Duas Eurocopas e uma Copa do Mundo. Tudo em sequência. Nenhuma outra seleção do mundo havia conseguido três títulos de primeiro nível (mundial e continental, e isso não conta a Copa das Confederações) em série. Só a Espanha, que ratificou essa fase espetacular com uma goleada sobre a Itália. Suficiente para muita gente dizer que é a maior seleção da história, maior até que o Brasil de 1970. Bobagem. Quer dizer, bobagem não é a opinião em si, mas a necessidade de dar alguma neste momento.

À atual seleção espanhola se aplica a mesma regra que vale na comparação Messi x Pelé (clique aqui): como posicionar historicamente algo cuja história ainda não terminou? A Espanha de Xavi, Iniesta, Fàbregas, Casillas… continuará jogando por mais um tempo. Um jogador ou outro pode perder espaço, mas essa base tem, no mínimo, mais uma Copa do Mundo e uma Eurocopa pela frente. Só quando terminar essa trajetória é que se terá noção completa do que esse grupo representou.

O que esse time já fez é grande, mas não se pode simplesmente pegar o número frio (três títulos grandes seguidos) e colocar diante de outras grandes seleções. Fazer isso é ver o passado com o olhar do presente. A Eurocopa não existia até meados dos anos 50 e não era tão relevante até os 80. A Copa América só teve grande importância em momentos esporádicos. Perder ou ganhar essas competições não era visto como uma questão tão fundamental para algumas das grandes equipes do mundo.

Além disso, ainda não se viu os momentos de fracasso dessa Espanha, o modo como terminará sua história. Se cair para Brasil ou Argentina na Copa de 2014, podem dizer que ela só foi vencedora enquanto não teve de se medir com as grandes forças sul-americanas (tem europeu que usa o argumento de “não enfrentava europeus todo dia” para relativizar os feitos de Pelé com o Santos). Se cair em 2014 (e depois na Eurocopa 2016 na França) porque seu sistema foi anulado, pode ficar com a fama de só ter ganhado muito enquanto não seu novo estilo de jogo não tinha antídoto. Se ela própria não se mantiver no topo pela incapacidade de manter seu padrão de futebol, pode ficar marcada como a Holanda de 1974: um time de sonho, mas momentâneo.

O fracasso em Londres-2012 não abala a imagem desse time, sobretudo porque o coração do time multicampeão (Xavi, Iniesta, David Silva, Puyol, Piqué) esteve bem longe dos Jogos Olímpicos. De qualquer modo, o desempenho olímpico já coloca uma pulga atrás da orelha daqueles que olham o método espanhol como infalível, independentemente dos jogadores que o coloquem em prática. Um sinal de que o sistema é importante, mas o talento da atual geração espanhola não deve ser menosprezado. Se o time ganha, é porque tem jogadores que possibilitam que isso aconteça. A Fúria virou grande, mas não será hegemônica para sempre.

Para saber exatamente o lugar de algo na história, é preciso que sua história seja encerrada. Antes disso, é só conjectura.