A carreira de Bojan Krkic nunca atingirá o que se projetou um dia. O garoto que pintou como a nova joia de La Masía até viveu alguns momentos de destaque no Barcelona, mas bem distante de se firmar. Desde então, rodou a Europa. Passou por Roma, Milan, Ajax, Mainz 05, Alavés. Teve momentos razoáveis com o Stoke City e, depois de dois empréstimos, voltou aos Potters nesta temporada, para tentar ajudar o clube a se reerguer na Championship. Aos 28 anos, sequer está entre os protagonistas do elenco, mas aproveita a realidade e usufrui da experiência que acumulou.

Nesta semana, Bojan concedeu uma longa entrevista à BBC Radio 5, falando sobre diferentes aspectos de sua carreira. O atacante demonstra total consciência das dificuldades que enfrentou e não se faz de vítima, tirando suas lições. Além disso, tem uma cabeça bastante aberta aos conceitos construídos sobre si, bem como a tudo o que já vivenciou no mundo do futebol. Abaixo, destacamos os principais trechos:

O peso de ser ‘o novo Messi’

“Você precisa controlar as coisas que pode fazer. No meu primeiro ano, marquei dez gols no Espanhol. As pessoas começaram a falar que eu era o novo Messi. Você não pode fazer nada sobre isso. No fim das contas, eu conheço minhas qualidades e sei que não sou Messi. Sou Bojan. Não era fácil. Messi marca três gols todo jogo. Se você faz um, não é o novo Messi. Quando fui à Roma e ao Milan, cheguei não como o Bojan. Mas como uma nova estrela, um novo Messi. Então, se você joga bem, não é suficiente. Você precisa ser o melhor. Era isso que não me ajudava. No começo, era difícil de entender, mas com experiência consegue lidar melhor”.

A decisão de sair do Barcelona

“Quando jogava no Barcelona, nunca imaginava que poderia atuar em outro time ou viver em outra cidade. Quando tomei a decisão de sair, fiz com minha cabeça, não com meu coração. Meu coração dizia que aquela era minha casa, meu lugar. Não sabia que, além do Barcelona, há um mundo realmente bacana. Abri a porta para dizer ‘muito obrigado, farei meu caminho’. Quando você abre e vê muitas coisas te esperando, no começo fica com medo. Camisa, torcida, cultura, mentalidade: tudo é diferente. Mas quando você toma essa decisão, depois de dar o primeiro passo, realmente se sente orgulhoso”.

As diferentes realidades em cada país

“Na Espanha e na Itália, quando você vence, você é o melhor. E quando você perde, você é muito ruim. Na Itália, num jogo em que você ganha e marca um gol, não pode andar na rua porque as pessoas ficam muito entusiasmadas. Já quando você perde, elas ficam malucas. Depois do jogo, eles te esperam. Quando estava em Roma, perdemos um jogo e os torcedores estavam esperando no CT. O jogo seguinte era contra a Lazio, a grande partida da temporada. Eles disseram: ‘Hoje vocês podem perder, mas no próximo jogo não há desculpas’. E isso não foi dito de maneira amistosa. Muitos jogadores não se importam com a pressão. Há jogadores mais sensíveis. Aqui na Inglaterra, não sinto isso e posso aproveitar mais. É diferente jogar aqui em relação a outros lugares”.

A vida na Inglaterra

“A Inglaterra é o lugar onde me sinto mais respeitado fora de campo. Eu me sinto realmente orgulhoso da minha carreira – mais aqui na Inglaterra que na Espanha. Há mentalidades diferentes. Aqui as pessoas te respeitam. É um lugar bacana. Joguei semifinal de Champions, joguei por grandes times e agora estou na Championship. Isso emocionalmente é difícil, mas estou curtindo”.

As dificuldades no Ajax

“É difícil chegar a um lugar novo quando você passa por vários clubes em poucos anos, não há tempo suficiente para conhecer a cidade e novas pessoas. Eu morava sozinho em todos esses lugares. Quando você mora sozinho em sua casa em Barcelona, sabe que pode ligar para um amigo. Eu me lembro que um dos anos mais difíceis foi na Holanda. Meu inglês não era tão bom e eles falavam holandês. Ia ao treino e não falava com ninguém. Eles não tinham nenhum jogador que falasse espanhol, apenas Frank de Boer, e ele era o técnico. Falava com ele de vez em quando, mas não conversava com ninguém no treino e voltava para casa sozinho”.

A amizade com Cruyff

“Ele foi uma das pessoas mais legais que eu conheci no futebol. Antes de seguir ao Ajax, conversei com ele. Cruyff falou sobre mim no clube e me ajudou. Ele foi realmente importante para mim. Não deu carteirada por ser quem ele é. Foi um cara bacana, com conversas honestas. Eu me sentia mais humano quando conversava com ele”.

As relações no futebol

“Quando você está no vestiário, precisa ser forte. Se mostrar que está para baixo, todo mundo irá te devorar. Há 25 jogadores e apenas 11 jogam. Você precisa mostrar que é forte e pode lidar com tudo. Somos futebolistas. O clube te paga e os torcedores querem que você vença. Você precisa jogar. Todo mundo tem uma vida pessoal. Há muitas coisas difíceis para administrar, jogar diante de tanta gente e se sair bem. Tudo isso te faz mais forte”.