Bom reforço ao Sheffield United, Brewster também é um exemplo de como o Liverpool vende bem seus excedentes

Desde que Jürgen Klopp começou a fazer negócios pelo Liverpool, no verão europeu de 2016, desembolsou aproximadamente € 520 milhões em reforços. Valor alto, mas bem gasto. Embora seja apenas o sexto maior investimento da Inglaterra no mesmo período, construiu um dos dois melhores times do país. E o mais interessante é que o fez equilibrando as contas com excelentes vendas de jogadores excedentes, como a mais recente, de Rhian Brewster para o Sheffield United por € 26 milhões.

O clube inglês que mais vendeu nesse período foi o Chelsea, com um combinado de € 600 milhões. Eden Hazard foi o negócio mais importante, mas houve outros como Álvaro Morata, Oscar e Diego Costa que arrecadaram boa parte dos € 894 milhões gastos em reforços. O Liverpool aparece em segundo lugar nessa lista, com € 400 milhões em vendas, gerando um prejuízo de apenas € 120 milhões no mercado de transferências ao longo de cinco mercados comandados por Klopp.

É bem pouco se colocado ao lado dos resultados que o Liverpool alcançou com esse saldo negativo de € 25 milhões por ano em taxas de transferências – campeão inglês, europeu e mundial. Permitiu que mais receita fosse realocada para a folha salarial, que dobrou desde 2015 e conta com todos os principais jogadores em longos contratos recém-renovados. A saída de Philippe Coutinho para o Barcelona foi ao mesmo tempo a mais importante para esse equilíbrio, a € 145 milhões, mas também a única de um jogador incontestavelmente titular.

Os outros encaixam-se basicamente em duas categorias: jogadores que haviam sido contratados em outro contexto e não se encaixavam no projeto de Klopp, por deficiência técnica, como Benteke e Joe Allen, ou por questões comportamentais, como Sakho, ou físicas, como Danny Ings; e jovens formados nas categorias de base ou contratados por terem grande potencial que também não conseguiram vencer a forte concorrência e ganhar espaço no time principal.

Creditado por esse sucesso financeiro no mercado, o diretor esportivo Michael Edwards brilha de verdade no segundo. Você precisa acompanhar de perto o Liverpool para se lembrar de Jordon Ibe, o mais conhecido do grupo, Brad Smith, Kevin Stewart, Andre Wisdom, Danny Ward, Dominic Solanke, Ryan Kent, Tiago Ilori e Ovie Ejaria. Todos eles atuaram muito pouco pelo clube, a maioria das vezes naqueles times reservas das copas nacionais, mas representaram quase € 80 milhões basicamente de lucro porque foram formados em casa ou custaram alguns trocados. É um Van Dijk.

O Liverpool não inventou a roda. Chelsea, Manchester City e Tottenham têm desempenhos semelhantes ou levemente superiores nesse mesmo período vendendo jogadores que utilizaram poucas vezes – ou nunca -, embora a política do City seja um pouco diferente por sistematicamente reunir talento de várias partes do mundo já nas categorias de base. Eles são emprestados com frequência para ver se algum atinge o nível necessário para o time principal, o que aconteceu pouco ou, quando aconteceu, já haviam sido negociados. Suas principais vendas, por exemplo, envolvem Aaron Moy, que chegou pela filial na Austrália, os espanhóis Pablo Maffeo e Brahim Díaz, e o brasileiro Douglas Luiz.

O Chelsea arrecadou um bom dinheiro com Nathan Aké, Mario Pasalic e Brentand Traoré, respectivamente o novo reforço para a defesa do Manchester City e jogadores importantes de Atalanta e Lyon. O que chama atenção no Liverpool é tanto dinheiro ter saído de tão pouco talento. Muitos dos citados acima são jovens – embora não muito; o mais novo é Ejaria, com 22 anos – e até podem se tornar jogadores estabelecidos de meio de tabela da Premier League, mas dificilmente irão além disso. Com exceção, talvez, de Brewster.

O garoto de 20 anos tem bastante potencial. Foi artilheiro do Mundial Sub-17 pela Inglaterra e estava próximo de ganhar algum espaço no elenco principal do Liverpool quando sofreu uma séria lesão em 2018. Acabou fazendo apenas quatro partidas na temporada seguinte antes de ser emprestado ao Swansea, pelo qual marcou 11 vezes em 22 aparições pela segunda divisão. Esse bom desempenho atraiu interesse de Brighton, Crystal Palace e Sheffield United, todos desesperados por mais gols.

Apesar da excelente campanha na última temporada, os Blades foram um time econômico: apenas 39 gols em 38 rodadas. Seus artilheiros foram Oli McBurnie e Lys Mousset, com seis cada. O veterano e simbólico Billy Sharp anotou quatro, assim como David McGoldrick, elogiado mais pelo seu trabalho sem bola e de pivô do que pela capacidade de estufar as redes.

Se estiver em boa forma, Brewster pode ser uma peça importante nessa rotação ou até mesmo virar um dos titulares. Tem potencial para isso, reconhecido pelo próprio Liverpool que inseriu cláusulas que lhe garantem 15% do lucro de uma futura venda e também a opção de comprá-lo de volta por um valor fixo pelos próximos três anos.

E permitiu que o atual campeão inglês chegasse a € 42 milhões em vendas, juntando as saídas de Dejan Lovren e Ejaria, ainda com a expectativa de fazer mais algum dinheiro com Xherdan Shaqiri, Harry Wilson e Marko Grujic. Suficiente para cobrir as chegadas de Diogo Jota, Tsimikas e Thiago, que devem dar ainda mais dimensão ao arsenal de Klopp.

*Números do Transfermarkt

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