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A demissão de Dunga e como o futebol brasileiro vive o dia da marmota

A eliminação foi vergonhosa. O futebol apresentado ficou abaixo do esperado. Os jogadores não renderam bem e a equipe pareceu mal armada pelo técnico. Os problemas apontados nos últimos meses acabaram se concretizando. O time só tinha um jeito de atuar e não mostrou ter um plano B quando precisou. Além disso, ainda mostrou um descontrole emocional já anunciado há tempos. Tudo isso somado levou à eliminação e mais uma frustração do futebol brasileiro.

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O futebol brasileiro se viu questionado. Será que somos só isso? Cair nas quartas de final, mais uma vez? Onde estão os craques? É a pior geração em muito tempo. Ah, o dono dessa camisa 9 já foi Ronaldo, Careca, tínhamos Romário, Rivaldo… Precisamos de renovação. O técnico parece ter ideias antigas, é preciso renovar. Onde está o talento? Com tudo isso, os pedidos pela saída do técnico só aumentaram. Futebol bonito  virou só marketing. Aliás, esse é mais um problema: o futebol virou muito marketing. É muito jogador milionário. O futebol brasileiro precisa voltar às suas origens. Como vamos jogar a Copa do Mundo em casa com um futebol tão burocrático?

Epa, estranhou algo aí? Jogar Copa do Mundo em casa? Sim, pois é, tudo isso aí que lemos tem a ver com 2 de julho… de 2010. Nesse dia, Dunga foi demitido da seleção brasileira depois da campanha na Copa do Mundo da África do Sul acabar diante da Holanda, nas quartas de final. Pela segunda vez consecutiva, o time caía nesta fase – em 2006, tinha sido contra a França. O técnico, que recebia elogios pelos seus resultados, era também criticado pelo futebol que o time apresentava – ou deixava de apresentar – em diversos momentos.

O Brasil de Dunga, eliminado na Copa de 2010, era um time forte, que vencia adversários considerados favoritos. De forma pragmática, é verdade, mas vencia. A Copa América de 2007 foi uma coleção de más atuações, jogos ruins e o time foi passando aos trancos e barrancos. Acabou chegando à final contra uma Argentina muito melhor – no papel e no campo – e eis que o time jogou uma partida épica, venceu por 3 a 0 e ficou com a taça. Começava ali a trajetória de Dunga que o levaria até 2010, com alguns daqueles jogadores campeões em 2007 – em mais uma das críticas que ele recebeu, por ser fiel demais a jogadores que estavam em má fase quando chegou o momento da Copa, casos claros de Doni e Kléberson, para ficar em dois.

Suas convocações eram questionadas. O que dizer de Doni? Quando foi chamado à Copa do Mundo de 2010, o jogador mal atuava pela Roma e vivia má fase técnica. Foi chamado pela boa Copa América que fez em 2007. Grafite, que tinha feito uma grande temporada em 2008/09 (mas não tão boa em 2009/10), foi chamado às vésperas da Copa de 2010 e acabou ganhando uma vaga que seria de Adriano, que já vivia o início da decadência depois do ano magnífico de 2009. Vale lembrar que no jogo contra a Holanda, Dunga terminou com duas substituições por fazer. Só tinha feito uma: tirou Luís Fabiano e colocou em campo Nilmar. Quando viu que precisava mudar mais, olhou para o banco e viu o seu auxiliar, na época, Jorginho, abrir os braços, sem saber o que fazer.

Sim, as convocações de Dunga eram bastante questionadas. Para lembrar um nome marcante: Afonso Alves, aquele, artilheiro do Heerenveen, mostrou-se horroroso em campo. O time não jogava grandes coisas e teve momentos terríveis nas eliminatórias, como os empates em 0 a 0 com Colômbia e Bolívia em casa, jogando muito mal e sendo vaiado. Teve ainda as Olimpíadas de 2008, quando o time também fez um papel muito ruim. Levou o bronze em Pequim, mas jogou um futebol pobre e ainda tomou uma paulada da Argentina de Riquelme nas semifinais.

Dunga apostou nos medalhões, mas não no começo. A sua primeira convocação tinha nomes de jogadores jovens em 2006, como Dudu Cearense, Daniel Carvalho e Rafael Sóbis. Uma renovação que, aos poucos, foi sendo deixada de lado porque os resultados urgiam. Ao contrário do que faria o seu sucessor, Mano Menezes, que apostou em um time jovem e em um jeito de jogar mais ofensivo, Dunga quis manter um time competitivo, às custas de um futebol mais bonito. Conseguiu. Chegou a 2010 com medalhões e jogadores cascudos. Cascudos até demais.

Não havia espaço para apostar ou jogadores tão jovens quando chegou a hora da Copa do Mundo. A pressão por Neymar e Ganso não adiantou. Eles não foram chamados. Dunga quis apostar no couro grosso dos jogadores que chamou porque sabia que o chicote das críticas estralaria e ele precisava de quem aguentasse o tranco. Como ele, em 1994, injustamente estigmatizado na Copa anterior. Ele teve casca grossa. Montou um time à sua imagem e semelhança. Até Kaká, até então sempre bom moço, virou uma espécie de bad boy. Tudo foi pelos ares em 45 minutos contra a Holanda.

Naquele dia 2 de julho, Dunga foi demitido com todo esse histórico e problemas. O diagnóstico era que o futebol brasileiro precisava ser resgatado. Havia um clamor por renovação, pela mudança estrutural do futebol brasileiro. O diagnóstico era que o Brasil precisava voltar a jogar como Brasil, com o seu estilo, algo que o time tinha perdido com Dunga, que armou um time vitorioso, mas que atuava em velocidade e no contra-ataque. Não propunha o jogo.

