Daley Blind representou o melhor que se viu na Copa do Mundo de 2014. O holandês teve momentos brilhantes na competição por sua capacidade técnica e por sua leitura de jogo acima da média. Logicamente, tornava-se um nome quente no mercado de transferências, e assim aconteceu, quando o Manchester United desembolsou €17 milhões pelo defensor. Quatro anos depois, a carreira do talento se transformou. Mas não da maneira como se esperava. Não engrenou nos Red Devils, perdeu espaço com José Mourinho, sofreu com as lesões, sequer esteve no Mundial com a Oranje. Assim, torna-se mais emblemático que, logo depois de outra Copa, o camisa 17 acerte o seu retorno à Johan Cruyff Arena, assinando com os Godenzonen.

O Ajax até brincou com a recontratação de Blind. Chamou de “It’s coming home”, usando uma versão da música que virou hit dos ingleses na Copa do Mundo. O defensor assinou contrato por quatro anos, em transferência que custou €16 milhões aos cofres do clube holandês – um recorde à instituição. Porém, considerando o que receberam há quatro anos e a inflação que o mercado sofreu desde então, acaba sendo uma pechincha. Ganham um nome de peso para auxiliar na reconstrução do clube e que pode render bastante, aos 28 anos.

“Estou feliz em voltar. O Ajax é minha casa, Amsterdã é minha casa, eu me sinto bem aqui. Quando comecei a pensar seriamente sobre o retorno, fiz uma escolha com meu coração. Você precisa olhar objetivamente durante o período de transferências, mas era uma ótima opção para mim. Eu queria voltar. Acho que é o momento certo para o retorno e me sinto bem, forte. Estou pronto”, declarou, em sua apresentação.

A Blind, o retorno ao Ajax parece um passo atrás. O jogador que se mostrava acima da média em aspectos técnicos e táticos pareceu ter bola para se firmar em uma grande liga. Mas não virou o protagonista que se esperava no Manchester United. Até foi importante nos tempos de Louis van Gaal, mas sem apresentar o brilhantismo visto no Mundial do Brasil. Já nos dois últimos anos, sob as ordens de José Mourinho, o defensor teve dificuldades para se encaixar às exigências físicas feitas pelo treinador. Jogou em diferentes posições e teve sequência na primeira temporada com o português, mas no último ano esquentou o banco e foi atrapalhado pelas lesões. Resultado: apenas sete aparições pela Premier League e a saída iminente.

Diante da notícia, Mourinho exaltou Blind como “um dos jogadores mais profissionais com quem trabalhei ao longo da minha carreira”. O defensor, por sua vez, declarou o seu carinho ao United: “Jogar pelo maior clube do mundo, com toda a sua história, significa muito a mim. Tive quatro ótimos anos, com quatro títulos conquistados. Quero agradecer a todos pelo amor e pelo apoio que recebi. Nunca me esquecerei dos momentos especiais, sentirei falta do Teatro dos Sonhos. Mas agora é hora de voltar para casa”.

Blind teria mercado em um clube médio da Inglaterra ou de outras grandes ligas. Resolveu defender a camisa gigante que vestir no início da carreira. Antes de seguir a Manchester, o defensor havia atuado em alto nível durante duas temporadas com o Ajax, ajudando o clube a chegar ao tetracampeonato holandês. Agora, retorna como a referência e o exemplo aos Godenzonen, depois de uma temporada muito aquém das expectativas na Eredivisie. Considerando a presença de Nicolás Tagliafico no elenco, é bem capaz que o camisa 17 atue como vértice no meio-campo, usando sua visão de jogo e a qualidade nos passes para coordenar a equipe, além de oferecer proteção à defesa. Vem para ser um dos donos do time.

O Ajax, aliás, foge de sua política corriqueira no mercado de transferências. Entre as disputas de bastidores no clube, Dennis Bergkamp deixou seu posto na comissão técnica por acreditar que os Godenzonen deveriam seguir confiando nas categorias de base. Fortalecido, o diretor de futebol Marc Overmars resolveu investir alto em jogadores tarimbados, projetando uma guinada. Blind possui sua relação próxima com o clube no qual o pai também foi ídolo, mas a diretoria também apostou em um novo rosto: Dusan Tadic, que vem do Southampton por €11,4 milhões. Sem manter o nível na Premier League durante a última temporada, o ponta de 29 anos chega por um custo relativamente baixo. Volta à liga onde já brilhou por Groningen e Twente. Além dos dois medalhões, os Ajacieden também buscaram o ponta Hassane Bandé, revelação do Mechelen, e o meia Zakaria Labyad, que estava no Utrecht.

A ver como Blind aproveitará o novo momento. Se recuperar o seu melhor, pode se tornar um ídolo, confirmando-se como um dos maiores do clube neste século. Mas, levando em conta a sua idade, pode tentar retornar a um centro maior se fizer sucesso. Fato é que os dois lados ganham nesta história. O defensor, por desfrutar de um ambiente favorável para desempenhar o seu melhor, e o clube, por agregar um reforço de peso para retomar o topo da Eredivisie. É um grande negócio.