Há 15 anos, a Bola de Ouro realizou uma de suas disputas mais acirradas para determinar o vencedor. Vários jogadores pareciam aptos a ganhar a honraria: Ronaldinho aprontava suas bruxarias no Barcelona, Deco conduzira o Porto à conquista da Champions, Henry era a referência nos Invincibles do Arsenal. No fim das contas, pesaram mais os gols de Andriy Shevchenko com a camisa do Milan, campeão da Serie A. O atacante recebeu a condecoração não por ter mais votos, mas por ter sido mais vezes citado em primeiro.

Este texto, porém, não visa exaltar Sheva por aquilo que realizou rumo ao troféu. A grande história vem depois. Afinal, um dos primeiros atos do craque como melhor jogador europeu foi agradecer ao homem que o lançou para o futebol, mesmo que este não estivesse mais presente. O atacante prestou seu tributo a Valeriy Lobanovskyi, falecido dois anos antes.

Considerado o maior técnico soviético da história, à frente da seleção em duas Copas do Mundo, Lobanovskyi sempre esteve ligado ao Dynamo Kiev. Ainda nos tempos de Cortina de Ferro, o comandante levou o clube a oito títulos do Campeonato Soviético e a duas Recopas Europeias. Impulsionou, inclusive, seus primeiros pupilos ganhadores da Bola de Ouro: Oleg Blokhin (1975) e Igor Belanov (1986).

Já nos anos 1990, após a independência da Ucrânia, Lobanovskyi também construiu a hegemonia do clube no novo país e o levou às semifinais da Champions League. Seria o responsável por lapidar Shevchenko. Seria visto como um pai pelo craque. Não só ajudou o prodígio a aproveitar todo o seu talento, como teve outras influências em sua vida e em suas visões – responsável, por exemplo, por fazer o atacante a parar de fumar.

Lobanovskyi faleceu em 2002, aos 63 anos, quando ainda dirigia o Dynamo. Sofreu um derrame durante um jogo do clube e não resistiria após uma semana internado. Shevchenko nunca escondeu a adoração pelo antigo comandante, mesmo no Milan. E isso se notaria em dois atos. Primeiro, quando levou a taça da Champions League de 2003 ao memorial dedicado ao treinador, no estádio do Dynamo – que leva o nome do mestre. Depois, ao fazer o mesmo com a Bola de Ouro, posando ao lado da enorme estátua de Lobanovskyi.

“Foi minha maneira de agradecê-lo por tudo o que me deu. Sem dúvidas, ele foi o treinador que mais mudou minha vida. Ele me ensinou a necessidade de ser paciente, injetou em mim a cultura de trabalhar duro e a importância de respeitar o adversário. Ele lançou os fundamentos sobre os quais minha carreira se baseou”, declararia Sheva, sobre as homenagens. Quinze anos depois, o tributo continua. Técnico da Ucrânia classificada à Euro 2020, o ex-atacante honra a memória de Lobanovskyi de outras maneiras.