Curiosamente, passados cinco anos, os problemas parecem os mesmos e nem o diagnóstico mudou. Como se tentou resolver os problemas, ao menos no que diz respeito à seleção brasileira, em cinco anos?

Dunga foi demitido e o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, convidou Muricy Ramalho para o cargo. O então técnico do Fluminense acabou não acertando e o convidado foi Mano Menezes, que estava no Corinthians. A missão era renovar o time, que estava recheada de veteranos na época, e resgatar o estilo brasileiro de jogar. Neymar, Paulo Henrique Ganso e Alexandre Pato foram convocados e representavam essa renovação, mas o Brasil sofreu muito.

Sob o comando de Mano Menezes, o time não conseguia padrão, teve muitas convocações questionadas, viu dois dos seus três principais nomes irem mal – Ganso e Pato – e o time não conseguia vencer nenhum grande adversário. Veio a Copa América de 2011, em uma eliminação contra o Paraguai nos pênaltis, com atuações pouco convincentes.

No ano seguinte, a Olimpíada acabaria em decepção, com o Brasil caindo diante do México na final. Uma derrota dolorosa e que deixou sequelas. Meses depois, José Maria Marin, que assumiu a CBF após os escândalos que afastaram Ricardo Teixeira no início daquele 2012, demitiu Mano Menezes. Quem, então, foi chamado? Luiz Felipe Scolari. Renovação? Estilo brasileiro de jogar? Tudo isso foi deixado para trás em favor de um time que, enfim, vencesse.

E venceu. Ao menos na Copa das Confederações, quando o Brasil derrotou a Espanha na final e deixou a torcida com a esperança que seria possível ser campeão na Copa do Mundo em casa. Ninguém imaginava que o que viria mesmo seria choro e ranger de dentes, atuações ruins, classificação dramática contra o Chile quando o time mereceu perder e a maior goleada sofrida pela seleção na história, o 7 a 1 para a Alemanha na semifinal. O que foi feito?

Após o 7 a 1, veio Dunga. O trauma foi tão grande que os dirigentes consideraram que um técnico que vencesse já era suficiente. Mesmo que as vitórias viessem com um futebol ruim, com uma supervalorização do sofrimento. Vieram, então, 11 vitória seguidas em amistosos e na estreia da Copa América –, mas sofrendo muito para arrancar um gol no final do jogo contra o Peru, primeiro adversário na competição sul-americana.

A eliminação diante do Paraguai traz muito do que vimos depois daquele jogo contra a Holanda, quando o mesmo Dunga era comandante do Brasil, e dias depois, em um 2 de julho como hoje, o técnico acabou demitido. Os problemas seguem. O Brasil continua sendo um time que só tem um plano de jogo – e esse plano atende pelo nome de Neymar – e depende de jogadores velocistas. Há um questionamento constante das convocações de jogadores, desconfiança em relação ao futebol praticado pelo time e um diagnóstico que o Brasil é um time psicologicamente frágil – em 2010, porque era pilhado demais; em 2015, porque é visto como um time que treme na base.

Neste dia 2 de julho de 2015, Dunga não foi demitido, embora o cenário em relação à 2010 seja muito semelhante. Mas a solução da CBF parece seguir a cartilha do repeteco: a criação de um Conselho de Desenvolvimento Estratégico do futebol brasileiro, segundo as palavras do coordenador de seleções, Gilmar Rinaldi. E quem irá participar? Luiz Felipe Scolari, Mano Menezes, Carlos Alberto Parreira, Zagallo, Emerson Leão, Vanderlei Luxemburgo, Sebastião Lazaroni, Paulo Roberto Falcão e outros. Percebeu algo que liga todos estes técnicos? Todos eles ocuparam o cargo de treinador da seleção. Veja que grande ideia: chamar aqueles que viveram estes problemas e até os agravaram para ajudar a encontrar a solução. Faz algum sentido? Parece mais um desses eventos corporativos que chamam um monte de figurões para darem palestras motivacionais cobrando uma fortuna de quem assiste.

O futebol brasileiro parece viver o Dia da Marmota, como no filme “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, em inglês, que é literalmente “dia da marmota”), dirigido por Harold Ramis, com Bill Murray e Andie McDowell. No longa, Murray é um repórter escalado para cobrir o Dia da Marmota pelo quarto ano consecutivo. Frustrado por ter que fazer novamente uma matéria sobre o caso, ele não esconde a insatisfação. O problema é que ele acorda sempre no mesmo dia: o dia da marmota. E ele é obrigado, no filme, a viver aquele mesmo dia dezenas de vezes. Ele precisa viver esse dia incessantemente até descobrir um modo de sair dele.

Talvez o futebol brasileiro esteja vivendo o seu dia da marmota há anos. Vivemos os mesmos problemas e fazemos o mesmo diagnóstico. Não tentamos resolver o problema e nos frustramos pelas mesmas coisas, pedindo as mesmas mudanças, do mesmo jeito, em um ciclo que lembra a frustração do personagem de Murray ao acordar, todos os dias, naquele mesmo maldito dia. Será que chamar as mesmas pessoas para resolver os velhos problemas nos tirará deste dia da marmota? Parece difícil. O futebol brasileiro precisa encontrar a sua Rita, que o faça sair desse ciclo infinito de decepções.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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