A Conmebol inchou a Copa Libertadores do ano que vem, obrigando o Campeonato Brasileiro a mudar as suas regras – mais de uma vez – com o torneio em andamento. Não é uma das práticas mais recomendáveis, mas a entidade, inadvertidamente, acabou premiando duas excelentes campanhas de clubes brasileiros, que haviam começado a competição com ambições mais modestas e terminaram, respectivamente, na quinta e na sexta posição: Botafogo e Atlético Paranaense.

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A dupla aparece logo abaixo do trio cujos integrantes, em algum momento do campeonato, brigaram pelo título com o campeão Palmeiras. Com diferentes méritos e perfis, formaram o segundo escalão do Campeonato Brasileiro. Diante da incapacidade de o Corinthians se aproximar, nem mesmo uma queda de rendimento na reta final conseguiu derrubá-los – o Fogão venceu apenas uma partida nas últimas seis rodadas, e o Furacão, duas.

O objetivo do Botafogo sempre foi permanecer na primeira divisão e, durante metade do campeonato, o risco de falhar foi real. O clube carioca chegou a ser lanterna, na sétima rodada, ainda passeava pela zona de rebaixamento na 16º e, ao fim do primeiro turno, estava a apenas dois pontos de distância da degola. A essa altura, Ricardo Gomes já havia decidido assumir o São Paulo e a equipe estava nas mãos do inexperiente auxiliar Jair Ventura.

O filho de Jairzinho soube melhorar a base da bem organizada equipe que foi vice-campeã carioca, que fazia boas partidas, mas sofria para vencê-las, com muito pouca eficiência no campo ofensivo. Mas o que Ventura melhorou foi a defesa: o Botafogo sofreu apenas dez gols nos 20 jogos em que ele esteve no comando, contra 29 nas primeiras 18 rodadas. O ataque seguiu com média próxima a um gol por jogo.

O trabalho de Ventura foi valorizado pela diretoria, que está prestes a lhe oferecer um contrato de dois anos, com aumento salarial. Ganhou 11 partidas e perdeu três a partir do momento em que assumiu o time, o bastante para conseguir a vaga na Libetadores, apesar da queda de rendimento no final do campeonato. Garantiu ao clube que passa por problemas financeiros e tem uma das menores folhas salariais da Série A uma boa premiação da CBF mais dólares da Conmebol por disputar a Libertadores.

Paulo Autuori também merece aplausos pelo que fez com o Atlético Paranaense, depois de uma sequência de trabalhos ruins que colocou em xeque a sua capacidade de ainda ser um treinador de alto nível. Se a campanha do Botafogo foi dividida entre antes e depois de Jair Ventura, a do Furacão foi claramente separada pelos jogos dentro da Arena da Baixada e fora dela.

Falam muito da influência do gramado sintético, embora o Atlético Paranaense sempre seja forte dentro de casa. Mas, desta vez, foi muito, muito forte: foram três empates, uma única derrota – para o Palmeiras – e 15 vitórias. Um retrospecto que fica ainda mais impressionante em contraste com os resultados conquistados longe dos seus domínios. Fora de casa, o Furacão ganhou apenas duas partidas, empatou três e perdeu 14.

De qualquer maneira, usou as armas que tinha à disposição para realizar a sua melhor campanha no Campeonato Brasileiro desde 2013, quando foi terceiro colocado. É a segunda classificação dos paranaenses à Libertadores em quatro edições do torneio nacional, consolidando-os como um clube que, se bobearem, aparece nas primeiras colocações. O passo à frente seria uma candidatura séria ao título, como em 2004, quando foi vice do Santos.

Dois clubes relativamente bem organizados, com trabalhos interessantes de treinadores (um da velha guarda, outro da nova) e com elencos modestos, mas salários em dia, conseguiram colocar-se na posição de aproveitar as mudanças propostas pela Conmebol e receberam a chance de disputar a Libertadores como um merecido prêmio.