A crise diplomática no Oriente Médio começa a levantar preocupações sobre a Copa do Mundo de 2022, no Catar. Quatro países do golfo pérsico fazem um bloqueio aos catarianos: Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita, o líder do movimento. O Egito também aderiu, além do apoio declarado dos Estados Unidos. A principal acusação ao Catar é de financiar o terrorismo e grupos extremistas, incluindo no Irã. Os catarianos são acusados de proximidade também com os turcos, que possuem atuação importante no Oriente Médio. Basicamente, os países do bloqueio fecharam suas fronteiras, impedindo o tráfego terrestre e fechando seus espaços aéreo e marítimo – incluindo portos – para o Catar, um país que depende largamente de importações. As consequências são muitas e começam a afetar o futebol – e, por isso, começam também a causar receito sobre a Copa de 2022.

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Causas

Mas que motivo leva esses quatros países a fazerem um bloqueio ao Catar? Donald Trump, presidente americano, explicou uma parte do motivo. Ele acusou o Catar de financiar o terrorismo “no mais alto nível” em uma coletiva na Casa Branca. Trump se encontrou com líderes árabes na Arábia Saudita no mês passado que, segundo o presidente americano, insistiram com ele a confrontar o Catar sobre o seu comportamento. A Arábia Saudita é um aliado histórico dos Estados Unidos, assim como o Catar, que inclusive serve como base militar americana no Oriente Médio.

O problema disso tudo é que tudo pode ter surgido de notícias falsas, plantada por hackers no dia 23 de maio, segundo a rede de TV americana CBS informou. Segundo a CNN, os investigadores americanos acreditam que hackers russos plantaram a notícia na agência estatal do Catar que ajudou a alimentar a crise e criar cisão entre americanos e seus aliados. Os russos, claro, negaram o fato e acusam a CNN de inventar notícias mais uma vez – algo que o presidente Trump também costuma alegar.

O FBI enviou uma equipe de investigação a Doha para ajudar o governo catariano a investigar o suposto incidente hacker, segundo confirmado pelos dois países. O relato falso colocaria um líder do Catar ser amistoso ao Irã e Israel e questionou se o presidente Trump duraria no cargo. Com isso, os países da região, insatisfeitos com a política externa do Catar, tomaram uma atitude contra o país. E após o anúncio do bloqueio, o presidente americano comemorou o bloqueio.

“Tão bom ver a visita à Arábia Saudita com o rei e 50 países já valendo a pena”, disse Trump no Twitter. “Eles disseram que tomariam uma linha dura no financiamento ao extremismo e todas as referências estavam apontando para o Catar. Talvez este seja o começo do fim do horror do terrorismo”, afirmou o presidente americano. Uma frase bem pretensiosa do político americano achando que algo simples assim começa a ser a solução para um problema tão complexo quanto o terrorismo.

Horas depois das publicações de Trump no Twitter, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou comunicado afirmando que o Catar progrediu no combate ao financiamento de terrorismo, mas que havia mais trabalho a ser feito. O famoso bate e assopra que o órgão do país precisava fazer, afinal, os catarianos são aliados e os americanos não podem perdê-los. O Catar sedia uma das maiores bases militares do Oriente Médio.

Autoridades dos Estados Unidos e da Europa reclamam há anos do financiamento de terroristas feitos por sauditas e outros países do Golfo Pérsico. A Arábia Saudita, aliás, é acusada pelo Irã de financiar o Estado Islâmico no ataque ao seu parlamento no dia 7 de junho, que matou 13 pessoas.

No ataque às Torres Gêmeas de Nova York do dia 11 de setembro de 2001, 15 dos presos eram cidadãos sauditas e durante anos o país foi acusado de apoio, direta ou indiretamente, a al-Qaeda. Em 2016, durante uma visita à Arábia Saudita, membros da administração do então presidente Barack Obama levantaram questões sobre a Arábia Saudita financiar construção de mesquitas na Europa e África que estariam ajudando a espalhar uma vertente ultraconservadora do Islã.

A crise surgiu no momento que as acusações de financiar terrorismo aumentam sobre o pequeno país. Diplomatas do Ocidente acusam o governo catariano de permitir, e até mesmo de encorajar o financiamento de alguns extremistas sunitas, como o braço da al Qaeda na Síria. O Catar nega veementemente as acusações e se dizem perseguidos pelos vizinhos.

