Ao longo de sua carreira, Artur Boruc foi um bom goleiro. Não a ponto de figurar entre os melhores da Europa, mas o suficiente para fazer carreira em clubes tradicionais e se transformar em um dos símbolos da seleção polonesa. Ele soma 65 partidas pela equipe nacional, duas a mais que o lendário Jan Tomaszewski, se transformando no arqueiro que mais vezes defendeu a meta alvirrubra. Nesta sexta, enfim, o veterano de 37 anos – ainda na ativa com o Bournemouth – resolveu botar um ponto final nesta trajetória. Disputou 45 minutos no empate por 0 a 0 contra o Uruguai, no Estádio Nacional de Varsóvia, alcançando seu 65° jogo. Deixou o campo ovacionado pela multidão nas arquibancadas, em uma idolatria que só se entende olhando além dos números.

Boruc é daqueles jogadores que todo torcedor gosta de ter no time. Um cara visceral, que se entrega de corpo e alma durante os 90 minutos. Que pulsa junto as arquibancadas, que grita com o time, que vibra. E, cumprindo o seu papel como goleiro, que protege sua meta com se fosse sua vida. Não, isso não significa que ele vai pegar todos os chutes ou que está imune às falhas – por vezes comuns em sua carreira. Mas sempre dá gosto de ver quem se empenha tanto para honrar a camisa de seu time. Explosivo sob as traves e também em seu temperamento, o veterano certamente viveu cada partida pela equipe nacional intensamente. E se identificou com outras torcidas, especialmente a do Celtic – seja pelos cinco anos em Parkhead ou pelo personagem que foi na Old Firm, católico fervoroso e provocador.

No entanto, a idolatria a Boruc não seria tão grande sem os milagres colecionados com a seleção polonesa. E eles não foram poucos, principalmente nas maiores competições. As campanhas do país na Copa de 2006 e na Euro 2008 não foram lá muito boas, com apenas uma vitória nas seis partidas disputadas. Ainda assim, o camisa 1 manteve a dignidade dos alvirrubros com excelentes atuações. Em 2006, por exemplo, a Alemanha só conseguiu superá-lo aos 47 do segundo tempo, depois de uma série de grandes intervenções. Já na Eurocopa, ele seria cotado entre os melhores da posição, pelo trabalho intenso em todos os jogos.

A ascensão de Lukasz Fabianski e Wojciech Szczesny, aos poucos, tiraram o espaço de Boruc. O sucessor de Jerzy Dudek tinha bons companheiros a quem passar o bastão. Independentemente disso, houve tempo para disputar a Euro 2016, transmitindo sua experiência a partir do banco de reservas. Meses depois, apesar do sucesso dos poloneses nas Eliminatórias, o veterano anunciou o fim de sua trajetória. Até ganhar a oportunidade de fazer seu jogo de despedida contra o Uruguai, justamente no Estádio Nacional.

A chance de atuar em Varsóvia, além de tudo, aproximou Boruc dos seus. O goleiro, que despontou com a camisa do Legia Varsóvia, nunca escondeu sua paixão pelo clube. Inclusive, costumeiramente frequenta os jogos da equipe, se misturando no meio da torcida – subindo o alambrado e participando avidamente do espetáculo. Pois na véspera do adeus, os ultras do Legia também homenagearam o seu membro ilustre: bloquearam a passagem do ônibus da seleção e fizeram um corredor com sinalizadores para festejar o ídolo.

Já nesta sexta, o ‘camisa 65’ desfrutou a noite que merecia. Ovacionado a todo o momento, deixou o campo pouco antes do intervalo, com os jogadores fazendo guarda de honra. Já nas arquibancadas, seu nome era gritado em alto e bom som, enquanto espalhavam-se milhares de cartazes verdes com o número 65 e o nome do ‘Rei Artur’. Boruc não precisou fazer parte da geração mais célebre da Polônia para gravar seu nome. Sobretudo porque, em um país de torcedores tão fanáticos, ele foi o mais fanático de todos, dentro de campo. E com a camisa da seleção, aquela que exime os pudores da rivalidade independentemente das cores do coração. Os aplausos vêm de todas as torcidas. De uma só torcida.


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