Joseph Blatter se elegeu para o seu quinto mandato consecutivo à frente da Fifa, mas sabe que o custo foi alto. O suíço não conseguiu bater Ali bin al-Hussein, o único concorrente, no primeiro turno. Teve 133 dos 140 votos necessários para ter a reeleição direta. A disputa foi para o segundo turno, mas o jordaniano (que contava com 105 votos e teve apenas 73) desistiu da disputa antes da segunda fase. Alívio para a turma do atual presidente da entidade, mas só o fato de sua reeleição ter sido ameaçada já dá pistas do que deve vir pela frente. E não são boas notícias.

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Em 1998, na sua vitória mais difícil, Blatter venceu Lennart Johansson na eleição que definiu quem sucederia João Havelange. O sueco era favorito ao cargo depois de ocupar por oito anos a presidência da Uefa. Acabou derrotado pelo secretário-geral da Fifa e aprendiz de Havelange, com quem trabalhou desde 1975 em diversos postos que ocupou dentro da entidade. Desde então, nunca houve uma oposição com força real para tirá-lo do comando do futebol.

Um dos poucos nomes que mostraram força de articulação para tomar o poder foi Michel Platini. O francês sucedeu Johansson na Uefa e mostrou muita habilidade para mostrar serviço com decisões polêmicas e marketeiras. No entanto, o ex-jogador mudava sempre de lado, entre a pretensão de tirar Blatter da Fifa ou a possibilidade de ser escolhido pelo suíço como seu herdeiro político. Nesse jogo de vaivém, acabou se enlameando. Platini se envolveu em denúncias pesadas que pesariam contra ele e o fariam perder o crédito que carregava como craque que foi em campo. Neste trecho da matéria que escrevemos aqui na Trivela no dia 18 de julho de 2013, as razões pelas quais Platini não só votou, mas passou a apoiar o Catar:

Segundo a revista France Football, Platini participou de um “jantar secreto” nove dias antes da votação. No jantar estavam o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, o príncipe do Catar e um representante do Paris Saint-Germain. Mas fica pior.

Esse encontro foi em 2010 quando, é bom lembrar, o PSG ainda não estava vinculado aos catarianos. No dia 2 de dezembro de 2010, o Catar foi escolhido como sede da Copa de 2022. Não há nenhuma prova de corrupção de Platini, é bom dizer. As ligações entre os personagens, porém, são suspeitas. Depois do jantar, em O PSG, time do qual Sarkozy é torcedor, foi vendido para a Qatar Investment Authority em julho de 2011, que é comandada pelo príncipe do Catar – sim, esse mesmo que estava no jantar. Também depois disso, o filho de Michel Platini, Laurent, que é advogado, foi contratado pela Qatar Investment Authority.

Não surpreende, então, que Platini não tenha sido o opositor a Blatter na eleição de 2011. O adversário seria Mohammed bin Hammam, presidente da confederação asiática e figura importante da candidatura do Catar à Copa do Mundo de 2022. No entanto, o catariano foi acusado de comprar votos – justamente aquilo que os opositores apontavam contra Blatter em eleições anteriores – e desistiu da disputa. Em seguida, foi banido do futebol.

Sabendo que seria um nome forte para a eleição de 2015, Platini apoiou publicamente Blatter na eleição de 2011, que sequer teve um concorrente após o escândalo que excluiu Bin Hammam da disputa. Com isso, recebeu a garantia que o suíço se aposentaria em 2015, abrindo espaço para o francês ser o nome de consenso, com o apoio (e a máquina eleitoral) de Blatter. Só que o presidente da Fifa voltou atrás e decidiu concorrer novamente. O mandachuva da Uefa foi se tornando opositor de Blatter aos poucos, ainda mais com as constantes denúncias contra a entidade por causa da Copa do Mundo do Catar. Já como oposição, Platini discursou pedindo a renúncia do “amigo” Blatter após as prisões feitas pelo FBI. O suíço descartou a desistência ou a renúncia, e viu como resposta o francês anunciar que a Europa votaria em bloco em Al-Hussein.

