Eficiência. É o grande mérito do time montado por Dunga para os jogos contra Argentina e Japão. Nesta terça-feira, a Seleção Brasileira venceu por 4 a 0 o Japão em Cingapura. Não massacrou os asiáticos, não apresentou um futebol vistoso ou brilhante, mas teve uma enorme competência e mostrou boas qualidades em campo. A principal delas foi a movimentação ofensiva, muito intensa. Mas vale destacar também a recomposição rápida e um time que parece ter claro o seu posicionamento. Algo, por exemplo, que não teve na Copa do Mundo.

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O time de Dunga não é de posse de bola, nem de fazer o adversário se submeter ao seu estilo. Não é um futebol de imposição. Mas é um futebol de alta compactação. Esqueça o time de Felipão na Copa, que dava tantos espaços no meio-campo – e que nem trocando Paulinho por Fernandinho corrigiu. O de Dunga continua com um Luiz Gustavo extremamente eficaz na marcação e bom na saída de bola. Nada excepcional, mas com uma eficiência incrível. Elias, ao seu lado, não é bem quem distribui o jogo, mas conseguiu fazer bem o papel de volante. Não deve ser o titular de Dunga em condições normais. Ramires, que brilhou com o técnico, deve ser o segundo jogador do meio-campo. Transição rápida. Isso é muito importante para Dunga e é o que Ramires é especializado em fazer.

Na defesa, Miranda e Gil podem não ter a badalação de Thiago Silva e David Luiz, mas são extremamente eficientes. De novo, a eficiência. David Luiz e Thiago Silva estão entre os zagueiros de maior qualidade técnica do mundo, mas Miranda e Gil, defendendo, não ficam muito atrás dos titulares. Mostraram que são opções confiáveis e que jogam com muita seriedade. Ambos podem, e provavelmente devem, ficar no grupo nos próximos meses. Miranda com grandes chances de ser o titular. No lugar de quem? É difícil saber, mas David Luiz pode perder a posição.

A lateral esquerda tem uma opção totalmente confiável com Filipe Luís, sério, bom defensor, que ataque só na boa. No lado direito, Danilo está longe de impressionar, mas se esforçou muito para manter os espaços fechados. Mário Fernandes foi testado e, nos poucos minutos em campo, deu bons sinais, mas o jogo já tinha muitos espaços. Precisará ser avaliado em uma situação que deve ser mais corriqueira, sem tantos espaços assim.

A grande qualidade do time é do meio para frente. Os titulares foram Willian, Oscar, Neymar e Diego Tardelli. Destes, só Neymar é brilhante, mas todos são excelentes. Willian se movimenta muito, Oscar trabalha bastante pelo time e fez bons passes, dando opção. Diego Tardelli sai da área, abre espaços e permite que Neymar seja, em vários momentos, como foi neste jogo com o Japão, o atacante centralizado. E os oito gols em oito jogos pelo Barcelona nesta temporada já tinham mostrado a capacidade artilheira do jogador. Neste jogo com o Japão, os quatro gols só aumentam essa percepção.

O grande problema do Brasil de Dunga na passagem anterior, de 2006 a 2010, era jogar contra adversários que se fechavam demais. Empates em casa com Colômbia e Bolívia, por exemplo, aconteceram com o time jogando muito mal. Em muitos jogos, o Brasil não sabia como sair da marcação. Não sabia ser inventivo, criativo. Dependia de um jogo com espaço, um jogo de contra-ataques, que funcionava muito bem com as seleções mais fortes. É um teste que o Brasil ainda precisará ter. Nos jogos anteriores,contra Colômbia e Equador, nos momentos que viveu essa situação ainda teve dificuldades. Mas o trabalho ainda está muito no começo.

Os veteranos que entraram em campo tiveram um bom papel. Robinho mostrou-se um jogador versátil, que se entende bem com Neymar e dá ao Brasil habilidade e toques rápidos. Não por acaso foi um dos principais jogadores do tempo de Dunga na Seleção na passagem anterior. Kaká, que entrou um pouco depois, já tinha mostrado contra a Argentina que pode ser útil para dar inteligência e manter a movimentação do time. Robinho tem 30 anos, Kaká, 32. Ambos parecem úteis a um time que precisa de opções e são experientes e, aparentemente, jogadores de grupo. Ficaram na reserva, entraram e foram bem. As competições começam em 2015 e, independente se estarão na Copa de 2018 – e provavelmente não estarão – poderão ajudar o time a ganhar corpo e maturidade, o que torna a transição menos brusca.

