O ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, segue na ativa quando o assunto é falar sobre futebol. Em uma entrevista dada à uma rádio sul-africana, o suíço, de 84 anos, disse que acha difícil que o principal torneio de futebol do planeta, a Copa do Mundo, volte ao continente africano por um bom tempo. Mais do que isso, ele puxou os méritos de ter levado a competição à África e ainda acha que foi perseguido na Fifa por ter feito isso, quando perguntado. Convenientemente deixando de lado todos os escândalos que o acompanharam de 1988 a 2015, quando deixou a presidência da entidade.

A Copa do Mundo de 2010 foi a primeira realizada na África. O país-sede foi a África do Sul e foi parte de uma política que durou pouco na Fifa, de rodízio de continentes. Só duas sedes de Copa foram escolhidas assim: 2010, na África do Sul, e 2014, no Brasil. Em ambas, só países dos continentes dessas sedes podiam concorrer. Já para 2018 isso mudou. Agora, há um rodízio apenas para não repetir o mesmo continente em duas edições seguidas.

Quando perguntado se acha que foi perseguido na Fifa por causa do que fez pela África, o dirigente não perdeu a chance de usar isso como desculpa. “Sim, definitivamente”, afirmou Blatter, em entrevista ao programa Marawa Sports Worldwide, na rádio Metro FM, da África do Sul. “Mas onde há vontade, há um caminho, e por isso trouxemos essa Copa do Mundo para a África para a África do Sul. A primeira [Copa na África] vez e eu acho que por enquanto, a única e não consigo ver se haverá uma segunda. Eu fico feliz que ela tenha acontecido”.

É importante aqui entender por que, afinal, Blatter caiu. O seu reinado acabou em 2015, quando o escândalo Fifagate derrubou diversos dirigentes, incluindo o próprio suíço, que tinha sido reeleito justamente no congresso em que vários dirigentes saíram presos. Contamos em junho de 2015, quando ele anunciou que iria renunciar, o que o levou a cair. Também reforçamos a nossa posição em relação à Fifa de Blatter, e como as coisas mudaram para o ex-dirigente, que se viu sem saída, a não ser a renúncia. Em outubro de 2015, falamos sobre a suspensão de Blatter no podcast #31, na Central 3.

O dirigente suíço ainda falou que “não há confiança” na África e seria “difícil para a África convencer a Fifa” para que o torneio voltar ao continente. Marrocos é um dos casos de maior insistência para sediar uma Copa. São cinco candidaturas que não tiveram sucesso até aqui.

O país do norte da África tentou sediar a Copa do Mundo para as edições de 1994, quando perdeu para os Estados Unidos; para 1998, quando perdeu para a França; em 2010, quando perdeu para a África do Sul e só países africanos concorriam, pelo então existente rodízio de continentes; e para 2026, a mais recente, quando acabou derrotado pela candidatura trípice de Estados Unidos, Canadá e México. Os marroquinos já expressaram vontade de concorrer novamente para sediarem a Copa de 2030.

Quando perguntado sobre quando a Copa pode voltar então, na sua visão, Blatter tentou usar uma frase forte. “Ao menos não na minha vida [o ex-presidente da Fifa tem 84 anos], porque todo mundo quer organizar uma Copa do Mundo”, afirmou Blatter. “E agora 2026 já foi dado aos Estados Unidos. Eles deveriam ter levado em 2022, mas houve uma interferência política pela França e a Copa do Mundo foi para o Catar”.

Blatter está se referindo ao lobby feito pelo então presidente da Uefa, Michel Platini, e o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy. O suíço falou isso mais de uma vez: em outubro de 2015 e depois em fevereiro de 2016. Segundo o ex-presidente da Fifa, o dirigente e o político francês foram convencidos a votar no Catar depois do encontro que acabaria resultado na compra do PSG, feita pelo Catar. Blatter ainda disse que além do presidente da França, o da Alemanha também ajudou a levar a Copa ao país do Oriente Médio.

O ex-presidente da Fifa diz que não houve compra de votos, embora isso soe mais como uma autodefesa do que um fato, até porque já surgiram evidências que houve, sim, compra de votos. Em 2017, um delator do Fifagate confirmou que houve pagamento de suborno a Julio Grondona, então presidente da AFA, para votar no Catar.

Em março de 2019, uma denúncia publicada pelo Sunday Times indicava também compra de votos. Um documento da própria Fifa também confirmou que Ricardo Teixeira, Nicolás Leoz e Julio Grondona receberam propina para votar no Catar. A Justiça dos Estados Unidos também confirmou que tanto Rússia quanto o Catar subornaram cartolas para ganharem a sede da Copa.

“A próxima Copa do Mundo que está aberta é em 2030 e será o centenário da primeira copa do Mundo, no Uruguai, e a América do Sul gostaria de recebê-la. Mas também a Inglaterra gostaria de recebê-la, porque eles são o modelo de futebol e eles dizem que deveriam receber agora. Mas, por outro lado, também a China vai ter uma Copa do Mundo. Então há muitos concorrentes pela Copa do Mundo”, continuou Blatter, em entrevista.

“Uma federação africana deveria tentar fazer isso [sediar a Copa]. É muito difícil agora convencer a Fifa a voltar à África e isso é porque não há confiança na África, de modo geral”, continuou Blatter. Para o ex-dirigente, além de Morrocos, países como Egito e Argélia têm capacidade de organizar uma Copa do Mundo.

Blatter evidentemente teve méritos no seu tempo de Fifa, mas que foram sufocados por tantos outros problemas que ele mesmo trouxe. Puxar os méritos para si sobre ter levado a Copa do Mundo para a África é uma forma de tentar amenizar os problemas que levaram a tanto – e inclusive as acusações de corrupção na própria candidatura sul-africana. Chuck Blazer, o principal delator do Fifagate, que morreu em 2017, contou sobre como ele mesmo recebeu dinheiro para votar pelos sul-africanos.

Portanto, Blatter apenas aproveitou que a bola foi levantada para dar um voleio. Só deixou de dizer que o gol não valeu, porque ele estava impedido. Blatter pode dizer que foi perseguido por “ajudar” a África, mas sabemos que ele não foi perseguido: só caiu quando não teve mais como se esconder dos maus feitos. Ele não conseguirá reescrever a história. A única coisa que ele disse que realmente é relevante como discussão é sobre as candidaturas da África à sede da Copa do Mundo. Talvez seja mesmo difícil voltar a ter uma Copa na África. Será preciso cobrar para que haja transparência, porque não pode acontecer a qualquer preço, como foi com a África do Sul, pelos relatos.