Basta o Botafogo aparecer em primeiro lugar no Campeonato Brasileiro que surgem as piadas, sugerindo que o time não irá aguentar segurar essa posição até o fim. E o time deu muitos motivos para que se pense assim. Não foram poucas as vezes nos últimos anos que o time sucumbiu depois de começar bem e viu minguar uma boa campanha, acabando fora do grupo dos quatro primeiros e sem sequer uma vaga na Libertadores. Por que, então, dessa vez é diferente? Há dois motivos para acreditar, assim como há motivos para temer. E o passado ensina.

O Botafogo atual vive uma situação parecida com o que viveu seis anos antes. Em 2007, o Botafogo fazia uma campanha parecida com a atual. Na mesma fase do campeonato, tinha 28 pontos e liderava o Brasileiro com um ponto à frente do São Paulo, então vice-campeão da Libertadores. No fim, todos sabem o que aconteceu. O São Paulo veio atropelando, com uma defesa intransponível (média de 0,5 gol sofrido por jogo) e foi campeão com uma larga vantagem sobre o Santos, vice-campeão com 15 pontos a menos. O Botafogo, líder até a 16ª rodada, caiu de rendimento e foi perdendo posições, até cair para segundo, terceiro, quarto, quinto, sétimo… Terminou em nono lugar, 22 pontos atrás do São Paulo.

Desta vez, o time que ameaça ser o São Paulo da vez é o Corinthians. São seis gols sofridos em 15 jogos, média de 0,4 por jogo. Uma média impressionante de um time que é notoriamente forte. É o fantasma que ameaça o Botafogo, mesmo que não esteja com o desempenho de encher os olhos. Talvez até mais por isso: o Corinthians não tem feito grandes partidas, mas como dificilmente toma gol, está sempre somando pontos e consegue vitórias importantes. O time é o quarto colocado, com 25 pontos, quatro a menos. Uma diferença que pode ser alcançada.

Os demais concorrentes pelo título também são perigosos. O Cruzeiro também vem de um retrospecto recente ruim, mas tem mostrado uma consistência que o coloca, inevitavelmente, como um candidato. Com 28 pontos, o time está nos calcanhares da equipe de General Severiano. E assim como o Corinthians tem o seu trunfo na defesa, o Cruzeiro tem o seu no ataque. Em 15 partidas, são 31 gols marcados (o Botafogo tem 27), média de 2,06 por partida. O time tem um grupo forte e vem mostrando que dará trabalho e tem tudo para disputar diretamente a taça.

O terceiro colocado é o Grêmio, com 25 pontos. O mais perigoso do tricolor gaúcho é que não há uma arma facilmente identificável. O time comandado por Renato Gaúcho tem grandes jogadores, especialmente no ataque (Barcos, Kléber, Vargas), e uma força coletiva grande. É o time que pode vencer adversários fortes, como o próprio Botafogo e o Cruzeiro, mas perder para o Criciúma. A instabilidade é a maior adversária do Grêmio e, por isso mesmo, é o time que parece ter menos chance de título no G4, ainda que esteja à frente do Corinthians em pontos.

Daí em diante, poucos times mostraram alguma força para serem considerados candidatos ao título. Atlético Paranaense (5ª), Coritiba (6º) e Vitória (7ª) não têm forças para brigar pela taça, embora possam beliscar uma vaga na Libertadores, se tudo continuar dando certo até o final –o que é improvável, é bom dizer. O oitavo colocado é o Internacional, aquele que tem sempre uma energia potencial enorme, mas que quase nunca se vê aplicada de fato. Se o elenco pode indicar um candidato ao título, o desempenho em campo diz exatamente o contrário. Não é que não dê mais tempo de buscar, dá sim. Mas é preciso primeiro o time começar a jogar bem e engatar vitórias em sequência. Aí, quem sabe, será possível que o Inter seja mais do que um time com elenco forte e caro e passe a ser um time para brigar pelo título. No momento, o inter é favorito só mesmo à gloriosa Taça Sétimo Lugar (o Impedimento falou exatamente sobre isso).

Com tudo isso, o Botafogo é candidato ao título. É candidato porque tem um time mais forte do que em anos anteriores. É forte porque tem um time bem treinado por Oswaldo de Oliveira e, principalmente, porque tem um craque que joga sempre e decide quase sempre: Clarence Seedorf. É o holandês quem dá o equilíbrio e o poder de fogo que às vezes pode faltar ao alvinegro. O camisa 10 é quem mais cria jogadas de gol no campeonato. São, em média, 3,4 assistências do meia por jogo. Nem todas viram gols, mas é um índice alto, tanto que é o melhor do campeonato.

 

E não é só Seedorf. O time tem Rafael Marques jogando como nunca, fazendo gols, sendo importante para o time jogando na ponta. Vitinho tornou-se titular e, mais do que isso, um destaque do time. É habilidoso, rápido, perigoso jogando pelas pontas ou pelo meio. Elias tem entrado bem no time e acaba sendo o centroavante na prática, já que Rafael Marques busca o jogo pelos lados. Na defesa, Dória mostra que é um zagueiro de futuro, Bolívar, mesmo sem ser muito bom tecnicamente, tem sido fundamental. Jefferson, goleiro de seleção, dá segurança embaixo das traves. É um time com bons jogadores, só um craque, mas que pode ir longe.

Mesmo com tropeços bobos e vitórias que escapam nos últimos minutos, o Botafogo tem força para chegar. Resta saber se o time terá força mental para não se deixar abalar. Há motivos para acreditar no Botafogo. O próprio time acredita e o torcedor parece, aos poucos acreditar cada vez mais. Considerando a situação do campeonato, o Botafogo tem que ser considerado candidato ao título. Não quer dizer que vá ganhar. Mas tem condições de brigar por isso rodada após rodada, até o final.