*Por Bruno Rodrigues

Há quem acredite no futebol como elemento fundamental de transformações sociais. Para muitos o esporte educa, ajuda a tirar crianças e jovens da marginalidade e oferece a eles oportunidades que a dura realidade infelizmente não os faz enxergar. E foi exatamente com base nessa crença que quatro argentinos, responsáveis pelo projeto Revolución Pelota, decidiram rodar quase toda a América do Sul para levar um pouco de esperança aos mais escondidos cantos do continente. Como? Distribuindo bolas e reformando campinhos.

Hoje já são mais de 30 mil quilômetros rodados, alguns campinhos reformados e 215 bolas repartidas por Argentina, Brasil, Chile, Equador, Peru e Bolívia. O grupo estima ainda que quase 2 mil jovens tenham sido atingidos pela tal “revolução”, iniciada em 2013. Números significativos de uma ideia que nasceu após uma pelada jogada no litoral da Colômbia. Federico Pería e Matías Perrone passavam férias em Cartagena quando, sentados em uma praça da cidade, foram convidados para participar de uma partida que se anunciava no local e se estendeu por boas horas ao longo da madrugada. O impacto da transformação daquele ambiente em quadra foi tão grande nos dois argentinos, que decidiram partir em uma aventura onde pudessem, por meio do futebol, mudar realidades de outros locais como aqueles garotos colombianos fizeram naquela noite em Cartagena.

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“Revolución Pelota surge em uma viagem por toda a América do Sul na qual repartimos mais de 60 bolas. A viagem durou dois meses e pudemos ver e entrar nos lugares mais segregados do continente. A bola era a desculpa para poder ver de perto a realidade”, diz Pería, que além de Perrone conta com o apoio de Matías Asconapé e Facundo Leiton. “Não foi nossa intenção que essa viagem se convertesse em um projeto social. Mas o que fizemos teve muita repercussão midiática e isso nos deu conta de que estávamos fazendo algo diferente. Um ano depois dessa primeira viagem decidimos formalizar a organização, lançamos a plataforma www.revolucionpelota.org e hoje já repartimos mais de 200 bolas em diferentes lugares da Argentina e da América do Sul”.

Neste primeiro passo da iniciativa, os gastos com materiais esportivos e combustível saíram do bolso dos próprios integrantes. “Gastávamos muito dinheiro em combustível. Por sorte, quando fizemos a viagem ao Brasil uma revista muito importante de Buenos Aires realizou uma entrevista com nós. Logo que saiu a matéria marcas muito importantes se aproximaram da gente, e uma delas foi a Chevrolet”, revela Pería. Atualmente, a montadora norte-americana banca todos os custos de combustível e oferece ao grupo uma caminhonete por viagem. Outra grande marca que firmou parceria com Revolución Pelota foi a Adidas – às bolas e materiais diversos que a empresa fornece se somam as doações de outras pessoas, que são feitas por meio do site do projeto e também via campanhas realizadas pelo grupo. “Isso nos permitiu seguir viajando e repartindo muitas bolas em diferentes lugares”.

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A parada no Brasil, inicialmente, serviria para que os hermanos pudessem ver a estreia da seleção argentina na Copa do Mundo – com vitória por 2 a 1 sobre a Bósnia. “Parecia interessante ver o contraste entre o Mundial que era mostrado ao mundo e como viviam o torneio essas pessoas nas favelas”, afirma Pería. A visita ao Complexo do Alemão foi feita em conjunto com o C.E.M. (Centro de Educação Multicultural), ONG que atua na região – e também no Complexo da Penha – promovendo diversas atividades culturais e educativas. Na favela carioca, 45 bolas de futebol foram distribuídas para a diversão de mais de 50 crianças e adolescentes contemplados pela iniciativa.

Apesar de todos os sorrisos e das bolas distribuídas no Rio e em outros lugares pobres do continente, Pería adota cautela e, ao mesmo tempo, usa tom poético na hora de responder se conseguiram realmente promover essa revolução que dá nome ao projeto. “A palavra revolução é muito ampla e tem uma conotação muito forte. Para nós revolução é evolução, é buscar algo melhor, é lutar como pode para tentar mudar uma realidade que não é igual para todos. Sem paixão não poderíamos fazer o que fazemos, e uma revolução é um grande ato de amor”, diz.

Em 2015, os argentinos querem seguir tocando o projeto. Rodando mais quilômetros, ajudando mais pessoas e colecionando mais histórias de vida pela América do Sul. Porém, sempre perseguindo o mesmo sonho: “Que nunca falte uma bola”, completa Pería.

Abaixo, uma galeria de fotos tiradas pelo projeto. O sorriso das crianças é contagiante: