Eleito quatro vezes consecutivas o melhor jogador do mundo, entre 2009 e 2012, Lionel Messi voltou ao topo do pódio nesta segunda-feira, na eleição da Bola de Ouro de 2015, após ver Cristiano Ronaldo levar para casa o prêmio nos dois anos anteriores. A premiação é uma recompensa justa para a nova reviravolta do argentino em sua carreira. Após algumas lesões particulares e a queda de produção coletiva do Barcelona nos últimos anos, o camisa 10 foi essencial para que o clube também voltasse ao topo no cenário mundial. Em geral, Messi foi melhor tecnicamente que qualquer outro jogador, mas há ainda outros fatores que apontam para sua vitória.

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Decisivo nos momentos chave

Quatro anos após sua última conquista, o Barcelona voltou a levantar a taça da Champions League ao final da temporada passada, batendo a Juventus na final em Berlim. Como em quase todas as campanhas, a fase de grupos costuma ser moleza para os times mais fortes do continente, e é a partir da fase de mata-mata que essas equipes realmente são testadas. É a partir das oitavas de final que decepções acontecem, jogadores são alçados à condição de heróis, e concorrentes à Bola de Ouro fazem sua “campanha” para ficar com o prêmio. Nesse sentido, Messi foi impecável na oportunidade que teve.

Já nas oitavas, contra o Manchester City, o argentino começou a mostrar a magia de seu futebol. Na partida de ida, construiu a vitória por 2 a 1 sobre os ingleses em Manchester com uma assistência para Suárez marcar o primeiro gol e iniciando a jogada do outro tento do uruguaio. Na volta, o espetáculo foi ainda maior. O Barça venceu por 1 a 0 com gol de Rakitic após jogada e assistência fantásticas do argentino, mas o show do camisa 10 se estendeu por todo o confronto, causando no rosto de Pep Guardiola, presente nas arquibancadas do Camp Nou, uma das expressões da temporada passada do futebol europeu.

Diante do poderoso Bayern de Munique, nas semifinais da competição, Messi foi ainda mais mágico. Na partida de ida, que basicamente assegurou ao Barcelona um lugar na decisão da Liga dos Campeões, Messi foi o grande diferencial entre duas equipes parelhas, apesar de ambos os lados terem mais opções capazes de transformar um jogo. Após 77 minutos de um empate sem gols, o argentino abriu caminho para o triunfo com um chute de fora da área, acertando o canto esquerdo de Neuer. Três minutos depois, ampliou a vantagem com um gol de pura genialidade, em que fez Boateng, um dos melhores zagueiros do mundo, parecer um amador, e Neuer, o melhor goleiro do planeta, parecer qualquer um. De quebra, deu o passe para Neymar fazer 3 a 0. O Barça confirmou a vaga na final segurando o Bayern na volta, em Munique, e perdendo por apenas um gol de diferença.

Messi abraçou as novas estrelas do time

Antes de o Barcelona chegar voando para a reta final da temporada passada, garantindo o título da Champions League, a equipe precisou passar por uma fase difícil, e a virada de ano de 2014 para 2015 virou também um símbolo de virada de sorte para os culés. A equipe começou o ano passado perdendo a primeira partida para a Real Sociedad, então treinada por David Moyes, e a conversa na imprensa espanhola era de que Luis Enrique havia perdido o vestiário e de que seus dias no Barça estavam contados. O zagueiro Mathieu chegou até a confirmar publicamente que o treinador e Messi haviam brigado durante um dos treinos após o fim das férias do fim de 2014. A virada de sorte passou necessariamente pelo entrosamento do recém-formado trio MSN, e Messi teve papel essencial nisso.

Suárez havia feito sua estreia pelo Barcelona no fim de outubro de 2014, e Neymar, embora já um pouco melhor do que em sua temporada de estreia, ainda jogava muito em função Messi, e o argentino ajudou a aumentar o protagonismo dos dois companheiros sul-americanos. Durante os treinamentos e mesmo nos jogos, era possível ver o esforço do camisa 10 em fazer os dois se sentirem em casa, seja com brincadeiras nas atividades preparatórias ou com assistências durante as partidas. Messi poderia facilmente ter se sentado em seu protagonismo, repetindo a narrativa que a imprensa adora destacar de como o argentino “espanta” craques que chegam ao Barça, como teria acontecido com Ibrahimovic, mas, em vez disso, estabeleceu uma relação próxima com os atacantes que propiciou o crescimento do trio dentro de campo e o florescimento do talento individual de cada um no futebol do Barça.

A volta à velha posição e cada vez mais um camisa 10

Com o estabelecimento de Suárez e Neymar como titulares absolutos, Luis Enrique buscou a melhor maneira de encaixar o trio, até que chegou à constatação de que era a hora de Messi voltar à sua “posição de origem”. Mais pela ponta direita, como atuava antes de Pep Guardiola assumir o Barcelona em 2009 e torná-lo um falso 9. O retorno à posição significou para Messi também o retorno à condição de melhor jogador do mundo, além de ajudá-lo a aprimorar cada vez mais suas características de armador. O argentino, em seu novo papel sob o comando de Luis Enrique, não se limitou à ponta. Cai sempre pelo meio, atrás de Suárez e pondo-se ao lado de Neymar, como opção para tabelas, que, frequentemente, acabam com alguma assistência brilhantes por cima da zaga, perdida com a velocidade do trio barcelonista.

Era de se esperar que, abrindo espaço para que dois companheiros com tamanha capacidade técnica crescessem em protagonismo e ganhando cada vez mais características de meio-campista, Messi diminuísse um pouco seu papel de protagonista ou pelo menos seus números avassaladores. Mas mesmo as estatísticas referendam o ano fantástico do argentino: nos 61 jogos que disputou em 2015, o camisa 10 fez 52 gols e deu 26 assistências, ajudando a levar o Barcelona ao incrível número de 180 gols no ano passado.

É preciso ser muito fã de um dos concorrentes de Messi à Bola de Ouro (ou um odiador insensato) para encontrar base para uma contestação válida ao prêmio do argentino. Não houve, nem de perto, jogador tão incrível quanto o camisa 10 em 2015. E ver que o craque do Barça tenha conseguido retornar a esssa condição após dois anos, tendo enfrentado dúvidas por questões físicas neste intervalo, aumenta a impressão de que ainda temos algum tempo para ver o melhor de Messi.