Pela sétima vez na sua história, o River Plate será finalista da Libertadores. A terceira final em cinco anos, depois de conquistar o título em 2015 e 2018, ambas com o técnico Marcelo Gallardo, um ídolo enorme do time Millonario. O Boca Juniors precisava vencer e venceu, mas não foi o suficiente. Venceu por 1 a 0, placar que não foi o bastante para reverter a derrota por 2 a 0 no jogo de ida, no Monumental de Ñúnez. Mesmo diante de uma Bombonera lotada e a pressão do Boca, foi o River que saiu de campo comemorando, em um jogo tecnicamente fraco, que ficou devendo em qualidade.

O River Plate foi campeão em 1986, 1996, 2015 e 2018. Nos três últimos, Gallardo estava envolvido. Em 1996 como jogador, nas outras duas como o técnico mais importante na história do clube. Será, porém, a sétima final do time na Libertadores. Perdeu em 1966, quando foi derrotado pelo Peñarol, e em 1976, quando o campeão foi o Cruzeiro.

Diante de um Boca Juniors que precisava de dois gols, o River Plate jogou de forma muito diferente dos demais jogos. O time do River é bastante melhor tecnicamente, mas o jogo foi bastante igual. O Boca, sem conseguir envolver no ataque, foi valente, que era o mínimo que se esperava de um time desse tamanho. O Boca conseguiu igualar em grande parte o jogo, parte pelo próprio esforço, parte porque o River abordou o jogo de forma cautelosa.

Disputa forte, mas sem gols

O jogo estava marcado para começar às 21h30, mas acabou atrasando em 15 minutos. Isso porque havia muito papel picado e o árbitro, o brasileiro Wilton Pereira Sampaio, pediu que a equipe de limpeza tirasse o excesso. Só que a tarefa teve um ar um tanto patético: funcionários com máquinas de vento, tentando empurrar para fora o papel picado, mas o vento trazendo de volta ao campo. Foram 15 minutos até conseguir deixar o campo em condições, na opinião da arbitragem.

No primeiro tempo, o Boca usou a estratégia esperada: tentava quebrar a velocidade do River na troca de passes, tirando os espaços na defesa. O River, posicionado em um 4-1-3-2, buscava encontrar espaços das pontas para o meio, mas o Boca, defendendo em um 4-4-2, não dava chances, cortando essa linha de passe. E, a partir dessa forma de se defender, o Boca tentava partir para o ataque chegando rápido e com muitos jogadores ao ataque. As chances não foram muitas, mas o time conseguiu, especialmente no final, dar um certo calor.

Aos 21 minutos, o time chegou ao gol. Um gol anulado imediatamente, sem nem dar tempo para polêmicas. Depois de cruzamento, Emanuel Más tocou com a mão na bola, ainda que involuntariamente. Pela orientação da regra, é falta. A bola sobrou para Eduardo Salvio, que mandou para a rede. Ele mal saiu para comemorar. Nada de gol.

O River Plate conseguiu chegar com muito perigo no final do primeiro tempo. Aos 41 minutos, bola na ponta direita, Palacios recebeu a bola depois de desvio em outro jogador do River. Ele tocou para Borré, que, sem goleiro, hesitou um instante antes de chutar. O suficiente para a defesa bloquear o arremate. O assistente, então, marcou impedimento, acalmando corações boquenses.

O Boca também conseguiu um lance de perigo logo depois, aos 43. Mac Allister, o jogador das bolas paradas, cobrou escanteio, Almendra cabeceou sem muita direção e Enzo Pérez tentou cortar, mas errou e a bola foi para trás. O goleiro Armani precisou fazer uma boa defesa, mandando para escanteio. O Boca aproveitou o momento e chegou novamente dois minutos depois. Desta vez, Tevez, organizando muito o time pelo meio, abriu na direita para Buffarini, que cruzou. Salvio, no meio da área, tocou de cabeça, mas mandou por cima do gol, sem muita direção.

Tensão, gol e pressão

Na volta do intervalo, uma chance. Lançamento de Buffarini para dentro da área encontrando Ábila, que dominou, mas não teve agilidade para ajeitar e finalizar antes da marcação chegar para bloquear. Uma boa chance.

O Boca teria uma nova chance aos 10, em novo cruzamento para a área, com a bola pipocando até que sobrou para Más, que chuta, a bola rebate e sobra para Mac Allister. O camisa 8 finaliza para fora. O assistente marcou impedimento de Ábila no começo do lance, o que anularia toda a sequência.

O técnico Gustavo Alfaro fez logo duas substituições aos 16 minutos. Sacou Agustin Almenda e colocou Mauro Zárate, além de sacar também Ramón Ábila para colocar Jan Hurtado. O time ficou mais leve e mais rápido. Do outro lado, Marcelo Gallardo trocou Rafael Borré e Milton Casco por Lucas Prato e Paulo Díaz, respectivamente.

O jogo era brigado, mas pouco jogado. Havia um time no desespero, tentando achar um gol. O Boca parecia não ter um plano exatamente de como tornar esse gol possível. O problema para o Boca não era só conseguir um gol. Era ter a obrigação de marcar dois. A pressão do time existia, ainda que sem a qualidade de envolver o River. Um gol parecia possível. O difícil era pensar em dois.

Se envolver o River em uma trama ofensiva era difícil, foi preciso o uso de bolas paradas, como o time conseguia ser perigoso. Aos 34 minutos, cobrança de falta de Mac Allister, que jogou para disputa pelo alto na segunda trave, a bola é tocada no alto para o meio, em direção a Zárate. A bola fica pipocando e Hurtado empurrou a bola para dentro: 1 a 0 para o Boca.

O gol mudou o comportamento do River Plate. Passou a tentar ficar mais com a bola e mais no ataque, algo que não vinha fazendo. O Boca sofria para chegar ao ataque. Foi preciso mais uma cobrança de falta, aos 42 minutos. Zárate cobrou na área, Más cabeceou, mas a bola saiu torta e foi para fora. Era o jeito que o Boca tentava, levantando bolas na área e tentando um milagre. Um gol que levasse o jogo para prorrogação.

Não aconteceu. O gol do Boca não veio. A tensão nas arquibancadas era visível nos minutos finais, mas as chances de gols não vieram. Os minutos foram passando e os seis de acréscimos indicados pela arbitragem foram sendo consumidos tal qual água no deserto para os torcedores do Boca, e como uma lesma atravessando uma ponte para os torcedores do River.

Ao final disso tudo, o apito do árbitro foi uma libertação. Para os torcedores do River, libertação de um jogo que não foi tão bem, sofreu, mas sobreviveu e vai à final. Para o Boca porque o jogo foi tenso, duro, e a sensação no fim, ainda que de decepção pela desclassificação, veio um alívio por ver um time que igualou o seu rival, que era favorito e é efetivamente melhor.

A final da Libertadores em Santiago, no dia 23 de novembro, tem o seu primeiro elemento. O River Plate estará lá para decidir o duelo. O Boca se volta ao Campeonato Argentino para tentar buscar o título nacional e, em 2020, mais uma vez, tentar o sucesso continental.