Quando Marcelo Bielsa convocou uma entrevista coletiva inesperada, as especulações começaram. Todos sabiam que o assunto seria a acusação de ter espionado o Derby County, antes da partida entre os dois na semana passada. Mas o que aconteceria? O treinador do Leeds se defenderia? Se demitiria, como foi especulado? Com El Loco, nada pode ser descartado. Mas provavelmente ninguém acertaria o que aconteceu.

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Horas antes da entrevista coletiva, a Football League, responsável pela organização da segunda divisão, anunciou que estava investigando as circunstâncias em que Marcelo Bielsa orientou um dos seus funcionários a assistir escondido a uma sessão de treinamentos privada do Derby County, citando que o próprio Bielsa, em uma entrevista à Sky Sports, admitiu que deu a ordem.

Bielsa, então, reuniu um punhado de jornalistas para ajudar a investigação. Confirmou, novamente, não apenas a espionagem contra o Derby County, como também disse que assistiu a treinos de todos os times que o Leeds enfrentou nesta temporada. “Eu vou facilitar a investigação da liga. Vou lhes dar a informação que eles precisam”, afirmou. “Eu observei todos os rivais que enfrentamos e assisti a sessões de treinamentos de todos os nossos oponentes. Muitas pessoas condenaram o comportamento, dizendo que era imoral e afetava o fair play, dizendo que era trapaça, muitos treinadores e ex-jogadores acreditam que meu comportamento foi desrespeitoso”.

“O que eu fiz não é ilegal. Não está especificado, não está descrito. Podemos discutir isso, mas não é uma violação da lei. Eu sei que nem tudo que não é ilegal é certo. Claro que, se eu observo algo sem autorização da pessoa envolvida, nós chamamos isso de espionagem. Eu não posso dizer que é a coisa certa a ser feita, mas vou tentar explicar que eu não tive intenções ruins”, acrescentou.

Os jornalistas que compareceram à entrevista coletiva esperando declarações bombásticas tiveram que encarar uma palestra de Bielsa sobre seus métodos de observação, com direito a slides e planilhas. O treinador explicou que 20 funcionários da sua equipe criam um volume de informação sobre cada adversário. Cada jogo exige quatro horas de observação, cada adversário soma 300 horas de trabalho. E tudo isso é absolutamente desnecessário, segundo o próprio Bielsa.

“Não define a trajetória da competição. Então por que fazemos isso? Porque nos sentimos culpados se não trabalhamos o suficiente e sentimos que isso nos deixa mais próximos da vitória, mesmo que não seja verdade. Isso não nos coloca em uma posição melhor para ganhar os jogos, mas nos permite conhecer os jogadores. Eu não consigo falar inglês, mas consigo falar dos 24 times da Championship”, disse.

Segundo o raciocínio de Bielsa, assistir a treinamentos alheios não lhe concede uma vantagem injusta porque, mesmo sem ela, ele já sabe tudo que tem para saber sobre o adversário, e, mesmo que sejam descobertas novas informações na missão do espião, caso ele decide aceitá-la, esse tipo de informação não o ajuda a ganhar as partidas. Mas ele e sua equipe gastam 300 horas por semana nessa tarefa do mesmo jeito porque ajuda a aplacar a ansiedade pré-jogo.

“Nós reunimos informações para os sistemas, analisamos quais jogadores encaixam em cada sistema. Eu não preciso assistir a uma sessão de treinamento para saber onde eles jogam. Por que eu assisto? Porque não é proibido. Eu não sabia que criaria uma reação dessas e, apesar de que observar um adversário não é útil, mantém minha ansiedade baixa”, completou.

Como exemplo, Bielsa usou o Derby County, para o deleite de Frank Lampard, que ficou incomodado com um espião e agora teve cada detalhe do seu time exposto para um batalhão de jornalistas. O treinador explicou que, nos 31 jogos da equipe, o sistema 4-3-3 com um camisa 8 pela direita foi utilizado 49% das vezes. Em 22% das ocasiões, o camisa 8 jogou pela esquerda. A mesma porcentagem para o 4-2-1-3 com um camisa 8 na direita e na esquerda, e índices insignificantes para outras estruturas.


“Se eles mudam o sistema para manter um resultado ou para tentar marcar. Também analisamos se as mudanças são feitas para dar um perfil ofensivo ao time ou para dar força defensiva. E se essas mudanças funcionam ou não. Nós também recolhemos esse tipo de informação. As estruturas contra as quais o Derby joga. Por que fazemos isso? A ideia é tentar observar qual é a estrutura mais difícil para eles? Gostaria de explicar que não memorizo todas essas informações. Todas as informações nesse relatório respondem a questões que eu me pergunto há 30 anos”, admitiu.

Bielsa encerrou dizendo que teve dificuldades para analisar o seu próximo adversário, porque o Stoke City acabou de trocar de treinador, mas observou os 26 jogos que o Nathan Jones comandou no Luton Town. Ratificou que não acredita estar fazendo nada de errado: “Eu dei essa explicação para que vocês entendessem por que eu acredito que não estou trapaceando ao fazer algo que não é ilegal. Não estou tentando obter uma vantagem. Eu já tenho a informação. Repito: por que o faço? Porque sou estúpido. Obrigado pela sua paciência”.