Dunga já mostrou que é bom técnico, que sabe montar times que fechem espaço e sejam muito eficientes. Será preciso mais do que isso, como a sua passagem anterior mostrou. Em diversos momentos, ele ficou pendurado no cargo justamente porque o Brasil só parece ter um plano de jogo. Com um craque, Neymar, o Brasil pode sempre vencer. Porque não é só ele: há vários bons jogadores ao seu lado. Não é talento que falta ao Brasil. Mas será preciso um time que não viva só de velocidade e contra-ataque. E Dunga é capaz de fazer isso. Ainda não mostrou que esse é o seu plano. O Brasil dos amistosos até aqui foi compacto, foi eficiente, foi letal. Não foi criativo, nem teve um estilo de jogo de imposição ao adversário. Aproveitou as falhas e matou os jogos.

É possível ir além e aos poucos veremos do que esse time será capaz. Não há muita dúvida que será competitivo. O que se espera do Brasil, não só por aqui, mas no mundo todo, é que seja mais do que isso. Porque times apenas competitivos vivem de resultados. O Brasil é um dos times que tem talento individual e capacidade técnica para ir além da competitividade e ter um bom futebol. Bom futebol, um estilo de jogo marcante e competitividade tornam o time brasileiro tão forte como sempre foi. Os resultados são a consequência, não o objetivo. E isso é o que se cobra.

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Destaque do jogo

Neymar, cada vez mais líder, cada vez mais craque. Os quatro gols marcados o tornam o grande destaque do jogo, ainda mais porque os fez de várias formas. Os dois primeiros em arrancadas, o terceiro pegando um rebote dentro da área como um artilheiro e o quarto de cabeça, como um excelente finalizador que é. Neymar é cada vez mais completo.

Momento-chave

Quando o Brasil mudou a movimentação ofensiva, tirando Tardelli da referência e movimentando para que Neymar ficasse por ali, saiu o primeiro gol. E esse foi decisivo para mudar o jogo e colocar no colo do Brasil.

Os gols

17’/1T: GOL DO BRASIL!
Tardelli saiu da área e fez um excelente passe para Neymar entrar pelo meio, driblar o goleiro e tocar para o gol vazio.

3’/2T: GOL DO BRASIL! Enfiada de bola precisa de Philippe Coutinho para Neymar, que pegou a defesa do Japão jogando alta demais, e saiu na cara do gol. Tocou com categoria no canto e ampliou o placar.

32’/2T: GOL DO BRASIL!
Philippe Coutinho chutou, o goleiro espalmou para o lado e a bola sobrou para Neymar finalizar de primeira e mandar para a rede.

36’/2T: GOL DO BRASIL! Kaká arranca com a bola, trabalha com Robinho, recebe de volta e cruza na área, onde Neymar sobe livre para cabecear bem e marcar seu quarto gol na partida.

Curiosidade

Com seus dois gols, Neymar chegou a 40 com a camisa da Seleção Brasileira e se tornou o quinto maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, deixando para trás Bebeto, que fez 39 gols. Aos 22 anos, Neymar tem tudo para subir muito mais na lista. Pelé tem 77 gols e é o primeiro, seguido por Ronaldo, com 62, Romário, 55, e Zico, 48. É de se imaginar que ele pode passar ao menos alguns deles – se não todos.

Ficha técnica

BRASIL 4X0 JAPÃO

Brasil

Jefferson, Danilo (Mario Fernandes, intervalo), Miranda, Gil e Filipe Luís; Luiz Gustavo e Elias (Kaká, 31’/2T); Willian (Everton Ribeiro, intervalo), Oscar (Philippe Coutinho, intervalo) e Neymar; Diego Tardelli (Robinho, 19’/2T). Técnico: Dunga

Japão

Eiji Kawashima; Hiroki Sakai, Tsukasa Shiotani, Kosuke Ota e Masato Morishige; Gaku Shibasaki (Daisuki Suziki, 39’/2T), Junya Tanaka (Hajime Hosogai, 36’/2T), Ryota Morioka (Keisuke Honda, intervalo) e Taishi Taguchi; Shinji Okazaki (Yoichiro Kakitani, 33’/2T) e Yu Kobayashi (Yoshinori Muto, 7’/2T). Técnico: Javier Aguirre

Local: Estádio Nacional de Cingapura, em Kallang
Árbitro: Ahmad A’Qashah (CIN)
Gols: Neymar, 18’/1T, 3’/2T, 32’/2T, 36’/2T
Cartões amarelos: nenhum
Cartões vermelhos: nenhum