Na metade deste mês, o Departamento de Estado dos Estados Unidos recomendou a todos os seus cidadãos residentes no Egito que deixassem o país. Após o golpe de Estado que derrubou o presidente Mohamed Morsi, o Egito enfrenta uma onda de violência e repressão, agravando ainda mais a crise política que assola o país. No entanto, diante deste cenário preocupante, um norte-americano ainda sente que tem uma missão a cumprir no país africano. Trata-se de Bob Bradley, que tem a responsabilidade de classificar a seleção egípcia para a Copa de 2014.

É uma história fantástica sob vários aspectos. A começar por ser um norte-americano no comando da seleção do esporte mais popular do Egito, que de uma forma geral, possui uma população que desaprova a política externa dos Estados Unidos. Muitos associam esse fator a um possível “ódio” dos egípcios com relação aos norte-americanos, mas Bradley tratou de quebrar esta crença.

De que maneira? Podemos resumir em duas formas: a partir de sua resiliência e de seu trabalho. Resiliência no sentido de se manter firme diante de um momento de adversidade. Não foram poucas as dificuldades que Bradley enfrentou (e ainda enfrenta) nesta aventura que em breve completará dois anos: a agitação política e social no país, o massacre em Port Said, o cancelamento de duas temporadas consecutivas do Campeonato Egípcio, a dissolução da diretoria que o contratou, os jogos como mandante em outros países ou com portões fechados, e por aí vai.

A maneira com a qual Bradley encara este panorama desfavorável é simplesmente espetacular. Enquanto muitos estrangeiros em seu lugar já estariam bem longe do Egito, o norte-americano aceitou o desafio consciente dos obstáculos que viriam pela frente. Não há como fazer um bom trabalho pensando em sair, como diz o próprio. No massacre em Port Said, por exemplo, ao invés de fugir da turbulência e correr de volta pra casa, Bradley marchou ao lado de sua esposa no meio da multidão para lamentar as vítimas da tragédia. Pra se ter uma ideia, o antecessor de Bradley, Hassan Shehata, só costumava aparecer publicamente em comícios pró-Mubarak (inclusive durante a Revolução Egípcia), ditador deposto em 2011. Diferença brutal.

Bradley também se reuniu com algumas famílias que perderam parentes em Port Said e doou parte do seu salário. A demonstração de seu grande caráter fez com que o povo o adotasse como um verdadeiro egípcio. O norte-americano, que vive com sua esposa em uma área nobre do distrito de Zamalek, fez do Egito um verdadeiro lar. Não possui guarda-costas, frequenta restaurantes, um mercado no bairro e um hospital infantil numa área nobre do Cairo.

Os aspectos esportivos, obviamente, também ajudaram Bradley a conquistar o respeito e a confiança dos egípcios. O treinador foi o grande responsável pelo rejuvenescimento da seleção, incorporando diversos jovens que hoje são fundamentais ao time, como o ótimo atacante Mohamed Salah. Apesar da desclassificação nas eliminatórias para a CAN 2013, a seleção egípcia apresenta bastante consistência e incorporou uma disciplina tática que inexistia antes da chegada de Bradley.  Tudo isso, vale lembrar, com o Campeonato Egípcio parado e os jogadores “locais”, como consequência disso, com ritmo de jogo comprometido e sem receber salários por conta da crise financeira que definha os clubes egípcios.

Um episódio curioso ilustra o “ineditismo” dos métodos de trabalho de Bradley no país. Em uma entrevista coletiva, o treinador surpreendeu as autoridades locais presentes com uma simples apresentação no PowerPoint. Nunca havia acontecido. O seu comprometimento com o trabalho é louvável: segundo o treinador de goleiros Zak Abdel, Bradley sabia o nome dos 25 jogadores da seleção logo em seu primeiro dia de trabalho. São nas pequenas atitudes que um profissional pode fazer a diferença.

O Egito, neste momento, é um país dividido. Não há um consenso de como o país deve seguir daqui pra frente e caminhar para a estabilidade. Em meio a isso, o único elemento que une toda a população é o futebol. Certa vez perguntado sobre o que sabia falar em árabe, Bob Bradley respondeu que conhecia apenas duas palavras: Kass Allam (“Copa do Mundo”). O treinador sabe que este é o grande anseio dos egípcios, que disputaram apenas um Mundial desde 1934.

Diante das adversidades, seria uma classificação carregada de um enorme simbolismo. Atualmente, dois documentários estão sendo filmados sobre a aventura de Bradley no Egito. Mais do que uma história que precisa ser contada, é uma história que deve ser reverenciada. Uma história que transcende o futebol, e quem sabe, traga esperança e alegria ao povo egípcio.

Curtas

– Uma situação curiosa causou polêmica no futebol africano. Tom Saintfiet, técnico belga de Malauí, acusou Stephen Keshi, da Nigéria, de racismo. O caso chama ainda mais atenção pelo fato da acusação partir de um branco contra um negro. “É um branco que deveria voltar para a Bélgica”, teria dito Keshi a Saintfiet, que acionou a Fifa pedindo providências a respeito do caso.

– Kevin-Prince Boateng, Andre Ayew e Michael Essien estão oficialmente de volta à seleção ganesa. O trio foi convocado por Kwesi Appiah para o duelo decisivo contra Zâmbia pelas eliminatórias para a Copa de 2014.

– Cobiçado por diversas equipes, o defensor Godfrey Oboabona, titular da seleção nigeriana, finalmente rumou para o futebol europeu. Ele deixou o Sunshine Stars, clube do seu país, para assinar com o Rizespor, da Turquia. Uma oportunidade interessante para o jovem de 23 anos progredir e transferir-se para um centro maior num futuro próximo.

– O Bizertin, equipe da Tunísia que disputa a Copa das Confederações da África, tomou uma decisão emergencial: anunciou uma campanha para obter doações de torcedores por conta da crise financeira que atinge o clube. Os mais de 20 mil sócios do clube, além de outros interessados, podem doar entre 3 e 30 dólares e ajudarem o time a cobrir as despesas da atual temporada.

– Falando em Tunísia, o Campeonato Tunisiano, previsto para iniciar no último fim de semana, teve sua rodada inaugural adiada. Os clubes locais exigem uma compensação financeira da Federação Tunisiana de Futebol (FTF) por conta das partidas realizadas com portões fechados na última temporada, motivadas por questões de segurança e que afetaram as finanças de todos os clubes. Enquanto o impasse não é resolvido, a bola não rola.