Enquanto a bola rola pela Copa do Mundo, a Série A do Brasileirão segue em compasso de espera por aqui – ainda que tenha sido interrompido em cima da hora, com rodada cheia na véspera da abertura do torneio na Rússia. O problema do nosso calendário, porém, já foi bem pior em outros tempos. Em 1974 e 1978, o Campeonato Brasileiro simplesmente não parou durante o Mundial, tendo ainda como agravante o fato de a Seleção ser formada então inteiramente por jogadores que atuavam aqui e que, com isso, desfalcaram seus clubes durante extensas fases de preparação nos meses que precederam a competição de seleções.

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Há outras semelhanças entre as duas edições: entre 1971 e 1979, somente naqueles dois anos de Copa do Mundo o Brasileirão foi passado para o primeiro semestre. Em ambos os casos começou em março, quase imediatamente após o fim da edição anterior, que transbordara para o ano seguinte. E também há a coincidência de os vencedores destes dois campeonatos em ano de Copa terem sido clubes que não contaram em nenhum momento com jogadores convocados para a Seleção durante os amistosos daqueles anos ou a fase final do Mundial.

Em 1972, 1973, 1976 e 1977, os torneios estaduais haviam sido interrompidos por cerca de 40 dias no meio do ano. No primeiro, devido à disputa da Taça Independência (ou Minicopa) em solo brasileiro. No segundo, pela longa excursão pela Europa e Norte da África realizada pela Seleção naqueles meses. No terceiro, houve a disputa do Torneio Bicentenário, nos Estados Unidos. E no quarto, amistosos e a segunda etapa das Eliminatórias para a Copa do Mundo (o chamado “Mundialito de Cali”). Os campeonatos nacionais de 1974 e 1978, no entanto, não teriam o mesmo tratamento e continuariam rolando, quase às escondidas.

1974

A preparação para a Copa do Mundo da Alemanha Ocidental foi intensa. A convocação dos 22 jogadores (juntamente com a lista suplementar de 18 nomes exigida pela Fifa) foi anunciada em 18 de fevereiro, com a apresentação para o início dos treinos programada para 4 de março. Depois disso, num período de menos de um mês e meio, entre 31 de março e 12 de maio, a Seleção entrou em campo nada menos que nove vezes, enfrentando México, Tchecoslováquia, Bulgária, Grécia, Irlanda e Paraguai no Maracanã, Romênia e Áustria no Morumbi e o Haiti no recém-inaugurado Estádio Hélio Prates da Silveira (atual Mané Garrincha) em Brasília.

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Quatro dias depois do último amistoso por aqui, contra os paraguaios, a delegação embarcaria para a Europa, de onde só voltaria com o quarto lugar no Mundial, após a derrota para a Polônia em 6 de julho. Embora entre o início dos treinos e a inscrição final na Copa, a Seleção tenha enfrentado vários cortes de jogadores lesionados, estes não voltaram imediatamente a seus clubes em condições de jogo e seguiram como desfalques. Por outro lado, seus substitutos no escrete foram retirados dos clubes bem no meio da campanha no Brasileiro.

O torneio nacional de 1974 começou no dia 9 de março, no sábado seguinte à apresentação dos convocados. Com os 40 clubes divididos em duas chaves de 20, regionalizadas. De um lado os cariocas, gaúchos, baianos, paranaenses, paraenses, mais os representantes únicos de Espírito Santo, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Sergipe. Do outro, os paulistas, mineiros, pernambucanos, cearenses, amazonenses e os solitários participantes de Alagoas, Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso (na época, ainda não dividido).

Assim, desde as primeiras rodadas, o Botafogo ficou sem Wendell, Marinho Chagas, Jairzinho e Dirceu (Carbone, cortado, retornou em maio). O Fluminense perdeu Félix (outro que seria cortado, por lesão) e Marco Antônio. E o Flamengo acabou sem seu camisa 10, Paulo César Caju, e mais tarde sem o goleiro Renato. O Santos, por sua vez, perdeu Marinho Peres, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo (os dois últimos, também afastados por problemas físicos). O Corinthians não teve Zé Maria e Rivelino. O São Paulo ficou sem Mirandinha (e, às vésperas do Mundial, sem Waldir Peres). E a Portuguesa, por um tempo, não teve Enéas.

O Internacional ficou sem Paulo César Carpegiani e, mais adiante, Valdomiro. Enquanto o Cruzeiro perdeu imediatamente Piazza e, dali a algumas semanas, Nelinho. Mas o caso mais extremo foi o do Palmeiras, que não pôde contar com Leão, Alfredo, Ademir da Guia e Leivinha em nenhuma partida do campeonato, enquanto Luís Pereira só foi a campo uma vez, já após a Copa, e César chegou a atuar em três partidas do início do torneio, antes de ser chamado da lista reserva. No jogo contra o Santos, em 20 de abril, o Alviverde chegou a ter nove desfalques: além dos seis convocados, teve outros dois jogadores suspensos e um submetido a cirurgia.

