O histórico dos confrontos entre Brasil e Alemanha se concentra praticamente em amistosos. De 22 partidas, apenas quatro aconteceram por competições correntes: a final da Copa de 2002 e o eterno 7 a 1, bem como dois embates pela Copa das Confederações. Em janeiro de 1981, os dois países se cruzaram na fase de grupos do Mundialito, que comemorava os 50 anos da Copa de 1930, e em junho de 1993 se pegaram pela US Cup, torneio preparatório realizado pelos Estados Unidos às vésperas do Mundial no país. No mais, todos os outros 16 jogos foram combinados entre as duas federações, em amistosos que ocorrem desde a década de 1960. E é curioso notar a maneira como as seleções se encaram como parte importante na própria preparação rumo à Copa do Mundo.

O primeiro amistoso aconteceu em 1963, com Coutinho e Pelé delineando a virada brasileira por 2 a 1 no Volksparkstadion de Hamburgo. Já entre 1965 e 1998, Brasil e Alemanha se enfrentaram 15 vezes, sendo nove amistosos no ano anterior à Copa ou no mesmo semestre em que se iniciaria o Mundial.

A primeira vez que isso aconteceu foi rumo à Copa de 1966, em peleja comemorando o quarto centenário do Rio de Janeiro. Em jogo de muita violência e 60 faltas, a Seleção bateu a Alemanha Ocidental por 2 a 0 no Maracanã, com gol de Flávio Minuano e bomba de Pelé cobrando falta. Manga também fez sua estreia na equipe nacional naquela ocasião. Antes da Copa de 1970, houve uma certa “quebra”, com um duelo em cada país realizado em 1968 – 2 a 1 favorável aos alemães em Stuttgart, contra um Brasil cheio de novatos escalados por Aimoré Moreira, em que Tostão anotou o gol de honra, e 2 a 2 no Rio de Janeiro, com Edu fazendo dois e Klaus Gerwien garantindo o empate de bicicleta no segundo tempo. O triunfo germânico no Neckarstadion, aliás, seria o único nos dez primeiros confrontos entre os países. A partir de então, até o Mundial da França, apenas em 1990 é que as duas federações não marcaram o jogo preparatório à beira da Copa.

Em junho de 1973, o Brasil de Zagallo fazia turnê pela Europa e venceu no Estádio Olímpico de Berlim por 1 a 0, gol do ponta Dirceu e partidaça de Luis Pereira. Quatro anos depois, em junho de 1977, seria a vez da Alemanha Ocidental visitar o Maracanã e arrancar o empate por 1 a 1, com Klaus Fischer abrindo o placar e Rivellino igualando em lance de raça. E ainda houve uma viagem da Seleção a Hamburgo em abril de 1978, com o ascendente Nunes garantindo o triunfo por 1 a 0, após jogadaça de Zé Maria.

Às vésperas do Mundial de 1982, a freguesia germânica foi ampla. Além de golear por 4 a 1 no referido Mundialito, o Brasil aplicou 2 a 1 em maio de 1981, em noite lendária do time de Telê Santana no Neckarstadion. Klaus Fischer abriu o placar, mas a Canarinho buscou a virada no segundo tempo, graças a um míssil de Toninho Cerezo e a uma cobrança de falta cheia de efeito de Júnior. Aquele jogo seria ainda mais lembrado por Waldir Peres, que precisou encarar Paul Breitner na marca da cal. Até aquele momento, a estrela alemã nunca tinha desperdiçado uma cobrança. Na primeira, o goleiro saltou à direita e pegou, mas o árbitro mandou voltar. Então, em tiro mais ao centro, operou outro milagre, negando o segundo gol aos anfitriões. Já em março de 1982, os brasileiros repetiram a dose no Maraca. Em mais uma exibição assombrosa de Valdir Peres, Júnior marcou o gol da vitória por 1 a 0, nos minutos finais. A partida contou com as estreias de Careca e Adílio – este, um dos melhores em campo, com belíssima assistência ao companheiro de Flamengo.

Em março de 1986, novo encontro, desta vez em Frankfurt. Aviso à equipe de Telê, com a vitória do Nationalelf por 2 a 0. Hans-Peter Briegel e Klaus Allofs anotaram os gols, naquela que foi a primeira aparição de Müller com a camisa amarela. Nos anos seguintes, dois jogos desconexos com o “calendário da Copa”: empate por 1 a 1 em 1987 e triunfo tupiniquim por 3 a 1 em 1992. Já em novembro de 1993, seis meses depois do movimentado empate por 3 a 3 na US Cup, a reunificada Alemanha bateu o experimental time de Parreira por 2 a 1, com Edmundo cruzando para Evair assinalar o tento de honra em Colônia. Até que, por fim, o último grande jogo preparatório entre Brasil e Alemanha acontecesse em março de 1998, mais uma vez em Stuttgart. Um jogo intenso e não tão lembrado, que merece o resgate antes que os comandados de Tite e Joachim Löw pisem no gramado do Estádio Olímpico de Berlim.

