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A Fifa anunciou, no fim da última semana, o início do processo de inspeção nos países que formalizaram o interesse em receber a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023. Um desses lugares que estão se candidatando à sede da competição é o Brasil. Aqui, a visita será feita na próxima semana, entre os dias 3 e 6 de fevereiro, e nela serão avaliados aspectos técnicos que constam nos livros das licitações. Mas a questão é: será que estamos preparados para recepcionar, depois da Copa do Mundo masculina, em 2014, e sub-17, ano passado, a feminina?

Estádios que se enquadram nos padrões da Fifa não nos faltam, o que não quer dizer que a estrutura deles seja adequada. Há oito anos, as arenas que foram construídas e reformadas para a Copa e haviam passado no teste geral da entidade apresentaram falhas antes, durante e depois do torneio. Porém, de todos os problemas a serem considerados nessa candidatura para a Copa 2023, os estruturais são os menos significantes. Há outros pontos que precisam melhorar antes que pensemos em sediar um evento desse porte.

O primeiro e o principal deles é como a CBF organiza o calendário do futebol feminino brasileiro de clubes e seleção e trata o público interessado em ir aos jogos. No fim de 2019, tivemos dois amistosos contra o México no Brasil: um em São Paulo, na Arena Corinthians, e outro em Araraquara, na Fonte Luminosa.

Uma das ideias de se marcar jogos desse tipo é que testes e avaliações sejam feitos, principalmente considerando que uma estrangeira sem conhecimento prévio das atletas brasileiras assumiu o comando técnico da seleção há não tanto tempo assim e precisa de tempo para conhecer o que temos por aqui. A três dias da primeira partida contra as mexicanas, porém, o que pareceu foi que nenhum dos duelos iria acontecer.

A CBF simplesmente ignorou o fato de que os amistosos eram abertos ao público e não anunciou informações sobre ingressos. Não fossem a pressão e o burburinho feitos por torcedores, que fiscalizam os passos – ou a falta deles – por parte de quem deveria fazer o futebol feminino andar, é capaz que não houvesse divulgação alguma sobre as partidas amistosas. E como se não bastasse o enorme erro da entidade, o coordenador de futebol feminino, Marco Aurélio Cunha, se sentiu incomodado com os questionamentos a respeito dos bilhetes. “Não vai lotar. Teremos lugares para todas”, respondeu ele a uma torcedora no Instagram.

Com um descaso desse, como seria a questão de público se o Brasil ganhasse essa corrida pela sede da Copa feminina de 2023? Interesse por parte das pessoas não falta. Talvez conseguíssemos encher estádios e ter uma boa frequência nos jogos. Tivemos recorde na volta da final do Campeonato Paulista, na temporada passada, entre Corinthians e São Paulo.

Mais de 28 mil pessoas saíram de suas casas na manhã de um sábado para prestigiar uma partida de alto nível, vencida pelo Timão por 3 a 0. Mas é preciso levar em consideração que esse jogo não foi divulgado do dia para a noite. Foi-se o tempo que era tido como comum, por exemplo, o local de um duelo do Campeonato Brasileiro ser definido no dia de ir a campo. Isso é inaceitável hoje.

Um outro ponto sobre uma eventual escolha por parte da Fifa do Brasil como casa do Mundial de 2023 é como ficariam as datas das competições internas. Brasileiro e estaduais seriam paralisados? Ou teríamos rodadas sendo realizadas durante o certame, como no ano passado? Um tremendo anticlímax.

A CBF, em sua proposta de inscrição, sugeriu que os locais de jogos da Copa de 2023 fossem a Arena Corinthians, o Maracanã, a Fonte Nova, a Arena de Pernambuco, o Mineirão, a Arena da Amazônia, o Beira-Rio e o Mané Garrincha. Como ficaria o Brasileirão dos homens, uma vez que, na teoria, as seleções femininas jogariam nos grandes estádios, utilizados pelos clubes no futebol masculino? É improvável pensar que teria pausa no calendário deles também.

