* Por Gustavo Mehl e Nicolás Cabrera

Messi, Suárez, Coutinho, James, Cavani, Vidal, Agüero… nem algumas das estrelas mais cotadas foram suficientes para reverter a apatia de torcedores brasileiros com a Copa América. A televisão, com mais desespero que criatividade, ensaiou de tudo: humos, glórias antigas, alta definição, fofocas de vestiário, mesas táticas, tira-teimas, tudo. A Conmebol, pescando clientes, recolheu a rede sem cardume. O balanço da primeira fase mostra um Brasil com bares apagados e estádios vazios. Apenas a semifinal contra os “hermanos” argentinos consegue dar algum tempero ao torneio que, até agora, para o público local, é tão sem sabor quanto decadente.

O desânimo nacional no país anfitrião contrastou com certo entusiasmo dos vizinhos que, ainda que poucos –menos do que o esperado– fizeram algum barulho. Os uruguaios chegaram animados, festejando uma das mais belas gerações da sua história vitoriosa, no campeonato que tem neles seu maior campeão. Os colombianos também vieram otimistas, confiantes no bonito futebol jogado por seu time. Dos contingentes de chilenos que vieram ao Brasil, ninguém tira a esperança de um tricampeonato, façanha lograda apenas uma vez, pela Argentina em 1945-46-47. Nada impedia, tampouco, que torcedores de Peru, Paraguai, Bolívia ou Equador sonhassem acordados. Para os venezuelanos, de futebolização ascendente, a Copa América representou uma competição para testar e afirmar seu jogo. E os argentinos?… Bem, os argentinos, misturando arrogância, viagem de férias e coração, poucos porém intensos se arriscaram a vir bancar uma seleção que sempre vale menos do que promete.

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Para além das minorias entusiasmadas que vieram do exterior, a frequência nos estádios foi muito pobre. As porcentagens de ocupação das tribunas nesta edição da Copa são as piores entre, pelo menos, as últimas cinco edições do torneio. É o que demonstra o levantamento do jornalista Thales Machado publicado no jornal O Globo: apenas 40% das cadeiras foram ocupadas nas partidas da primeira rodada. Para que se tenha uma ideia, se compararmos com a Copa América de 2016, nos EUA, o número chega a 57%; no Chile 2015, alcançava 75%; Argentina 2011, 83%. A pouca presença do público nos jogos é o efeito mais evidente do ambiente morno que estamos conferindo no evento.

A pergunta ganhou espaço em todos os debates futeboleiros das emissoras de televisão do continente: por que este desinteresse específico de brasileiros e brasileiras com a Copa América 2019? A primeira e mais óbvia resposta vem do bolso. O público local não compra ingressos porque seus valores relativos flertam com o absurdo. No mesmo levantamento do O Globo sobre a primeira rodada, vemos que o ingresso mais barato custou 30 dólares. É menos que os US$50 cobrados em 2016 na terra do dólar, os Estados Unidos. No entanto, é mais que o dobro dos US$13 do Chile 2015, ou dos US$15 da Argentina 2011. A brasileira Mariana Vantine, pesquisadora sobre políticas econômicas do futebol, cruzou os preços das entradas mais baratas desta copa com os da Euro de 2016 na França, levando em consideração o salário mínimo dos dois países. Um trabalhador brasileiro, que quisesse levar a sua família no estádio, com seu salário do mês inteiro poderia comprar apenas oito ingressos para um jogo. Na França, o mesmo trabalhador poderia levar a sua família e talvez o bairro inteiro, já que, em 2016, um salário mínimo francês comprava 58 ingressos para uma partida da Eurocopa. E isto, digamos, para ver um Espanha contra Croácia, um Itália e Bélgica… não um Paraguai x Catar, por exemplo. Com todo o respeito aos irmãos guaranis… 

Buda Mendes / Staff

Há que se aclarar, porém, que estádios vazios não significam penúria econômica para a Conmebol. Os que se acham donos do futebol sempre dão um jeito de ganhar. Se não te vendem ingresso, te cobram um pacote especial de pay-per-view; se você quer tomar uma cervejinha, te cobram mais do que na Copa de 2014; se não te interessa beber nada, inventam a moda dos copos temáticos pra te seduzir. Apesar da baixa assistência, em toda a primeira fase a confederação organizadora recolheu mais de 100 milhões de reais apenas com ingressos, o equivalente a 26 milhões de dólares. Somente nos seis jogos da primeira rodada –aqueles que tiveram apenas 40% de ocupação–, mais de 10 milhões de dólares entraram no cofre da confederação sul-americana de futebol.

Não cabe dúvidas: a elitização do futebol (processo que expulsa os mais pobres a arquibancada e que, podemos dizer, tem a Conmebol como um de seus promotores) explica parte do fracasso da convocatória nos estádios da Copa América Brasil 2019. Mas “nem tudo é economia, estúpido”.

