Doenças mentais e emocionais ainda são minimizadas e por vezes até ignoradas. A percepção sobre esse tipo de problema tem mudado, mas no futebol ainda é muito comum que isso seja não só ignorado, mas tratado como apenas uma fraqueza, e não, de fato, como uma condição clínica que não só pode, mas precisa ser tratada. O atacante Bojan Krkic, de 27 anos, revelação do Barcelona em 2007/08, falou sobre os problemas com ataques de ansiedade e como isso influenciou na sua carreira. Mais: contou como o mundo do futebol por vezes joga esse tipo de problema para baixo do tapete, o que certamente não ajuda na saúde mental dos jogadores. As revelações do jogador sobre como teve dificuldades em lidar com isso e como tudo foi jogado para baixo do tapete revelam como doenças mentais muitas vezes são vistas só como frescura.

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Bojan deu entrevista ao jornalista Sid Lowe, do Guardian, e contou como os ataques de ansiedade o atrapalharam. Inclusive revelou que isso o impediu de participar de uma das mais importantes conquistas do futebol espanhol: a Eurocopa de 2008. Com mais de 900 gols pelas categorias de base do Barcelona, ele foi rotulado como “novo Messi” e quebrou o recorde de jogador mais jovem a estrear pelo time principal do clube, superando o próprio Messi. Cercado de expectativa, Bojan teve que conviver muito cedo com cobranças de um lado e os problemas emocionais de outro.

“Eu tenho um problema”, afirmou Bojan. “Eu amo futebol, é a minha vida”, diz o jogador, atualmente emprestado ao Alavés, mas com vínculo com o Stoke City – recém rebaixado na Premier League. O atacante já passou por cinco países desde que estreou no futebol. Além da Espanha, jogou também na Roma e no Milan, na Itália; no Ajax, da Holanda; no Stoke City, da Inglaterra; no Mainz, da Alemanha; e agora o Alavés, de volta à Espanha.

Na Inglaterra, Bojan viveu uma experiência que o marcou. O Stoke City subiu para a Premier League em 2008/09 e ganhou fama sob o comando de Tony Pulis como um time duro, de futebol pouco vistoso, de muita força, bola aérea, o antigo kick and rush do futebol inglês. Tinha inclusive as famosas cobranças de lateral do meia Rory Delap, que era, como a maior parte do time do Stoke, um jogador limitado, mas com essa grande qualidade. A chegada de Bojan ao time, em 2014, foi uma das muitas mudanças que o time passou para, definitivamente, deixar esse estilo para trás. Algo que o próprio Bojan comemorou como uma grande vitória.

Nesta temporada, porém, o Stoke City voltou ao estilo de jogo mais duro, de ligação direta e correria. Bojan assistiu de longe o time ser rebaixado na Premier League. “Há uma frase: ‘Fútbol, qué bonito eras’… quando não havia redes sociais, quando era futebol”, diz Bojan. “E essa foi a sensação que eu tive lá: o cheiro disso, a essência”. Bojan fala sobre o temor que isso esteja se perdendo em outros lugares, consciente sobre o que acontece na vida de um jogador de futebol, “forças poderosas que você não pode controlar, opiniões que você não consegue parar”, em uma sociedade onde “a inveja predomina” e “todo mundo tem acesso a você”.

“Você não pode deixar te afetar, mas isso não é sempre fácil”, admite Bojan. “Aqueles de nós que têm sentimentos, que são sensíveis, que podem ser afetados, precisam de um bom escudo. Os jogadores são muito jovens e eles estão expostos. Mesmo no sub-15, os jogadores têm Twitter e eu tenho certeza que eles estão sendo insultados… É feio, isso mancha a sociedade e o futebol”.

O rótulo de “novo Messi” o perseguiu, com a marca de 900 gols em categorias de base se tornando um fardo. “Isso te acompanha em toda a sua carreira”. Duas semanas depois de completar 17 anos, ele já estava no time profissional do Barcelona. Era campeão mundial sub-17 pela Espanha, no ano anterior, e era um dos grandes destaques da geração.

“Tudo aconteceu muito rapidamente”, afirmou Bojan. “Em termos de futebol, foi tudo bem, mas não pessoalmente. Eu tinha que viver com isso e as pessoas dizem que a minha carreira não tinha sido como esperado. Quando eu surgi, era o ‘novo Messi’. Bem, sim, se você me comparar com Messi… Mas que carreira você esperava? E há muitas coisas que as pessoas não sabem. Eu não fui para a Eurocopa [2008] por problemas de ansiedade, mas nós dissemos que eu precisava de férias. Eu fui convocado para a Espanha contra a França, minha estreia na seleção, e foi dito que eu tive grastroenterite quando eu tive, na verdade, um ataque de ansiedade. Mas ninguém quer falar sobre isso. O futebol não está interessado”.

“Aos 17 anos, minha vida mudou completamente. Eu fui para o Mundial sub-17 em julho e ninguém me conhecia; quando eu voltei, eu não podia mais andar na rua. Alguns dias depois, eu fiz a minha estreia contra o Osasuna, três ou quatro dias depois eu joguei a Champions League, então eu marquei contra o Villarreal, então a Espanha me convocou [em fevereiro de 2008]. E estava tudo bem, mas minha cabeça enche e há um momento que seu corpo diz ‘pare’”, contou Bojan.

