A volta de Juan Román Riquelme ao Boca Juniors representou uma necessária quebra na política do clube, mas também uma dose de sebastianismo aos xeneizes. Se a continuidade da situação parecia inviável, diante das críticas sobre o presidente Daniel Angelici, não é que o novo comando represente necessariamente uma grande mudança na Bombonera. Jorge Ameal, o mandatário eleito no início do mês, já havia dirigido os boquenses na década passada e sido aliado do próprio macrismo, antes de se tornar oposição. E certos ares de “mais do mesmo” vieram nesta segunda, com o anúncio do novo treinador do Boca. Miguel Ángel Russo, campeão da Libertadores em 2007, está de volta à equipe.

A despedida de Gustavo Alfaro já tinha sido anunciada. O técnico estava longe de ser uma unanimidade entre os torcedores, por mais que tenha mantido um bom rendimento após a saída de Guillermo Barros Schelotto. Os xeneizes apresentaram um bom aproveitamento dos pontos, embora acabassem falhando nos momentos decisivos. Perderam a final da Copa da Superliga para o rebaixado Tigre e, sobretudo, sucumbiram outra vez diante do River Plate na Libertadores. Além das dolorosas quedas, também pesou contra o treinador seu excessivo defensivismo e as decisões equivocadas na reformulação da equipe. Assim, mesmo a um ponto da liderança no Campeonato Argentino, seu adeus tornou-se natural.

O ponto é que Miguel Ángel Russo não traz perspectivas tão animadoras assim ao Boca Juniors. O grande momento do treinador aconteceu em 2007, quando os xeneizes conquistaram seu sexto título na Libertadores, com atuações impecáveis de Riquelme – sobretudo nas finais. Sem acordo com a diretoria, o técnico deixaria o clube sem o merecido reconhecimento em 2008, quando dirigiu o San Lorenzo, e rodou por outros times tradicionais da Argentina – incluindo Rosario Central, Racing, Estudiantes e Vélez Sarsfield. Teria relevância especialmente em Rosário, ao tirar os canallas da segundona para levá-los ao vice-campeonato nacional.

Já nos últimos anos, Russo trabalhou no exterior. Passou mais de um ano à frente do Millonarios, com o qual conquistou o Torneio Finalización do Campeonato Colombiano em 2017. O título, aliás, representou uma vitória pessoal ao argentino. Durante a campanha, ele descobriu um câncer na bexiga e iniciou o tratamento contra a doença, passando por uma cirurgia para a retirada do tumor. Mesmo com a saúde debilitada, permaneceu à frente do time e só revelou sua batalha nas semanas seguintes à taça, quando o impacto da enfermidade em sua aparência era visível. Seguiu em frente, deixando o clube de Bogotá apenas no fim de 2018. Curado, o comandante também dirigiria Alianza Lima e Cerro Porteño em 2019. Foi um pouco melhor no Ciclón, com o qual deu trabalho ao River Plate nas quartas de final da Libertadores.

Ainda assim, Russo retorna ao Boca Juniors representando mais o passado que uma nova ideia. Aos 63 anos, chega respaldado por tudo o que já construiu no futebol, mas não exatamente por significar uma revolução aos xeneizes. É a confiança na história vitoriosa, como ocorre com o próprio Riquelme. O técnico deve apresentar um futebol mais agressivo do que o praticado pelos boquenses nos últimos meses, o que é o mínimo ante o que se viu com Alfaro. A campanha de 2007 ficou marcada justamente pelo futebol ofensivo, no 4-3-1-2 com muita força pelas pontas e liberdade total ao enganche. De qualquer maneira, as perspectivas de uma “modernização” são relativamente limitadas.

“O objetivo é a próxima partida. No Boca, você não pode se dar o descanso necessário. Temos que chegar da melhor maneira no retorno da temporada. Tomara que tenhamos uma boa arrancada, para definirmos o que estamos buscando. O Boca é ganhar, isso é muito claro”, afirmou Russo, em sua apresentação. “A sensação que tenho é de muita calma e de muita alegria. Este clube tem um tempero especial e, de volta hoje, sigo me sentindo parte”.

Neste momento, o Boca Juniors pensa mais na reformulação de seu elenco. O Campeonato Argentino está no meio da temporada, mas a mudança de comando e a troca na diretoria indicam uma oportunidade para limar jogadores que não estão rendendo. A Libertadores, ainda mais, representa o objetivo dos xeneizes. Medalhões como Carlos Tevez e Daniele De Rossi permanecem em dúvida. Além disso, à frente do departamento de futebol, Riquelme deve buscar suas apostas para o novo time boquense. Há um bom elenco, mas que precisa de peças pontuais para sonhar novamente com a taça continental.

A nova direção do Boca Juniors também terá que adequar as contas do clube. Jorge Ameal colocou sob dúvidas a idoneidade dos balanços apresentados pela gestão anterior e declarou que uma auditoria se iniciará na próxima semana, para esclarecer as finanças. A partir disso, a formação do elenco se baseará, com as ideias de Russo e Riquelme.

“Sou muito respeitoso com a equipe. Preciso conhecer o elenco. Primeiro vou apresentar as ideias e a forma. Tenho um grande respeito pelos jogadores. Não me perguntem quem vai, quem fica. Temos que definir algumas coisas na pré-temporada e vamos nos encaixar da melhor maneira, buscando o melhor. Sou quem mais tem necessidade de escutar os jogadores, e que me escutem”, declarou Russo. “Tudo o que o Boca joga é importante, precisamos de um elenco amplo. Necessitamos de todos”.

O Boca Juniors retoma suas atividades no Campeonato Argentino no final de janeiro, com totais condições de lutar pelo título. Além disso, o grupo na Libertadores é relativamente tranquilo, com Libertad e Caracas como adversários definidos neste momento. Que exista uma ansiedade por mudanças na Bombonera, dá para tentar passos mais firmes pensando na sequência de 2020. Os xeneizes apostam em nomes com bagagem no clube. Resta saber se os créditos do passado se refletirão no esperado futuro vitorioso.