolou as fronteiras em setembro de 1931, quando sequer havia completado 19 anos. O zagueiro disputou o seu primeiro jogo oficial pela Seleção na Copa Rio Branco, competição amistosa que os brasileiros disputavam anualmente contra o Uruguai. O banguense era um dos novatos da equipe. E teve uma atuação lendária para brecar a Celeste, campeã do mundo e bicampeã olímpica, na vitória do Brasil por 2 a 0 no Estádio das Laranjeiras.

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O lance maior de Domingos da Guia aconteceu contra Pablo Dorado, mítico ponta esquerda que abriu o placar na final da Copa de 1930. Conhecido por sua velocidade, o uruguaio partiu em disparada para cima do zagueiro. Passou por ele, pelo goleiro Veloso e só parou quando já estava nas redes. Porém, quando a torcida comemorava o golaço e os companheiros corriam para abraçar Dorado, é que perceberam o golaço que nunca existiu. A bola estava sob os pés do Divino Mestre, que aguardava pacientemente o fim da festa dos visitantes para continuar o jogo. Ninguém tinha reparado no desarme perfeito. Nem mesmo o ponta esquerda, que, entre os aplausos da torcida brasileira, cumprimentou Domingos com um gesto resignado.

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Aquele jogo abriu as portas do Vasco para Domingos da Guia. Só que o futebol brasileiro não comportaria o talento do craque por muito tempo. Em mais uma atuação gigantesca contra o Uruguai, desta vez dentro do Estádio Centenario, o zagueiro comandou ao lado de Leônidas da Silva (em sua primeira partida pela seleção) a vitória por 2 a 1 sobre a Celeste, em dezembro de 1932. Naquela mesma visita a Montevidéu, o Brasil também derrotou Peñarol e Nacional. E, em tempos nos quais o profissionalismo já era realidade nos vizinhos do Rio da Prata, mas não nos clubes brasileiros, o Divino Mestre ficou na cidade e assinou com o Nacional.

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No Uruguai, Domingos da Guia compôs uma das melhores defesas da história, ao lado de José Nasazzi, capitão da Celeste. Não tinha como não sair campeão uruguaio em 1933. Voltou ao Brasil para mais uma breve passagem pelo Vasco, já profissionalizado, antes de escrever sua lenda e ser campeão também pelo Boca Juniors de Francisco Varallo. Em 1936, voltou em definitivo ao país, para se tornar ídolo das atuais duas maiores torcidas. Três vezes campeão estadual pelo Flamengo, transferiu-se ao Corinthians para ganhar duas vezes a Taça Cidade de São Paulo. Seu penúltimo clube, antes de se aposentar por seu querido Bangu em 1950.

Pela Seleção, Domingos completou 30 partidas entre 1931 e 1946. Atrapalhado pelo amadorismo e pela guerra, só disputou a Copa do Mundo em 1938, quando mesmo o pênalti cometido na derrota para a Itália não atrapalhou a sua idolatria pela grandiosa campanha, a primeira até as semifinais. Aos torcedores, ver Domingos valia o ingresso. Os desarmes, os lançamentos precisos, os dribles brincando com o perigo. Como definiu Gilberto Freyre, era um apolíneo em meio aos dionisíacos. Um símbolo da perfeição em meio à ginga de outros talentos do futebol nacional. O que não o fazia perder a humildade.

“Esta aqui, a bola, me ajudou muito. Ela ou as irmãs dela, não é? É uma família e sinto gratidão por ela. Na minha passagem pela Terra, ela foi o principal. Porque sem ela ninguém joga. Comecei na fábrica em Bangu, trabalhando, trabalhando, até que encontrei minha amiga. E fui muito feliz com essa aí. Conheço o mundo inteiro, viajei muito, muitas mulheres. Isso também é uma coisa gostosa, não é?”, disse o craque, em entrevista a Roberto Moura. A passagem do Divino Mestre pela Terra se encerrou em 18 de maio de 2000, há exatos 15 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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