Brasil

A justificativa para livros serem proibidos nos estádios de São Paulo não convence

Meu pai havia dito que estacionaria em um dos shoppings que ficam perto do estádio. Por isso, decidi levá-lo comigo, em vez de deixá-lo no escritório. Mesmo chegando um pouco em cima da hora, daria tempo de guardá-lo no carro. Mas meu pai mudou de ideia e parou a aproximadamente dez ruas de distância. O jogo começaria em 15 minutos. Pensei em recorrer a um bar que frequento, como fiz outras vezes, mas havia pessoas demais no meu caminho para acessá-lo antes que a bola rolasse. Já em desespero, percorri as cercanias do estádio em busca de um esconderijo. Encontrei um arbusto, protegido por uma fileira de motos, na porta de uma borracharia. Por que não? Coloquei-o debaixo de algumas plantas e acrescentei à torcida pelo meu time que ele estivesse me esperando quando a partida terminasse.

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O que, afinal, pergunta-se o leitor, seria esse misterioso objeto que precisou ser escondido porque não passaria pela revista da Polícia Militar na entrada do estádio? Drogas? Arma de fogo? Uma faca? Diamantes africanos contrabandeados? Nada disso: um livro.

Quase dez anos atrás, consegui entrar nesse mesmo estádio com um pequeno livro. Lembro até qual era: uma breve biografia de John Lennon, que fazia parte de uma série sobre a vida de personalidades mundiais publicada por uma revista semanal brasileira. Naquela ocasião, cheguei com bastante antecedência e terminei a história do Beatle antes do apito inicial. No entanto, também tenho a lembrança de precisar jogar jornais no lixo e ouvi relatos de amigos que foram barrados pela ousadia de ir a uma partida de futebol em São Paulo diretamente a partir da faculdade, portando cadernos ou livros.

Na dúvida, decidi tentar preservar os R$ 40 que eu teria que pagar se perdesse o livro emprestado pela minha namorada, apostando que, mesmo na hipótese de que ele fosse encontrado, a torcida palmeirense não seria muito fã de Nick Hornby. Ganhei a aposta. Quando a partida terminou, ele estava no lugar onde eu o havia deixado. Ao relatar minhas peripécias nos arredores do Allianz Parque nas redes sociais, fui informado de diversos outros casos parecidos e questionei a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo em busca de explicações. Elas vieram, mas não são muito satisfatórias.

Segundo o órgão, a Polícia Militar realiza uma triagem “dos materiais permitidos e restritos, principalmente para evitar que haja interrupção, quebra da ordem pública com incêndios, arremessos de objetos em todas as pessoas presentes, entre outros atos nocivos à tranquilidade pública”. Recorre à resolução 122 de 24 de setembro de 1985, que no seu artigo 3º proíbe, “nas praças desportivas ou locais onde se realizarem espetáculos públicos sujeitos ao policiamento estadual, a entrada e venda de papel em rolo de qualquer espécie, jornais e revistas”. Afirmou a Secretaria à Trivela: “Na situação mencionada, o livro assemelha-se aos jornais e revistas, seja pela facilidade em arremessá-lo em campo ou contra pessoas, seja como material inflamável”.

O órgão também citou a lei 9.470, de 27 de dezembro de 1996, que reforça algumas proibições da resolução, mas não engloba nada que possa ser caracterizado como um livro. Questionada, a SSP disse que essa lei “especifica mais alguns materiais proibidos, para conhecimento”.

Ou seja, aquele contorcionismo absurdo para esconder o meu livro foi necessário porque a Polícia Militar achava que eu poderia atirá-lo em um acesso de raiva ou incendiá-lo – o que eu nunca faria, pelo menos não antes de descobrir o final da história.

A resolução proíbe outras coisas, como bebidas alcoólicas, drogas, fogos de artifício, materiais e objetos que possam causar ferimentos, armas de fogo e branca e balões em geral – provavelmente aquele de festa junina, e não o que você ganha do palhaço em uma festa infantil -, artefatos que são, de fato, um pouco mais delicados. Agora, um livro? A história mostra que, as vezes em que um livro machucou alguém, no geral, foi por causa das ideias que ele continha e não da sua capa dura ou do potencial inflamável das suas páginas.

É até plausível imaginar que alguém perca a cabeça com o milésimo passe errado do lateral esquerdo e arremesse o que tiver em mãos. Mas isso vale também para objetos que não são proibidos, como radinhos de pilha, isqueiros, celulares, garrafas de água ou um tênis. E convenhamos: o torcedor de futebol com piromania não escolhe um livro para fazer fogo. Jornais são muito mais convidativos e baratos.

Quem passa pelo trabalho de carregar um livro pelo transporte público ou enche um caderno com fórmulas de física não costuma ter a intenção de transformar aquelas páginas em cinzas. Caso o impulso de queimar alguma coisa seja incontrolável, ele tem à disposição a própria meia, a camiseta, faixas ou bandeiras, o papel toalha do banheiro, o guardanapo daquele cachorro-quente horrível que é vendido ou qualquer coisa menos valiosa, monetária e simbolicamente, que um livro.

No meu caso, foi um luxo, pois prefiro encarar os 50 minutos entre minha casa e o trabalho, na ida e na volta, com algo para me distrair, mas realizo um trajeto pequeno em comparação aos que são feitos em São Paulo. E quem passa de cinco a seis horas por dia no transporte público? E o estudante que decide ir a um jogo de futebol direto da faculdade ou do curso técnico? E a pessoa que sai do trabalho com contratos ou outra papelada e não pode nem arriscar escondê-los no arbusto? A medida acaba apenas desencorajando a ida a um estádio de futebol, que não deveria ser tão complicada assim. Nem deveria partir de um órgão público o desincentivo à leitura.

Chamada Trivela FC 640X63

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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