Ausência na Eurocopa 2008

Bojan no Barcelona, em 2009 (Photo by Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images)

“Ansiedade afeta todo mundo de modo diferente. Eu falei com alguém que sentia o seu coração bater mil vezes por minuto. Comigo, foi uma tontura, sentir-se doente, constantemente, 24 horas por dia”, explica. “Havia uma pressão aqui, poderosa, que nunca ia embora. Eu estava bem quando eu fui para o vestiário para o jogo com a França, mas eu comecei a sentir uma tontura forte, uma sobrecarga, um pânico, e eles me colocaram no banco do médico. Essa foi a primeira vez, mas eu tive episódios ruins assim outras vezes. Há remédio, há tratamento psicológico para superar as barreiras que você ergueu, o medo. Tudo começou em fevereiro e durou até o verão [na Europa, o verão é em junho, junho e agosto]. Quando a Eurocopa chegou, eu decidi que não podia ir, que precisava me isolar”.

“Todo mundo na federação sabia: Luis Aragonés [o técnico], Fernando Hierro [o diretor esportivo]. Hierro me mandou mensagens todas as semanas para perguntar como eu estava e no dia anterior ao anúncio, eles ligaram. ‘Bojan, nós iremos te convocar’. Eu estava no carro, indo para o treino. Eu disse: ‘Me dói dizer isso, mas eu não posso’. Eu cheguei ao Camp Nou e Carles Puyol estava lá. Ele me disse: ‘Bojan, eu estarei ao seu lado o tempo todo, eu estarei lá para você’. Eu disse: ‘Puyi, eu não posso’. Eu estava sob medicação, estava no limite. No dia seguinte, eu li a manchete: ‘Espanha convoca Bojan e Bojan diz não’”, contou o atacante.

“Essa manchete me mata, como se eu não me importasse. Eu lembro de estar em Murcia e as pessoas me insultando: elas não sabem, elas acham apenas que eu não quero jogar. Aquilo foi duro, apesar que naquele ponto eu não ligava para o que as pessoas diziam. O que me dói era que a manchete presumidamente veio da Federação. Como você pode me convocar quando você falou comigo no dia anterior, sabe quem eu sou, e então sai isso? Eu me senti sozinho. Ainda há pessoas agora que me perguntam: ‘Por que você não foi?’”, disse Bojan.

O repórter, então, pergunta por que Bojan não explicou isso na época. “Eu estava assustado. Eu estava doente. Eu estava sobrecarregado. Eu não sabia o que eu estava fazendo. Eu lembro de fazer uma entrevista para a Barça TV dizendo que eu precisava de férias. Eu sabia que não era a coisa certa… Mas naquela idade, você não sabe e a bomba já tinha explodido. Eu tentei apenas apagar o fogo. Eu senti que precisava escapar, de qualquer forma que eu pudesse. As pessoas sofrem para admitir que as coisas não estão bem e o que importa no futebol é que esteja tudo bem, encubra isso”.

“Eu ainda tenho a cicatriz. Ela não se abre, mas você sente isso às vezes, é um lembrete. Eu era jovem, você supera as coisas rapidamente, mas em termos de mídia, o modo que as pessoas te vem, isso me causou algum estrago”, afirmou.

Nível na carreira

A carreira de Bojan foi errática. Depois de passar quatro anos no Barcelona, ele deixou o clube. E justificou a escolha. “Seria fácil ficar no Barcelona e não jogar, mas eu precisava sair”, afirmou ele. “Talvez às vezes eu deveria ter sido mais paciente, mas eu sempre foi honesto ao tomar decisões [de sair]; eu sempre precisei jogar. Você tem o seu caminho, Itália, Holanda, Alemanha, Inglaterra, mas o Barcelona condiciona tudo. As pessoas não valorizam o que você faz. Há aquela frase: ‘Vamos ver se Bojan volta ao seu melhor nível’. Mas qual é o melhor nível? Toda temporada eu cheguei a esse nível, às vezes de forma mais consistente, às vezes menos, mas eu sempre competi bem”, avaliou.

Nos treinamentos do Alavés, Bojan divide espaço com Munir El Haddadi, outro jogador formado no Barcelona. Brincam que só entre eles há quatro Champions League. “Depois da Champions League [2009] eu estava conversando com Thierry Henry e ele me disse: ‘Eu vim para cá ganhar a minha primeira’. Eu pensei: ‘Uau, esse cara que é o que é vence a sua primeira já na casa dos 30 e poucos anos e aqui estou eu, com 18’. Há jogadores que nunca jogam a Champions League, então me sinto privilegiado”, contou.

“O mais importante não são os troféus, são as experiências, o que você viveu, o que está no seu coração, o que você sabe, o que você vive. Ninguém pode roubar isso de você. E aquelas pessoas que falam mal de você irão te esquecer. Se Víctor Valdés, o maior goleiro da história do Barcelona, foi esquecido, como eles não esquecerão de mim? E então será apenas eu e o que restará será meu orgulho, os momentos, os momentos únicos que muitos jogadores nunca viveram”, contou.

“Eu amo futebol e isso ninguém nunca irá tirar de mim. Estou orgulhoso da minha carreira, orgulhoso do que eu vivi, e mesmo que haja momentos duros, como este ano, você tem que ser forte. Eu sempre irei amar futebol, sempre. Eu ainda sou jovem, eu gosto de jogar, e eu não tenho intenção de parar ainda”, disse Bojan.


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