Como tirar a Copa do Mundo de 2022 do Catar sem causar um alvoroço? Joseph Blatter parece ter encontrado uma forma. O presidente da Fifa disse nessa quarta-feira que o torneio deveria ser disputado no inverno – que no hemisfério norte é entre dezembro e fevereiro –  para evitar as temperaturas que chegam a 50°C no país durante o verão, quando será disputada a competição. Com isso, abre espaço para uma gritaria enorme dos clubes, que deve levar, em última instância, a “obrigar” a Fifa a mudar de sede.

A Copa do Mundo de 2022 é uma das que mais levanta questões sobre corrupção no futebol. O Catar venceu a disputa com Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Austrália, de maneira bastante, digamos, suspeita. Não foram poucas as denúncias em relação aos catarianos, que tiveram a preciosa ajuda de Mohamed Bin Hammam, afastado da Fifa justamente por corrupção – tentou comprar votos para a eleição de presidente da Fifa, da qual era candidato.

Blatter alega que a mudança de posição veio depois de um estudo que mostra que jogar em temperaturas tão altas pode causar danos à saúde dos jogadores. Como se ele não soubesse que o Catar, uma região desértica, tem temperaturas muito altas no verão. Tentar mudar a Copa do Mundo para o inverno é também um desrespeito ao próprio processo de candidaturas que a Fifa promove, já que se dizia que o Mundial seria realizado nos meses de junho e julho.

“A Copa do Mundo do Catar só pode acontecer no inverno”, disse à Sky Sports Alemanha, depois de viajar para a Oriente Médio. “E o comitê executivo certamente irá me acompanhar nisso. Nesse calor, você não pode jogar no verão. E nós temos que considerar os jogadores”, afirmou Blatter. “Eu acabei de ir para o Oriente Médio, na Jordânia, Palestina e Israel. Eu senti o calor nesses países e não é tão quente quanto o Qatar. É possível ter ar condicionado no estádio, mas não em um país inteiro”.

Isso tudo significa que Blatter tem uma arma para forçar a mudança do país que sediará a Copa de 2022. “Ainda há tempo suficiente. Eu irei levar essa questão ao Comitê Executivo”, afirmou Blatter. “Se essa Copa do Mundo é para se tornar uma festa para as pessoas, você não pode jogar futebol no verão”, continuou o dirigente. “Onde há uma vontade, há um jeito”. Sim, há um jeito. O jeito é tirá-la de lá.  A Copa do Mundo no inverno é uma cortina de fumaça, que até já foi apoiada pelo presidente e o secretário-geral da Uefa, Michel Platini e Gianni Infantini, respectivamente. Mas há um motivo nada bonito para Platini apoiar o Catar.

“Em dez anos, nós podemos decidir como adiar a temporada em um mês”, declarou Platini ao jornal Guardian, em setembro de 2012. “Janeiro é difícil para a Copa do Mundo porque há as Olimpíadas de Inverno. Se nós pararmos do dia 2 de novembro a 20 de dezembro, isso significa, ao invés de terminar a temporada em maio, que nós iremos terminar em junho. Não é um grande problema. É bom para a Copa do Mundo, a mais importante competição do mundo”, declarou ainda o dirigente. Então a Uefa apoia a ideia de jogar no inverno no Catar e sem problemas? Bom, não é bem assim.

Ao ler essa declaração de Platini, você pode achar que a Fifa terá apoio total da Uefa e que, afinal, organizar uma Copa do Mundo fora do seu período mais tradicional não é um problema tão grande assim. É, isso se Platini não tivesse votado no Catar e, mais do que isso, ser acusado de ter vendido o seu voto, que seria dos Estados Unidos. Como? Segundo a revista France Football, Platini participou de um “jantar secreto” nove dias antes da votação. No jantar estavam o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, o príncipe do Catar e um representante do Paris Saint-Germain. Mas fica pior.

Esse encontro foi em 2010 quando, é bom lembrar, o PSG ainda não estava vinculado aos catarianos. No dia 2 de dezembro de 2010, o Catar foi escolhido como sede da Copa de 2022. Não há nenhuma prova de corrupção de Platini, é bom dizer. As ligações entre os personagens, porém, são suspeitas. Depois do jantar, em O PSG, time do qual Sarkozy é torcedor, foi vendido para a Qatar Investment Authority em julho de 2011, que é comandada pelo príncipe do Catar – sim, esse mesmo que estava no jantar. Também depois disso, o filho de Michel Platini, Laurent, que é advogado, foi contratado pela Qatar Investment Authority. Com tudo isso, as declarações de Platini apoiando a mudança para o inverno caem em descrédito.

A principal entidade que deve se opor a essa ideia é a European Clubs Association (ECA). A entidade reúne todos os principais clubes europeus. Mais do que isso, se tornou uma grande reunião dos clubes pelo continente e já ganhou força política para causar um alvoroço caso uma ideia como a Copa do Mundo no inverno seja discutida a sério. Se essa ideia vier mesmo à tona, pode ter certeza que uma das principais opositoras será justamente essa entidade.

Apoiado pelos clubes, Blatter poderá tirar a Copa do Mundo do Catar alegando que não é possível fazer a Copa no inverno. Mais do que isso: será um poder de barganha enorme ao suíço, que poderá escolher uma nova sede, possivelmente fazendo com que esse país seja eternamente grato a ele. Trocando em miúdos: mais força política a Blatter. Então, esse movimento todo faz sentido. Até porque afasta qualquer possibilidade de algo sujo ligado a Blatter e ao Catar vir à tona.