A declaração de Platini foi apenas um sinal de como a candidatura de Al-Hussein ganhou força com a operação do FBI que prendeu dirigentes da Fifa. O apoio da Uefa deu mais peso à candidatura, ainda mais com a possibilidade de a América do Sul seguir o mesmo caminho, algo impensável há alguns meses. A máquina eleitoral de Blatter, que herdou todo o capital político e a estratégia de João Havelange parecia invencível. Horas antes da eleição, ela parecia ter uma rachadura, com consequências que o presidente terá que lidar nos próximos quatro anos.

Blatter, abrindo o congresso nesta sexta-feira, dia da eleição, escolheu alfinetar os inimigos durante uma de suas falas no Congresso. “Se os países nos envelopes naquele 2 de dezembro de 2010, quando escolhemos as sedes de duas Copas do Mundo, fossem outros, não estaríamos nesta confusão”, disse o suíço, referindo-se à Inglaterra e Estados Unidos, concorrentes a sede das Copas de 2018, que foi para a Rússia, e 2022, vencida pelo Catar.

A imprensa inglesa e americana fizeram as maiores denúncias contra o dirigente. As federações dos dois países já tinham anunciado apoio ao opositor do atual presidente da Fifa. O primeiro ministro britânico, David Cameron, chegou a pedir a renúncia de Blatter por causa dos escândalos. E, por fim, os Estados Unidos foram os responsáveis pelo processo que prendeu nove dirigentes da Fifa. A operação do FBI foi permitida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em um processo que incluía lavagem de dinheiro e conspiração criminosa.

Greg Dyke, presidente da federação inglesa e um dos mais ferrenhos opositores de Blatter, deu declarações fortes ao chegar no Congresso da Fifa nesta sexta. Pareceu saber que a chance de Blatter vencer era grande e projetou o cenário, caso o suíço continuasse no poder. “Eu espero que ele não vença, mas se ele vencer, eu acho que os eventos desta semana o tornaram uma figura diminuída e eu não o vejo durando mais que um ano ou dois”, declarou o dirigente inglês. “O comunicado do senhor Blatter ontem, no qual ele basicamente diz ‘Deixe comigo, eu irei limpar tudo’. Ninguém irá acreditar nisso. E eu acho que é ameaçador para ele quando a procuradora-geral dos Estados Unidos diz que é só o começo, não o fim”, continuou.

Dike avalia que Blatter perderia força, mesmo se eleito, porque as denúncias foram fortes demais. A investigação americana e a operação do FBI deixaram marcas que, para o inglês, fariam o presidente sangrar demais para sobreviver. “Eu acho que as provas que os americanos produziram são devastadoras e eu não acho que Blatter pode sobreviver a isso. Ele pode sobreviver este fim de semana, mas eu não acho que ele sobrevive no longo prazo”, disse.

A ameaça é de um boicote da Uefa à Copa do Mundo de 2018, na Rússia (compreensivelmente, um dos poucos europeus a apoiarem Blatter). “Não haveria sentido a Inglaterra boicotar se todos os demais jogarem. Não teria nenhum impacto. Seria apenas esquecido. Mas se pudermos fazer a Uefa boicotar, isso teria um impacto. Se Blatter for reeleito, então isso deveria ser discutido”, avalia Dike.

“Durante o seu período no poder, o nível de corrupção tem sido inaceitável. É assustador. O que não tem sentido é um ou dois países dizerem ‘Nós não jogaremos’ porque eles irão continuar com o torneio sem eles e isso é muito injusto com os torcedores. Mas se a Uefa como um grupo diz ‘Escute, a menos que as coisas sejam resolvidas, nós não jogaremos a Copa do Mundo’, então eu acho que nós nos uniríamos a eles”, disse ainda o dirigente inglês.

