Várias partes do mundo foram tomadas por manifestações e gestos anti-racistas, inspirados na justa revolta do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), depois da morte de George Floyd, homem negro americano asfixiado por um policial branco. Em um texto ao Player’s Tribune, o jogador da Fiorentina emprestado ao Besiktas, Kevin-Prince Boateng, que nasceu na Alemanha e representou a seleção de Gana, acredita que este pode ser um momento importante na luta contra o preconceito, desde que haja um apoio contínuo e maior de outros jogadores de futebol, da imprensa e, principalmente, de pessoas brancas.

O ex-jogador usou sua experiência pessoal para fundamentar o argumento. Lembrou quando, em 2013, abandonou o gramado em um amistoso do Milan contra o Pro Patria e a história apenas tomou outras proporções porque os jogadores brancos o apoiaram. Aquele jogo foi quando toda a raiva que crescia dentro de Boateng desde a sua infância explodiu.

“Isto não é novo. Não vamos fingir que estamos chocados agora. Sete anos atrás, jogava um amistoso pelo Milan quando um grupo de torcedores fez barulhos de macaco todas as vezes em que jogadores negros pegavam na bola. Após 26 minutos, eu disse ao árbitro: ‘se fizerem de novo, vou parar de jogar’. Ele disse: ’não, não se preocupe, continue’. Estava tentando driblar um jogador quando eu ouvi de novo. Peguei a bola, chutei em direção à arquibancada e comecei a sair de campo”.

“Não foi a primeira vez que eu era alvo de xingamentos racistas, mas, naquele momento, eu simplesmente explodi. Quando o árbitro tentou fazer com que eu continuasse jogando, eu disse: ‘Cala a porra da sua boca’. (Desculpe meu linguajar). Eu disse: ‘Você tinha o poder de fazer algo. Você não fez nada’. Quando um jogador adversário tentou me convencer a continuar, eu disse: ‘Cala a porra da sua boca também. O que você fez sobre isso? Você gosta do que eles estão fazendo?’. Enquanto eu saía de campo, nosso capitão, Massimo Ambrosini, me perguntou: ‘Tem certeza do que está fazendo?’. Eu disse: ‘100%’.“

“Me permita um momento para explicar por que fiz aquilo. Algumas pessoas disseram que eu nunca o teria feito em um jogo de Champions League, no qual nosso time poderia perder pontos ou algo assim. Mas eu não consegui controlar. Eu tinha tanta raiva e dor crescendo dentro de mim e simplesmente explodi naquele dia. Eu sei que é difícil para as pessoas brancas entenderem, mas isso é porque elas nunca foram odiadas porque a cor de suas peles é diferente. Ainda assim, me permita tentar explicar”.

“Quando eu tinha nove anos, fui jogar um campeonato na Alemanha Ocidental. Eu cresci em um bairro de Berlim que era pobre e que também era a casa de pessoas de todos os cantos do mundo: Rússia, China, Egito, Turquia, todos os lugares. Quando brigávamos entre nós, era porque não nos gostávamos naquele momento, não por causa de discriminação. Eu nunca passei por racismo lá”.

“Mas no torneio na Alemanha Ocidental, eu ouvi pais gritando para mim: ‘Derrube o n***’. ‘Não deixe o n****’ jogar. Eu fiquei tão confuso. Eu havia ouvido aquela palavra (insulto racista infelizmente comum em língua inglesa) apenas em uma música ou um filme, mas eu sabia que era algo contra minha cor. Eu me senti tão sozinho. Eu senti como se estivesse em um lugar onde não deveria estar – mas era apenas a seis horas de carro de Berlim. Como podiam me amar em uma parte do país e me odiar em outra somente porque eu tenho uma cor diferente? Uma criança não consegue entender isso”.

“Eu nunca havia falado com ninguém sobre como lidar com uma situação daquelas. No ônibus de volta para Berlim, eu comecei a chorar. Meus companheiros choraram também. Ninguém estava entendendo o que havia acontecido. Eu nunca contei para minha mãe sobre aquilo. Eu apenas ignorei e continuei em frente. Eu pensei: ‘Vai passar’. Mas não passou. E todas as vezes que eu jogava na Alemanha Ocidental, ficava pior. ‘A cada gol que marcar, vamos dar uma banana para você’. ‘Vou colocá-lo em uma caixa e lhe enviar de volta ao seu país, n*** do caralho’.”