Havia grande expectativas sobre aquele amistoso. Afinal, Brasil e Alemanha eram os dois campeões do mundo mais recentes, bem como os então donos das taças continentais. O embate até poderia ter acontecido na Copa das Confederações de 1997, mas o Nationalelf abriu mão de sua vaga após conquistar a Euro 1996, permitindo que a República Tcheca figurasse na competição. Assim, por mais que houvesse uma impressão de fim de ciclo no trabalho de Berti Vögts, pela idade avançada de alguns protagonistas, a badalação de um time que sustentava uma sequência invicta de 22 jogos era inegável. Enquanto isso, do outro lado, a Seleção de Zagallo voava baixo depois de arrebentar na Copa América e na Copa das Confederações, mas precisava recobrar o moral após a participação decepcionante na Copa Ouro semanas antes. Tempos de Romário e Ronaldo no ataque.

O Brasil escalou em Stuttgart nove jogadores que seriam titulares na abertura da Copa do Mundo. As únicas mudanças foram o cortado Romário e o inconstante Denílson. No mais, todas as outras peças estavam lá: Taffarel, Cafu, Aldair, Júnior Baiano, Roberto Carlos, Dunga, César Sampaio, Rivaldo e Ronaldo. A partida ainda marcava a “estreia” de Zico como coordenador técnico. Já a Alemanha preservava decanos como Andreas Köpke, Jürgen Kohler, Andreas Möller, Olaf Thon e Jürgen Klinsmann, todos eles presentes no tricampeonato mundial em 1990. Klinsmann, aliás, formava a dupla de ataque com Oliver Bierhoff, que causou impacto na Euro 1996.

E no fim das contas, aquele jogo pareceu realmente valer pelo Mundial da França, em diferentes perspectivas. Em meio ao frio de zero grau no Neckarstadion, o confronto era muito pegado, com cartões distribuídos a todos os lados. A Alemanha começou pressionando, parando em milagre de Taffarel – criticado pelo momento no Atlético Mineiro. Já aos 27 minutos, um filme que se repetiria na Copa: escanteio cobrado por Cafu para que César Sampaio cabeceasse às redes, abrindo o placar em jogada que se provaria fortíssima meses depois. Aos 30, o Nationalelf ainda ficou com um a menos. O veterano Kohler entrou de maneira desleal em Cafu e recebeu o vermelho direto. Apesar da vantagem numérica, o time de Zagallo não apresentava muito, dependendo basicamente das subidas dos laterais como válvula de escape.

No segundo tempo, o Brasil também se descontrolou e ficou com um jogador a menos. O capitão Dunga recebeu o segundo amarelo aos 12 minutos. Zagallo não mexeu no time, com Rivaldo recuando, enquanto César Sampaio se desdobrava na cabeça de área – em grande atuação do volante. Independentemente disso, a Alemanha empatou logo na sequência. A partir de uma bola roubada na intermediária, os germânicos armaram o contra-ataque. Aldair tentou proteger, mas escorregou e abriu o caminho a Ulf Kirsten (saindo do banco, no lugar de Klinsmann) tocar na saída de Taffarel. Em busca da vitória, Zagallo colocou Bebeto e Doriva em campo, nas vagas de Romário e Denílson. A solução, de qualquer maneira, viria mesmo com os titulares, já aos 43 do segundo tempo.

O gol da vitória foi bastante característico. Roberto Carlos interceptou um passe e arrancou no campo de defesa. Percebeu a projeção de Ronaldo e, do círculo central, mandou um passe rasteiro, por entre os zagueiros. E naquela fase, ninguém conseguia acompanhar o Fenômeno quando acelerava ao máximo. Em mais um lance imparável, deixou Köpke comendo grama, após dar uma finta de corpo no goleiro. Com a meta vazia, precisou apenas empurrar para dentro. Vitória por 2 a 1, que servia de nova motivação em busca do penta na França.

Apesar do resultado, sobraram críticas na imprensa. Em análise para a Folha de S. Paulo, José Geraldo Couto questionou os erros de posicionamento de defesa, a lentidão nas transições e o individualismo exacerbado no ataque – de fato, marcas da Seleção na Copa de 1998. Romário teve atuação fraca e demonstrou a falta de forma, andando em muitos momentos, enquanto Denílson abusou do individualismo e ficou em xeque. Não que a Alemanha também se salvasse. Ao Jornal do Brasil, Telê Santana reclamou da falta de técnica do Nationalelf e do excesso de violência. Inclusive, os descartou como favoritos no Mundial, algo que a Croácia ratificou nas quartas de final.

Já Rivaldo foi quem mais se deu bem na ocasião. Zagallo fez questão de elogiar seu “número 1”, em levantada de bola não muito comum ao treinador. Jogando na ligação, o pernambucano confirmou seu lugar como titular por todo o esforço no meio. Longe de ser brilhante na criação, se esforçou ao recompor o time após a expulsão de Dunga e inteligentemente puxou a marcação para que Ronaldo decidisse no final. Raí, de volta à equipe nacional após um hiato de quatro anos, sequer saiu do banco na Alemanha. E não aproveitou a chance que teve, um mês depois, no último amistoso antes da convocação final. Dentro do Maracanã, o Brasil sucumbiu diante da Argentina, em vitória por 1 a 0 definida por Cláudio López.

Depois daquela noite em Stuttgart, Brasil e Alemanha se encontraram outras seis vezes, mas em apenas dois amistosos. Em 2004, empate por 1 a 1, com direito a um golaço de falta de Ronaldinho Gaúcho para cima de Oliver Kahn. Por fim, o movimentadíssimo 3 a 2 de 2011, em segundo tempo avassalador do Nationalelf contra o time de Mano Menezes. Agora, a nova prova no mítico Estádio Olímpico de Berlim, o primeiro com a sombra do 7 a 1 no histórico de confrontos.


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