Além dos jogadores do Brasil, os estrangeiros que defendiam clubes brasileiros e foram chamados para o Mundial também se tornaram desfalques, pelo menos enquanto durou a participação de suas seleções na Copa. Foi o caso dos uruguaios Ladislao Mazurkiewicz (goleiro do Atlético Mineiro) e Pedro Rocha (meia do São Paulo), do zagueiro chileno Elias Figueroa (Internacional) e do também defensor argentino Roberto Perfumo (Cruzeiro).

No Brasileirão, os 22 clubes que somassem mais pontos, independentemente dos grupos, avançariam para a segunda fase, juntamente com dois classificados pelo ainda vigente critério de renda das partidas. Na etapa seguinte, seriam divididos em quatro grupos de seis equipes, com o primeiro colocado de cada avançando para o quadrangular final. A última rodada cheia da primeira fase, com 14 jogos, aconteceu em 16 de junho, três dias depois da abertura da Copa, com a estreia do Brasil enfrentando a Iugoslávia no Waldstadion, de Frankfurt.

Daí então houve uma pequena pausa, com o torneio nacional retornando no dia 29 de junho, véspera do segundo jogo do Brasil na segunda fase da Copa, contra a Argentina. No mesmo dia 3 de julho que marcou o confronto do time de Zagallo com a Holanda de Cruyff, que definiu o classificado para a final da Copa do Mundo, por exemplo, foram disputadas nada menos que nove partidas do Brasileirão, entre elas um Internacional x Fluminense no Beira Rio. E no dia 7, data da final do Mundial, quatro jogos completaram mais uma rodada da segunda fase do certame nacional, entre eles um Grêmio x Santos e um São Paulo x Portuguesa.

Naturalmente, a concorrência com o principal torneio de seleções do mundo, ainda que o escrete canarinho não cumprisse campanha das mais animadoras (ou talvez por causa disso), impactou negativamente na média de público do Brasileirão, que naquele ano despencou para 11.601 torcedores por jogo, quase quatro mil a menos que no torneio anterior – que, por sua vez, já vinha em queda em relação aos anos anteriores.

No dia 9, a delegação brasileira retornou ao país, mas seus integrantes tiveram destinos diferentes dentro do Campeonato Brasileiro que prosseguia. O Botafogo, por exemplo, já fora da disputa por não ter se classificado para a segunda etapa, deu folga de oito dias para seus jogadores e integrantes da comissão técnica que estiveram na Alemanha Ocidental. Já os clubes que ainda alimentavam esperanças de avançarem ao quadrangular final, como o Internacional, concederam apenas um dia de descanso.

Dois atletas, entretanto, sequer entrariam em campo por seus clubes de antes do Mundial: Jairzinho e Paulo César Caju acertaram suas saídas de Botafogo e Flamengo, respectivamente, rumo ao Olympique de Marselha. Sequer ficariam para ver o desfecho do Brasileirão. O Cruzeiro voltou a ter Nelinho, Perfumo e Piazza. O Santos resgatou Marinho Peres (que após o torneio trocaria o Peixe pelo Barcelona) e Edu. O Inter pôde contar de novo com Paulo César Carpegiani, além do já reintegrado Figueroa. Mas o título acabou ficando com o Vasco do artilheiro Roberto Dinamite, que não cedera nenhum jogador à Seleção naquela Copa.

1978

Fala-se muito do Brasileirão de 1979, com seus 94 clubes participantes, como o maior expoente de uma era de gigantismo (no mau sentido) do futebol brasileiro. Mas o torneio do ano anterior não fica atrás: foi um torneio mastodôntico. Ao todo, 74 equipes disputaram nada menos que 792 partidas em três fases de grupos mais três etapas de mata-mata (quartas de final, semifinais e finais) em ida e volta, ao longo de cinco meses e meio, entre 25 de março e 13 de agosto daquele ano. Só para comparar, o atual campeonato por pontos corridos com 20 clubes se enfrentando em turno e returno tem 380 jogos estendidos por cerca de seis meses e meio.

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Na sexta-feira, 24 de fevereiro, ainda durante a reta final do Brasileirão de 1977 (que adentrou pelo ano seguinte), o técnico Cláudio Coutinho convocou 21 jogadores para uma excursão à Europa e Oriente Médio a ser feita pela Seleção Brasileira em abril. Antes do embarque, marcado para o dia 27 de março, a equipe iniciou seus preparativos para o Mundial da Argentina fazendo três amistosos contra combinados estaduais durante as três semanas entre o fim do campeonato nacional de 1977 (no dia 5 daquele mês) e o início do seguinte.

A excursão já significaria o desfalque dos jogadores convocados para seus clubes. O Corinthians perderia Zé Maria, Amaral (contratado junto ao Guarani no início de janeiro daquele ano) e o ponta-esquerda Romeu. A Ponte Preta ficaria sem o goleiro Carlos e a dupla de zaga, Oscar e Polozzi. Já o Palmeiras não teria Leão e Jorge Mendonça. Entre os cariocas, duas perdas para cada clube: o Flamengo ficou sem Zico e o lateral Toninho, o Vasco sem Abel e Dirceu, o Fluminense sem Rivelino e Edinho e o Botafogo sem Gil e Rodrigues Neto.