“Isso me machucou tanto. Quando eu tinha 14 anos, perguntei ao meu professor: ‘Você me vê diferente das outras crianças?’. Ele disse: ‘Não. Por quê?’. Eu disse: ‘Então por que eles me veem diferente no leste? Este é meu país. Sou alemão. Minha mãe é alemã. Por que eles querem me mandar para outro lugar?’. Ele explicou que há algumas pessoas no mundo que são estúpidas, mas eu comecei a chorar. Eu ainda não conseguia entender. E, rapidamente, a confusão virou suspeita. Você começa a pensar que as pessoas não gostam de você, embora você nem as conheça. Todos com raça mista na Alemanha têm isso. Por que você está olhando para mim? Não gosta de mim? Quer arranjar confusão? Vamos lá”.

“Eu fiquei agressivo, perturbado. Recebia cartões vermelhos o tempo inteiro. Fiquei de cabeça quente. Mas sabe qual foi a pior parte? Ninguém ficou ao meu lado. Eles sabiam o que estava acontecendo comigo. Eles ouviram o racismo – e simplesmente o aceitaram. Os pais ficaram quietos. O árbitro? Nada. O treinador? ‘Ignore’. Então eu ignorei. Eu internalizes minha raiva. Eu fiquei entorpecido em relação a ela. Mas, quando ouvi os barulhos de macaco em janeiro de 2013, toda a dor, toda a tristeza – tudo saiu de uma vez só. Eu surtei. Havia trabalhado minha vida toda para jogar por um dos maiores clubes do mundo e agora eu seria tratado como quando era criança? Não. Chega. Enfrentarei esses caras”.

“Quando sai de campo, muitas pessoas levantaram e me aplaudiram. E – e isso foi chave – meus companheiros saíram de campo comigo. Não apenas os negros. Todos. Eu ainda fico arrepiado com isso. Quando cheguei ao vestiário, eu tirei minhas roupas para mostrar a todos que não voltaria ao gramado. O árbitro nos perguntou: ‘Querem continuar jogando?’. E naquele momento, Ambrosini levantou e disse: ‘Se Prince não jogar, ninguém joga’.”

“Aquele episódio virou uma grande notícia ao redor do mundo. Em um dia, todo mundo sabia em Gana, na China, no Brasil. A imprensa estava em cima. Grandes jogadores como Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand estavam me apoiando e falando sobre o quão terríveis eram aqueles torcedores. Meu telefone foi inundado de ligações e mensagens. Do dia para a noite, eu virei um embaixador sa luta contra o racismo. Nada daquilo aconteceu porque um negro saiu de campo. Aconteceu porque pessoas brancas saíram de campo com ele. Aquela foi a mensagem que mudou o mundo. Por um breve momento, pelo menos”.

Após o episódio, Boateng acreditou que poderia ser um importante instrumento de mudança. Foi chamado por Joseph Blatter, então presidente da Fifa, para integrar uma força-tarefa contra o racismo. Deu uma sugestão: colocar câmeras e microfones nos estádios para captar melhor as ofensas preconceituosas. Conversou, trocou e-mails, mas nada mudou. Continuou sendo alvo de torcedores que tentavam irritá-lo. Quando acionava o árbitro, um anúncio era feito pelos alto-falantes, os xingamentos continuavam e nada era feito. A imprensa parou de falar sobre o assunto. E, um dia, três anos e meio depois do incidente contra o Pro Patria, ele recebeu um e-mail da Fifa: “A força-tarefa cumpriu sua missão. Fizemos nosso trabalho”.

“Liguei para meu empresário e disse que aquilo era uma piada. O que eles tinham conseguido? O que fizeram? Multaram times em 30 mil euros? E os torcedores puderam voltar ao estádio no dia seguinte? E seus filhos verão isso e tomarão como exemplo? O que é 30 mil euros para um clube? Nada. Essa é a punição? Essa é a consequência?”

“Eu honestamente acredito que a Fifa montou aquela força-tarefa apenas para parecer que estava fazendo alguma coisa. Não tenho medo de dizer isso. É um fato. Eu não sei por que não fazem mais. Teria que perguntar para eles. Posso apenas presumir que é mais importante ter o assistente de vídeo dizendo se a bola cruzou a linha do que se livrar do racismo. Eles têm tanto dinheiro, investem tanto em câmeras, tecnologia da linha do gol, tudo. Mas enfrentar o racismo? Nah. Isso não leva mais pessoas aos estádios. Não dá dinheiro. É isso que eu penso”.