Depois da eleição, Dike falou à BBC e continuou com palavras duras contra Blatter. “Isto não acabou. Um terço dos delegados disseram que não aguentam mais o fracasso dele em lidar com corrupção”, disse, se referindo aos 73 votos dado ao príncipe Ali. “Ele não é o homem para supervisionar a mudança. É preciso uma mudança de liderança e uma mudança na raiz e nos ramos”, continuou. “Não acontecerá agora porque Sepp Blatter foi reeleito, portanto temos que ver o que mais podemos fazer”, disse. “Eu ficaria surpreso se Blatter ainda estiver no cargo em dois anos”.

Michel Platini também mostrou a sua insatisfação e a sua clara posição de opositor nos próximos quatro anos. “Eu estou orgulhoso que a Uefa defendeu e apoiou um movimento por mudança na Fifa”, disse. “Mudança, na minha opinião, é crucial nesta organização para resgatar a sua credibilidade”, analisou. “Eu parabenizo o meu amigo príncipe Ali por sua campanha admirável e eu aproveito a oportunidade para agradecer todas as federações nacionais que o apoiaram”.

A lista de adversários do suíço continua. O presidente da federação holandesa de futebol, Michal van Praag, chegou a se candidatar ao cargo, mas acabou desistindo da disputa para apoiar o príncipe Ali. “Nós podemos ter perdido a batalha, mas o processo está longe de terminar. Eu continuarei lutando por uma Fifa melhor.”

Os Estados Unidos estão longe de ter o peso de grandes países do futebol no mundo, mas sua importância política é inegável, ainda mais com todo o papel do governo americano e do FBI na operação contra a Fifa. O presidente da US Soccer, a federação americana, lamentou a eleição de Blatter. “Apesar de estarmos decepcionados com o resultado da eleição, nós continuaremos a pressionar por uma mudança significativa dentro da Fifa. Nosso objetivo é que a governança da Fifa seja responsável, que inspire confiança, transparente e focado apenas nos melhores interesses do esporte. Isso é o que a Fifa precisa e merece e o que as pessoas que amam o jogo ao redor do mundo exigem”, declarou Sunil Gulati.

A tática de Blatter, velha como a política, voltou a funcionar: prometeu apoio e recompensa a quem o apoiasse e vingança contra aqueles que fossem contra ele. Até por isso, a América do Sul, que pode ter se dividido e votado, em parte, no príncipe Ali, pode receber a sua vingança já neste sábado. O Comitê Executivo irá discutir a perda da meia vaga da América do Sul para a Copa do Mundo – o continente tem quatro vagas diretas e uma na repescagem. Blatter pode premiar a Ásia, que prometeu a ele um grande apoio, mesmo com o opositor sendo justamente da região.

A questão é que Blatter sabe que a tempestade só começou. Terá que conviver com uma Europa insatisfeita e influente na política dentro do futebol, afinal, é onde ficam os campeonatos mais ricos e de mais prestígio. Se tirar a vaga, a Conmebol, que já indicou ter ido para a oposição antes da votação, se tornaria definitivamente adversária de Blatter. Os Estados Unidos também estão contra o dirigente. O suíço teria que depositar todo o capital político nos países menores da Ásia, Concacaf e em toda África. Um risco grande para quem teve 35% de votos contrários, que rapidamente podem se tornar 50%. E isto não é o pior.

Na coletiva de imprensa que anunciou a operação na Fifa, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, disse que esta primeira ação foi só o começo. Certamente surgirão mais denúncias e mais indiciados no processo. Isso sem falar na investigação da Justiça suíça, que analisa o processo eleitoral que escolheu as sedes das Copas de 2018 e 2022. Sabemos que tem caroço nesse angu e a tendência é que surjam ainda mais problemas. Pior do que ter a oposição das duas confederações de futebol mais importantes do mundo, Conmebol e Uefa, e de um país importante politicamente como os Estados Unidos, é ter como adversários a justiça americana e suíça ao mesmo tempo. É ter o FBI batendo à porta. É ter um castelo de cartas desmoronando a partir do processo de escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022. E este é um cenário não só possível. Já passamos desta fase. Agora, é um cenário provável.

Blatter sabe que ele não está a salvo. E os opositores também sabem. Serão longos quatro anos, Sepp. Se é que serão quatro mesmo.

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