É pertinente lembrar, ainda, que o próximo Mundial feminino terá 32 seleções. Já pensou no horror que poderia ser a operação de logística dessas delegações? Não faz nem um ano que tivemos um caso exposto por Emily Lima, então técnica do Santos, de que suas jogadoras tiveram que dormir no saguão de um hotel em Manaus por falta de vaga. Um caso exposto e que não é isolado. Outros tantos acontecem e pouco se comenta. A responsabilidade era da CBF.

Tivemos uma Copa do Mundo histórica na França em 2019, e, agora, estamos tendo uma eleição de sede para a próxima edição da competição com número recorde de candidaturas. No fim, porém, só as federações da Colômbia, Japão, Austrália e Nova Zelândia (as duas últimas juntaram as forças) sobraram nessa disputa para concorrer com a CBF. O martelo será batido em relação a isso em junho, conforme a Fifa prevê.

Além de avaliativa, essa visita que a comitiva da Fifa fará ao Brasil também promoverá uma discussão sobre o desenvolvimento do futebol feminino no país. A expectativa é que assuntos relacionados a formação de novas atletas sejam debatidos, mas o ideal é que essa conversa fosse além e entrasse nessas falhas cometidas repetidamente pela CBF.

Só um susto: jogadora do Rio Branco foi encontrada

Circularam pelas redes sociais, nos últimos dias, postagens sobre o desaparecimento de uma jogadora de futebol que atua no Rio Branco, time de Americana. Tudo não passou de um susto. Larissa Vitoria, de 20 anos, enfim foi encontrada após uma semana sem dar notícias. E o mais importante: ela está bem, como assegurou a colega de time Larissa Matos.

Que bola fora do Galo!

A bola fora deste domingo foi do Atlético Mineiro, ainda que não tenha começado a temporada do futebol feminino e o Galo tenha atropelado o Tupynambás no masculino, pelo Campeonato Mineiro. A diretoria atleticana chegou à conclusão de que seria uma brilhante ideia usar as jogadoras como gandulas no jogo do time comandado pelo venezuelano Rafael Dudamel.

Não há mal nenhum em mulheres exerceram a função. Para complementarem suas rendas, como uma forma de ocupar mais espaços em um meio ainda muito machista. O problema, mesmo, é submeter as atletas do time feminino a isso, quando a única oportunidade que elas merecem ter é dentro de campo, com a bola nos pés, que é para o que foram selecionadas. Querem dar chances de trabalho e condições a ela? Que assinem a carteira de todas, melhorem os salários e profissionalizem o futebol feminino no clube.

RIP, Kobe Bryant, um grande incentivador do esporte feminino

Embora a Trivela seja um site de futebol e este espaço seja dedicado ao feminino, impossível não falar da trágica morte de Kobe Bryant, um dos maiores atletas de todos os tempos. O acidente em que esteve envolvido, com seu helicóptero, vitimou, também, sua filha Gianna Maria-Onore, de 13 anos, uma garota cheia de sonhos. Um deles era trilhar o mesmo caminho que Kobe. Ela queria ser jogadora de basquete da WNBA e contava com não somente o apoio, mas também os ensinamentos de seu pai-técnico.

Em uma entrevista no talk-show Jimmy Kimmel Live!, Kobe descreveu as reações de Gianna sempre que alguém dizia que ele e sua mulher, Vanessa, deveriam ter um filho homem para dar continuidade à tradição no basquete. “Ela fica: ‘deixa comigo. Não precisa de um garoto para isso. Deixa comigo. E eu digo: ‘é isso aí. Você pode mesmo!”, declarou o astro, que dedicou toda sua carreira em quadra ao Los Angeles Lakers.

Kobe era um grande incentivador e entusiasta do basquete feminino americano. “Nenhum jogador apoiou a WNBA ou o basquete universitário feminino mais do que Kobe. Ele ia aos jogos, os assistia pela televisão, treinava a próxima geração”, escreveu a campeã olímpica em Atlanta, Rebecca Lobo, no Twitter.

Que Mamba, Mambacita e as demais vítimas dessa tragédia descansem em paz.