O Atlético Mineiro, que também disputava em paralelo a primeira fase da Taça Libertadores juntamente com o São Paulo (este, sem convocados), perderia Reinaldo e Cerezo, enquanto Inter e Grêmio ficariam sem Batista e Tarciso, respectivamente. Por fim, o Santa Cruz – raro caso de clube nordestino prestigiado – teria o desfalque do centroavante Nunes. Estes jogadores ficariam de fora do Brasileiro pelo menos por boa parte da primeira fase, na qual os 74 clubes seriam divididos em seis chaves, com 12 ou 13 equipes.

Terminada a excursão, na qual o Brasil enfrentou as seleções da França, Alemanha Ocidental e Inglaterra, além do Al-Ahli da Arábia Saudita (treinado então pelo brasileiro Didi), a Internazionale e o Atlético de Madrid (os dois últimos em jogos comemorativos dos aniversários dos clubes), a delegação retornou no dia 22 de abril, e o time de Cláudio Coutinho continuou a preparação em novos amistosos, com ligeiras mudanças na Seleção. O centroavante vascaíno Roberto Dinamite havia sido chamado para o lugar do lesionado Nunes. E o trio são-paulino formado por Waldir Peres, Chicão e Zé Sérgio ganhava um lugar, com as dispensas de Tarciso e Romeu.

Naquele mês de maio, a Seleção enfrentou a equipe do Peru, um combinado pernambucano, a Tchecoslováquia e outro combinado, o gaúcho. Entre esses dois últimos jogos, houve o corte de Zé Maria, por lesão, sendo substituído pelo cruzeirense Nelinho. O jogador desfalcaria seu clube na segunda fase do Brasileiro, iniciada no dia 21 e que se estendeu até 24 de junho. Foi a etapa mais prejudicada do torneio nacional, já que concorreu diretamente com a Copa do Mundo.

A CBD teve o bom senso de não marcar nenhuma partida do Brasileirão para o mesmo dia da estreia da Seleção contra a Suécia. Mas o mesmo não se repetiu nos outros jogos. Em 7 de junho, data de Brasil x Espanha, foram realizados sete jogos, com Corinthians, Flamengo e São Paulo entrando em campo. Quatro dias depois, quando o Brasil jogou sua classificação à próxima fase daquela Copa contra a Áustria, houve três partidas, entre elas um confronto entre Atlético (sem Reinaldo e Cerezo) e Palmeiras (sem Leão e Jorge Mendonça) no Mineirão.

Outras cinco partidas foram jogadas no mesmo 18 de junho de Brasil x Argentina, a chamada “Batalha de Rosário”, com Corinthians, Cruzeiro e Ponte Preta entrando em campo. Já na quarta-feira, 21, em que o time de Cláudio Coutinho enfrentou a Polônia (e os argentinos golearam os peruanos), foram apenas duas as partidas disputadas pelo Brasileirão. Na ressaca da eliminação da Copa, a CBD não perdoou: marcou rodada cheia para o sábado, 24, com mais de 20 partidas, enquanto o time canarinho enfrentava a Itália pela decisão do 3º lugar.

A vida seguiu após o Mundial, com os 32 clubes classificados à terceira fase do Brasileiro divididos em quatro grupos de oito, com dois avançando em cada um para o mata-mata. Mas, como em 1974, nem todos os convocados voltaram a defender suas equipes no campeonato nacional. Alguns foram negociados – como Rivelino, que trocou o Fluminense pelo futebol árabe – e outros se afastaram por problemas físicos – caso de Zico, que se tratou de uma distensão sofrida no jogo contra a Polônia e não entrou em campo nenhuma vez pelo Flamengo naquele torneio.

Porém, a exemplo do Galinho, que quatro anos antes havia recebido a camisa 10 rubro-negra no lugar do convocado Paulo César Caju e brilhou no Brasileiro, recebendo a Bola de Ouro do torneio aos 21 anos, outros novatos também ganharam a chance de se destacar enquanto os donos das posições estiveram ausentes. Foi o caso de Paulinho, centroavante que o Vasco havia trazido do XV de Piracicaba no ano anterior, em princípio por empréstimo e mais tarde em definitivo. O substituto de Roberto Dinamite se sagrou o artilheiro do campeonato, com 19 gols.

Nem Paulinho nem Roberto, porém, puderam evitar a eliminação dos cruzmaltinos nas semifinais diante daquele time que seria a sensação do torneio: o Guarani. O clube campineiro, que no início do ano perdera seu único selecionável ao vender Amaral ao Corinthians, avançaria contra todos os prognósticos e levantaria o título, batendo o Palmeiras nos dois jogos da decisão.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo, no Mundo Rubro-Negro e no It’s a Goal, página especialmente voltada à história do futebol inglês.