“E se lembre: a Fifa montou a força-tarefa em 2013. Faz sete anos. E agora ainda estamos falando exatamente sobre o mesmo problema. Nada mudou. Nada. Se alguma coisa, o racismo ficou pior”.

As manifestações do Black Lives Matter surgiram nos EUA, mas Boateng não acha que a situação na Europa é muito melhor. Relata aqueles olhares questionadores quando ele, um homem negro cheio de tatuagens, está dirigindo um carro caro – “só poder ser um traficante ou um rapper” – e lembrou um comentário do presidente do Schalke, Clemens Tönnies, clube que defendeu, que dizia que, em vez de aumentar os impostos para proteger o meio-ambiente, o governo alemão deveria colocar usinas de energia na África, “para que os africanos parem de derrubar árvores e fazer filhos quando fica escuro”.

“Fiquei chocado. Esse cara tinha jogadores negros no time dele. Eu achei que deveriam expulsá-lo. A imprensa disse que era errado. O clube disse que era contra o racismo. Mas sabe o que fizeram? Suspenderam-no por três meses. Três meses. Longas e gostosas férias. E depois ele voltou ao trabalho. Esse é o sistema. E é tão profundo que esse tipo de coisa é normalizada. Mas a questão é que somos muito mais pessoas do aquelas que controlam o sistema. Temos uma voz mais alta. Eles não podem vencer contra o mundo inteiro. É impossível”.

“Desde que fiquemos juntos. Desde que falemos. Desde que decidamos agir. Outro dia, eu vi um vídeo no Instagram no qual um professor de universidade perguntava a uma sala cheia de gente: ‘Levante se você gostaria de ser tratado como uma pessoa negra’. Ninguém levantou. Isso, resumindo, é a injustiça racial. São pessoas que sabem o que está acontecendo conosco, mas que não fazem nada. Sempre que ouço gritos racistas, há pessoas que, embora estejam próximas de mim, agem como se nada estivesse acontecendo. Como se dissessem ‘não é tão ruim’. Caso você não tenha visto as notícias recentemente: é tão ruim, sim”.

“Escrevo este artigo por muitas razões. Estou bravo. Eu chorei quando vi o vídeo de George Floyd. Eu o vi cinco vezes para entender totalmente o que havia acontecido. Se você ouve sua voz, ‘não posso respirar, não posso respirar’ e ‘por favor, mamãe’… é tão doloso. Com quem você fala quando está perto de morrer? Deus, porque você espera vê-lo para pedir perdão. E ainda me deixa emocionado… porque você se vê nele, sabe? E eu vejo meu filho e penso: ‘Como explico isso para ele? Como explico que um homem morreu por causa da cor da sua pele?’.”

“Eu vi a filha de Floyd dizer que seu pai havia mudado o mundo. Amo essa mensagem. Eu acredito que ela possa estar certa. Esses protestos podem ser um ponto de inflexão. Mais pessoas estão começando a entender do que os negros estão falando. Eles entendem que não estamos aqui para fazer guerra. Não. Queremos apenas o que é prometido para todos os outros”.

“Há apenas uma coisa que me preocupa. Neste momento, parece que entendemos. Parece que estamos aprendendo, mas eu me preocupo que, em algumas semanas, o mundo esquecerá. Eu me preocupo que, em julho ou agosto, os protestos vão diminuir, a imprensa parará de falar sobre isso e o assunto desaparecerá. Como aconteceu em 2013. É por isso que escrevo este artigo. Temos que garantir que isso não aconteça. E, para fazer isso, precisamos do apoio das pessoas brancas”.

“Neste momento, o movimento Black Lives Matter tem muito poder, mas não podemos fazer isso sozinhos. São os brancos que estão controlando o mundo. São os brancos que podem desfazer um racismo sistêmico. Mas se a mão branca continuar nos empurrando para o chão, não temos chance. Então nos diga que estão conosco. Diga-nos que vocês sentem por George Floyd. Diga-nos que vocês sentem pela comunidade negra. Porque é assim que saberemos que o mundo realmente está ao nosso lado. Que a maioria das pessoas quer esta mudança. Isso é chave”.