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Para além de relações financeiras de custo-benefício, existem muitas hipóteses que poderiam explicar a apatia já mencionada. Aqui vamos enumerar apenas algumas, deixando claro que há outras possíveis. Em primeiro lugar, é bastante evidente a tal crise de identificação popular do brasileiro e da brasileira com a nossa seleção masculina. Se um dia ela foi motivo de orgulho e nacionalismo, isso já não é a regra: faz tempo que é o desencanto que dá o tom dessa relação. Alguns explicam pelo distanciamento dos jogadores do seu país, seus clubes de origem, seus bairros, seus torcedores. Um afastamento que mina a representação. No Brasil tricampeão de 1958, 1962 e 1970, todos os jogadores jogavam nos campeonatos locais do país. A mítica seleção de 1982, que não ganhou mais encantou o mundo, tinha entre seus 22 selecionados apenas dois jogando fora – Falcão, pela Roma, e Dirceu, pelo Atlético de Madrid. No tetra, nos EUA 1994, o panorama já era diferente: onze –exatamente a metade– jogadores “estrangeiros”, em clubes da Europa e até do Japão. No time de 98, vice na França, eram 14 os de fora; no penta, na Coréia e no Japão em 2002, um pouco menos: dez.

Mas a partir daí já não temos sinais de que haverá volta. Em 2006, 2010 e 2018, entre os 23 jogadores convocados, apenas três jogavam no Brasil; em 2014, jogando em casa, somente quatro não haviam desembarcado vindos da Europa. O time do Brasil é, hoje, para os brasileiros, uma equipe que vem de outros países, que vive outras realidades e frequenta outros espaços. A isso, podemos somar o enorme desprestígio que tem a CBF diante do povo brasileiro. Uma organização vista como a responsável pela recente seca de copas, com casos de corrupção e a promoção de um encarecimento desmedido do nosso futebol.

Divulgação/internet

Podemos agregar um outro fator: a percepção de decadência esportiva com a que o povo brasileiro vê –por vezes com altas doses de arrogância e falta de simancol– a Copa América. Para muitos, é um campeonato menor, que já não representa mais o desafio que um dia representou: o de testar -e, em caso de glória, avalizar- a crescente qualidade de uma escola que lutava por um lugar entre os grandes do futebol mundial. Hoje acostumada com o sucesso, a potência futeboleira olha com nostalgia para uma vitrine empoeirada. Há uma onda retrô obcecada pela vitória, em que se romantiza o passado e se sobreexige do futuro. Lembramos com melancolia heroica dos antigos Campeonatos Sul-Americanos –hoje “Copas Américas”–, como a de 1919, por exemplo, considerada marco fundador do futebol brasileiro. E ao mesmo tempo nossas cinco Copas do Mundo nos turva a visão para a copa regional: a glória máxima do futebol mundial é a única obsessão nacional. É natural que nesse contexto ninguém esteja nem aí para o atual torneio: ele não é como suas míticas versões anteriores, nem jamais será nem parecido com o que é uma Copa do Mundo.

Há, no entanto, pelo menos dois pontos mais de discussão, já entrando no terreno das conjecturas. O primeiro tem a ver com a construção simbólica relacional que existe entre o futebol masculino e o feminino. Podemos dizer que o avanço do futebol delas opera como uma espécie de espelho às avessas em relação ao futebol deles. Este esporte que, ao menos no cone sul do continente, se alimenta de narrativas épicas e meritocracias plebeias e populares, as mulheres brasileiras estão conseguindo –não sem imensos ataques, melindres e muita dor de cotovelo–  construir uma narrativa heroica ancorada nas experiências pessoais que tocam fibras sensíveis do imaginário boleiro: sacrifício, luta, superação diante de adversidades, honra, crítica a cartolas, criatividade diante da escassez, patriotismo, entre tantos outros. Está quase tudo ali no discurso da Marta de dias atrás, após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Em clara oposição a uma seleção masculina vista como uma caterva de jogadores malcriados, milionários, mimados, apáticos, “estrangeiros”, distantes, com suas selfies vaidosas nas redes sociais. A foto de centenas de brasileiros colocando o nome da Marta sobre o de Neymar parece ter potencial para ficar como um cartão postal de nossos tempos.

Além disso, e ainda no campo das conjecturas, acreditamos que o desinteresse brasileiro pela Copa América se reflete um pouco da desconexão do Brasil com o sentimento latino-americano. Não é novidade que “o gigante” se pensa e é pensado por seus vizinhos como “um continente” próprio, projeção esta que é fundamentada pela história, idioma, tamanho, protecionismo e até mesmo um certo narcisismo nacional. Sobre isso, não temos muitas provas, mas sim uma convicção: como se importar com uma coisa da qual não se sente parte?

* Artigo publicado originalmente em espanhol na revista OnCuba