Consequências

O bloqueio tem causado alguns problemas ao Catar. Produtos que chegavam via terrestre dos vizinhos agora faltam em supermercados do país. Houve um temor entre os moradores do país que fosse faltar água e comida. Os mesmos produtos passaram a chegar por via aérea, vindos da Turquia, aliado catariano. O Irã, outro aliado, também mandou quatro aviões de comida no domingo e planeja mandar 100 toneladas de frutas de vegetais todos os dias, segundo autoridades de Teerã informaram.

Vale informar que o Catar, um país rico por suas reservas de petróleo e gás natural, é altamente dependente de importação de comida, especialmente pela fronteira terrestre com a Arábia Saudita. A fronteira é também bastante usada para transporte de materiais de construção. Segundo o jornal Guardian, cerca de 40% da comida consumida no país chegava via terrestre, passando pela fronteira na Arábia Saudita.

A Qatar Airways, uma das principais empresas do país e que se tornou patrocinadora da Copa em maio, também foi afetada. Doha é um grande ponto de parada de voos no Oriente Médio, sendo base para troca de voos de diversos países – inclusive da Europa – e o bloqueio faz com que algumas rotas tenham sido alteradas, obrigando o uso de um corredor estreito via Irã para chegar até a capital catariana.

Com o bloqueio do espaço aéreo saudita e egípcio, a empresa mudou a rota de voos e, em termos comerciais, também perdeu. O Al-Ahli, da Arábia Saudita, era patrocinado pela Qatar Airways, mas decidiu cancelar o contrato por causa da crise diplomática. Não cabia um time saudita patrocinado por uma grande empresa catariana. E espera-se que mais dificuldades apareçam com as restrições impostas.

Outro problema é que as casas de câmbio passaram a ter falta de dólares para estrangeiros mandarem dinheiro para seus países. Cerca de 90% da população do Catar é estrangeira. Algo que afeta diretamente a Copa do Mundo é o fornecimento de materiais de construção. O país está construindo todos os 12 estádios que serão usados, além de diversas obras estruturais, com a criação de sistema de transporte que não existe no país, para ficar em um exemplo.

Há consequências também fora do Catar. A beIN Sports, emissora que têm direitos de diversas competições da Fifa como o Mundial sub-20 e a própria Copa do Mundo no Oriente Médio, foi bloqueada nos Emirados Árabes Unidos. O canal é o principal responsável por transmitir eventos da Fifa em países do Oriente Médio e Norte da África. A Fifa afirmou estar em contato com a emissora para monitorar a situação.

Um jogo da Liga dos Campeões da Ásia entre o iraniano Persepolis e o saudita Al Ahli está suspenso. Como os dois países não possuem relações no momento, o jogo seria disputado em país neutro e estava programado para Doha. Só que agora, Doha não é mais um país neutro. E tudo isso tende a aumentar se o bloqueio continuar.

Histórico

A Copa do Mundo de 2022 tornou-se polêmica desde dezembro de 2010, quando a Fifa anunciou as sedes de 2018 e 2022. Rússia e Catar, respectivamente, foram vencedores em uma disputa que tinha Inglaterra, Portugal/Espanha, Coreia do Sul e Austrália, para ficar só nos principais.

Diversas acusações de compra de votos e trocas de favores surgiram e a grande maioria dos dirigentes do então Comitê Executivo da Fifa acabaram caindo por denúncias de corrupção, seja na justiça suíça, seja no Fifagate, em 2015. Mais do que isso, foram muitas acusações de trabalho escravo no país que levantaram muitas suspeitas e suscitaram denúncias de organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional.

“Uma coisa é certa, a comunidade do futebol no mundo deve concordar que grandes torneios não podem ser disputados em países que ativamente apoiam o terror”, afirmou Reinhard Grindel, presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), que também é membro do Conselho da Fifa.

O Catar enfrenta mais um problema pensando na Copa de 2022. Mais um, entre tantos que parecem atordoar o país. Desta vez, porém, o futebol parece o menor dos problemas da política do país e da região, muito mais complexa do que as publicações de Trump no Twitter fazem parecer.


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