Boateng disse que fará sua parte e continuará fazendo, mesmo que seu clube não goste e o demita. Gastará dinheiro, pensou em dar a ideia de um feriado em homenagem a George Floyd, está compondo uma música. Mas precisa de ajuda. “Se tiver que gastar meu dinheiro, gastarei. Não desistirei. Isso é certeza. Mas preciso de ajuda e apoio. Sou um jogador de futebol com ideias, erguendo a voz por uma boa causa. Eu sei que haverá outro protesto em Berlim no próximo mês e sei que muitos países estão mantendo a pressão com seus protestos. Isso me dá esperança. Pelo menos, sabemos que isso não durará apenas mais uma semana. Precisa ser mais do que isso. Muito mais. E para que isso aconteça, precisamos de todos”.

“Precisamos especialmente das seguintes pessoas:”

Jogadores

Há jogadores que estão fazendo isso adequadamente: Colin Kaepernick, LeBron James e Megan Rapinoe. Esses são alguns dos grandes – há muitos outros fazendo um trabalho maravilhoso. Mas jogadores de futebol, clubes e federações? Na Europa? Além de Marcus Rashford, que mostrou ao mundo o que é possível quando usamos nossas plataformas, eu não vejo muito sendo feito”.

“Quando a Austrália queimou no começo do ano, todos estavam falando sobre isso e postando sobre isso e doando uma quantidade maluca de dinheiro. Foi lindo de se ver. E agora? Eu não vejo nada. Não vejo entrevistas, jogadores falando. Onde vocês estão? Onde estão os maiores jogadores do mundo?”

“Há muitos jogadores que têm medo ou que não têm personalidade para falar. E eu sinto a responsabilidade de pedir o apoio deles para se juntar a mim neste movimento. Eu alcanço apenas oito milhões de pessoas nas redes sociais, mas usarei cada uma delas todos os dias. Vocês têm dezenas de milhões. Este é o momento de dar a cara à tapa – e não em um outdoor para vender perfume ou uma propaganda de chuteira – mas para criar consciência e mudança de verdade para o movimento Black Lives Matter”.

“Precisamos que todos os jogadores ouçam, aprendam, ajam. Blackout Tuesday? É muito fácil. Uma camisa que diz ‘SEM RACISMO’? Ok. Mas façam mais. Aprendam a história dos negros e os sofrimentos que seus ídolos negros sofreram. Façam um vídeo. Digam ‘eu apoio cada negro do mundo. Vocês são meus irmãos e irmãs. Amo todos vocês’. Doe para programas lutando contra o racismo sistêmico e abuso de poder. Diga a suas marcas e patrocinadores que querem fazer mais do que publicar slogans. E se eles não quiserem? Adeus. É isso que eu quero. Vocês são os maiores jogadores do mundo. Se não têm a chance, quem terá? Se não têm o alcance, quem terá?”.

Imprensa

Jornalistas e editores: não deixe o momento passar. Não esqueça depois de uma semana. Eu entendo que as pessoas querem falar sobre os arremessos de LeBron ou do jogo em que Michael Jordan estava gripado. Eu entendo. Mas há coisas mais importantes acontecendo agora e vocês têm a responsabilidade de cobri-las.

“Falem sobre racismo. Mantenham as histórias nas primeiras páginas e no topo de seus sites. Deixe que as pessoas leiam e entendam. E continuem, este ano, no próximo, no outro. Precisamos disso. Entrevistem pessoas. Há tantos como eu que têm histórias e sentimentos sobre racismo. Talvez eles possam dar novas perspectivas. Talvez suas vozes possam dar aos que estão em silêncio coragem para erguer a voz”.

“Brancos

Quero dizer isso novamente: irmãos e irmãs brancos, vocês são os que podem mudar este mundo. Precisamos de vocês agora. Especialmente agora. Vocês precisam nos ajudar. Porque vocês não querem ser tratados como nós somos. Algumas pessoas dizem: ‘sim, mas todas as vidas importam’. Claro que todas as vidas importam. Mas a comunidade negra está pegando fogo. Se minha casa está pegando fogo, e sua casa não está pegando fogo, qual a casa mais importante neste momento? Certo. Então me ajude a apagar o fogo, e depois nós dois podemos viver em bonitas casas”.

“Todos podem fazer alguma coisa, mesmo que achem que não podem. Um amigo branco me disse que não queria parecer que estava pulando no trem em andamento. E eu disse: ‘Mas esse é o trem no qual você quer pular. Esse é o trem que vai mudar o mundo!’. Então eu peço: pule no trem. Algumas pessoas sempre odiarão. Algumas pessoas sempre vão criticá-lo. Mas não tenha medo. Não fique quieto. Ficaremos com vocês. Apenas queremos saber se vocês ficarão conosco”.

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