Não importa a sua idade, o seu gosto musical, a região do Brasil onde nasceu: muito provavelmente, você já cantarolou uma das músicas de Braguinha. Também conhecido como João de Barro, o compositor ofereceu uma extensa contribuição ao cancioneiro nacional. Entre os seus grandes sucessos estão ‘Carinhoso’, ‘Chiquita Bacana’,  ‘Balancê’ e outros tantos. Associou-se a craques como Pixinguinha, Noel Rosa e Lamartine Babo, assinando mais de 500 composições. E uma delas pode ser considerada o primeiro hit dos estádios brasileiros. Afinal, milhares e milhares de vozes se juntaram no Maracanã, em 13 de julho de 1950, para cantar ‘Touradas em Madri’. Todas menos uma: a do próprio músico, cujo nascimento completa 110 anos nesta quarta.

VEJA TAMBÉM: Carmen Miranda também emprestou sua voz ao futebol e emplacou em duas Copas

“Quando o povo se levantou no estádio em festa, a única coisa que eu consegui fazer foi deixar que as lágrimas corressem. Nunca esperei que Touradas em Madri, a marchinha que fiz com meu saudoso amigo Alberto Ribeiro, pudesse ser cantada por 200 mil pessoas de uma vez. Por isso eu não cantei: apenas chorei. Lágrimas doces, suaves”, contou Braguinha, em 1977, à revista Placar. Ele estava sentado na cadeira cativa que comprou, contribuindo na arrecadação de fundos para a construção do então chamado Estádio Municipal. Segundo o compositor, houve mesmo um gaiato que chegou a hostilizá-lo: “E aquele gringo ali, por que ele não canta também?”. Mal sabia o que estava acontecendo.

O jogo em questão era Brasil e Espanha, pela segunda rodada do quadrangular que decidiu o Mundial de 1950. O escrete brasileiro já enfiava 6 a 1 quando a multidão se lembrou da canção, lançada ainda em 1937 e que, entre outros, tinha sido gravada por Carmen Miranda. Então, criou-se um coral de 200 mil pessoas, que cantava em uníssono a marchinha na ponta da língua. Quem não sabia a letra, ao menos acompanhava o ‘pararatimbumbumbum’ que ritmava a euforia e o baile em campo. Os dois anéis colossais das arquibancadas davam a noção de uma gente só, junta, conectada por sua vibração. Por suas cordas vocais.

“Todo o estádio cantou na tarde de ontem. Pela primeira vez nesta Copa do Mundo, a torcida cantou. […] Foi a canção da vitória, da alegria, do desabafo. Sim. Porque a torcida estava um pouco abafada quando começou o jogo. Tinham dito tanta coisa da Fúria… A multidão de torcedores confiava 100% na seleção brasileira. Mas tinha um pouquinho de receio de que qualquer coisa não desse certo. Por isso, diante daqueles consagradores 6 a 1 no placar, a torcida não se conteve mais e desabafou. Cantou Touradas em Madri. Cantou, como se estivesse abrindo as válvulas. Para não desmaiar ou morrer de tanta alegria”, descreveu o Jornal dos Sports, de Mário Filho, no dia seguinte. “A multidão só teve, no fim, uma forma de expressão. De repente, sem aviso, sem que ninguém começasse primeiro, cantou as Touradas em Madri”.

Aquela tarde permaneceu no imaginário do Maracanã. A composição de Braguinha foi a primeira a ecoar no gigante de concreto, entre tantas outras músicas que seriam entoadas nas arquibancadas a partir de então. Ali, mostrava-se a força que as vozes dos torcedores teriam para influenciar os rumos de um jogo. “Os jogadores parece que jogavam ao som dessa música. Foi o espetáculo mais lindo que poderia haver”, analisou, anos depois, o técnico Flávio Costa. Zizinho, Jair, Ademir e os talentos do Brasil, todos, serviam de maestros.

Emblemático que, três dias depois, o maior coro da história em um estádio de futebol tenha sido suplantado pelo “silêncio ensurdecedor” consequente da derrota para o Uruguai. Mas logo o Maracanã se refez do baque. E a cantoria das Touradas se tornou hábito. Menos intensa, igualmente viva. Botafoguense não praticante, que se empolgava mais com os jogos da Seleção, Braguinha pôde ver outras de suas criações serem cantadas nos estádios brasileiros. Faleceu em dezembro de 2006, aos 99 anos, sabendo que, por linhas tortas, deixou um legado imenso ao nosso futebol. As ‘Touradas em Madri’ ainda hoje ressoam no Maraca.