O ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, se tornou algo de uma investigação criminal feita no seu país, a Suíça, pelo pagamento de US$ 1 milhão de forma indevida. O pagamento foi feito em 2010 a Jack Warner, de Trinidad e Tobago, que foi presidente da Concacaf. Além de Blatter, a promotoria suíça também indiciou o ex-secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, além do ex-diretor financeiro da Fifa, Markus Kattner.

Blatter foi notificado pelos promotores federais como uma pessoa indiciada sobre o pagamento, um suposto empréstimo, feito em 2010 para a Federação de Futebol de Trinidad & Tobago, controlada por Jack Warner, em um documento visto pela Associated Press. Segundo informa o documento, o pagamento saiu de uma conta da Fifa em 13 de abril de 2010 e não teve cobrança de juros. Além disso, depois foi perdoada, como uma espécie de presente.

Jack Warner é uma figura bastante conhecida do mundo do futebol – e das acusações de propinas, aliás. O trinitino foi presidente da Concacaf de 1990 a 2011, quando acabou barrado por um escândalo de compra de votos para a eleição da Fifa, naquele ano. Ele teria recebido US$ 1,2 milhão da empresa de Mohamed Bin Hammam, então candidato à presidência da Fifa e também executivo da campanha do Catar para a Copa do Mundo de 2022. O pagamento teria sido feito, coincidentemente, duas semanas depois da votação que escolheu o país do Oriente Médio como sede da Copa 2022. Isso já dá uma amostra de quem é Jack Warner.

A importância de Warner tem a ver com a Concacaf, especialmente com a região onde ele mais tinha influência, e onde fica o seu país, o Caribe. Na Fifa, o voto de cada federação tem o mesmo peso. Tanto faz se é a Itália, o Brasil ou as Ilhas Cayman. Na Concacaf, seus 41 membros são divididos em três da América do Norte, sete da América Central e 31 do Caribe. Embora menos influentes, esses países possuem um voto cada e comiam nas mãos de Jack Warner.

Por isso, Bin Hammam tentou comprá-los para a eleição da Fifa em 2011 e acabou descoberto – e banido. E por isso também Blatter deu um “presente” ao trinitino, em abril de 2010. Warner chegou a ser vice-presidente da Fifa pela Concacaf, justamente pelo seu poder em ter tantos potenciais votos concentrados na sua mão.

São muitos escândalos de corrupção ligados a Warner: acusação de dinheiro doado pela Austrália para ações humanitárias que sumiu quando passou pela mão do dirigente; propina para decidir em quem votar para sediar a Copa de 2010 e também para votar na Copa de 2006; surrupiar o dinheiro destinado a vítimas de terremoto no Haiti; entre outras coisas que a própria Fifa admitiu.

O documento de indiciamento de Blatter por esse pagamento a Warner de 2010 tem a data de 13 de maio de 2020, segundo visto pela AP, semanas depois da promotoria suíça ter dito que fecharia o processo contra o ex-presidente da Fifa por procedimentos criminosos. O processo era de cinco anos antes.

A acusação era que Blatter cometeu irregularidades no acordo de transmissão da Copa do mundo, que permitiu a Warner embolsar milhões de dólares. Vale lembrar que os acordos de transmissão de TV dos Estados Unidos para a Copa do Mundo são os mais altos do planeta. Mais do que qualquer país europeu, por exemplo.

Blatter está cumprindo uma suspensão de seis anos dada pelo Comitê de Ética da Fifa, por pagamento considerado irregular para Michel Platini como consultor. A pena expira em outubro de 2021. Este caso também está aberto ainda na justiça suíça. O novo processo, porém, pode complicar novamente a vida daquele que já foi o homem mais poderoso do futebol mundial.

Jack Warner sempre se utilizou da sua força política dentro do futebol para capitalizar dentro da política interna da Trinidad e Tobago. Se elegeu deputado em 2007, como oposição ao governo, até que em 2010 houve uma troca na eleição e ele se tornou parte da base governista. Ao ponto até de ser ministro de trabalho e transporte. Em 2015, porém, o já banido dirigente acabou perdendo o seu posto no parlamento, depois do escândalo do Fifagate ter manchado ainda mais a biografia do dirigente.

Em abril de 2020, um novo processo de indiciamento contra Jack Warner o acusava de ter recebido US$ 5 milhões de russos como suborno para que apoiasse o país a vencer a disputa para sediar a Copa de 2018. Warner negou que tenha cometido qualquer irregularidade, segundo reportado pela imprensa de Trinidad e Tobago.

A investigação na Suíça tem sido supervisionada por um nome polêmico: Thomas Hildbrand, que anteriormente fechou uma acusação sobre o acordo de TV da Fifa no Caribe. Ele passou a integrar a equipe que está lidando com investigações do futebol em 2019, depois de ser inocentado de acusações sobre a sua conduta em relação a casos envolvendo a Fifa. Em 2008, Hildbrand foi o promotor no caso dos executivos da ISL, uma empresa de marketing que vendeu os direitos de transmissão da Copa do Mundo e rotineiramente pagava subornos.

Valcke foi indiciado em fevereiro pela promotoria suíça por ter recebido suborno de € 1,25 milhão relativos a direitos de transmissão na Itália e na Grécia. Outra investigação liga Valcke a Nasser al-Khelaifi, o presidente do PSG, que pertence à família real do país e também comanda a BeIN Sports Group, com emissoras que possuem os direitos de transmissão da Copa do Mundo em vários países.

Al-Khelaifi é acusado de subornar Valcke ao permitir o uso de uma casa de luxo em uma ilha italiana em 2014 e 2015. Ambos negam que tenham cometido qualquer irregularidade. Este processo está marcado para julgamento a partir de 14 de setembro, em um Tribunal Federal da Suíça.

Parece que o homem que chegou a dizer que o Brasil precisava de um “chute no traseiro” passava longe de ser um exemplo de integridade, afinal. O dirigente caiu do seu cargo em 2015, depois de várias acusações. Foi uma das mudanças causadas pelo Fifagate, que foi uma espécie de tsunami dentro da entidade.

Blatter, Valcke e outros dirigentes sempre operaram sem qualquer problema em esquemas que vão muito além do que sabemos até hoje. É bom que as investigações aconteçam e que a justiça suíça aja como se espera.