A escolha do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 foi o ponto principal de partida para as investigações que levaram à prisão de diversos dirigentes da Fifa no ano passado e ao estouro do escândalo do Fifagate, culminando na saída de Joseph Blatter e Michel Platini das presidências da Fifa e da Uefa, respectivamente. As suspeitas de compras de votos existiam desde o momento em que o país foi anunciado como sede do torneio, foram crescendo, e, impulsionados por elas, os Estados Unidos seguiram com sua investigação sobre o alto escalão do futebol mundial. Blatter, entretanto, afirma que não houve compra de votos para que o Catar fosse escolhido, mas sim uma movimentação política, que teria mudado o voto, por exemplo, de Michel Platini.

VEJA TAMBÉM: Apoio dos clubes europeus a Infantino na eleição da Fifa deve acirrar guerra com seleções

Os Estados Unidos eram um dos países que concorriam para sediar a Copa do Mundo de 2022, e Blatter revela que, no fim, Platini, que votaria nos americanos, mudou seu voto a pedido do chefe de Estado francês à época, Nicolas Sarkozy. “Não dá para comprar uma Copa do Mundo, ela vai, no final das contas, para onde as influências políticas mais altas estão. Para a Copa do Mundo de 2022, o Platini pelo menos teve a cortesia de me telefonar e dizer: ‘Tivemos uma reunião agora com o chefe de Estado, e se o chefe de Estado me pede para apoiar a França por diferentes razões, eu farei isso’. Ele foi muito correto, me telefonou e disse que seu voto não seria para os americanos”, revelou Blatter, em entrevista ao jornal britânico The Times.

Segundo a versão de Blatter, essa movimentação se intensificou nos dias prévios à votação, que aconteceu em 2010. O suíço buscou um “controle de danos”, explicitando em sua fala a preferência pelos americanos, mas disse que “era tarde demais”. “Ele (Platini) disse que, se um chefe de Estado está te pedindo, você ainda pode dizer sim ou não, mas pelos interesses da França (decidiu votar no Catar)… Eu soube ali que isso seria um problema, tentamos, mas era tarde demais. Foi uma semana ou dez dias antes da votação. Tentei ver quais votos haviam restado para os Estados Unidos, mas quatro votos haviam sido perdidos.”

Na última semana, Blatter e Platini, suspensos por oito anos, estiveram na Fifa, defendendo a anulação de suas punições, em um processo que deverá levar algum tempo até que seja definitivamente concluído. A principal acusação contra a dupla é de um pagamento de R$ 8 milhões feito pelo suíço ao francês em 2011, dias antes de uma eleição presidencial em que Blatter foi reeleito. A alegação dos dois é de que o dinheiro é referente a serviços prestados por Platini entre 1998 e 2002. Os dirigentes sempre tiveram uma relação próxima, algo que, depois do escândalo da Fifa, não foi estendido, segundo o próprio suíço revelou.

“Não tive mais contato com o Platini desde que fomos apanhados após a reunião do comitê executivo. Fomos apanhados pela polícia suíça e colocados em uma sala, e eu lhe perguntei: ‘Você sabe o que eles querem de nós?’ Ele disse ‘não’, e eles nos viram conversando e nos separaram. Só depois eu soube o que queriam de nós. Não houve mais contato, nenhum telefonema, nada”, contou ao Times.

Apesar de todas as acusações a que responde e da má impressão duradoura que Blatter sempre causou à frente da Fifa, o dirigente segue falando em tom confiante sobre sua inocência, apelando até para brincadeiras sobre ser uma boa pessoa mesmo em sua vida pessoal.  “Tenho certeza de que há justiça neste mundo, e que não cometi nada que se enquadre na lei criminal. Não matei ninguém, não roubei um banco, não peguei dinheiro algum de qualquer lugar e eu até tratava bem todas as minhas ex-namoradas. É sério, elas me defendem. Com uma delas, fui casado apenas por alguns meses, e ela me defende”, argumentou.

A tentativa de anular a punição é apenas um último passo previsível de alguém tão ligado ao poder e tão acostumado a ele. Blatter deve saber, no fundo, que essa batalha está perdida, mas entregar os pontos facilmente nunca foi de seu feitio. Mesmo após sua reeleição no ano passado ter sido seguida do estouro do Fifagate, o dirigente só se afastou do cargo quando se viu completamente sem saída, e seu fim no futebol fica cada vez mais melancólico diante das inúmeras tentativas de se agarrar a uma autoridade que já perdeu.