Marcelo Bielsa, outra vez, levará seus métodos de trabalho e sua tradicional “loucura” ao futebol francês. Depois da malfadada desistência do argentino em sua assinatura com a Lazio, o Lille conseguiu fisgar o comandante, anunciando sua contratação neste domingo. El Loco retornará à Ligue 1 a partir da próxima temporada, depois da curta (mas marcante) passagem pelo Olympique de Marseille. Não encontrará a mesma paixão nas arquibancadas que desfrutava na Provença. Entretanto, no norte da França, terá um ambiente propício para aplicar os seus pilares.

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O Lille busca uma nova guinada com Bielsa. Após conquistar o título nacional em 2011 e passar os anos seguintes brigando por vaga nas competições continentais, os Dogues vivem uma campanha bastante modesta em 2016/17. Ocupam o 14° lugar no campeonato, apenas quatro pontos acima da zona de rebaixamento. Neste momento, a permanência é a única demanda sobre o técnico Franck Passi, que assumiu interinamente neste mês de fevereiro. É o terceiro comandante que passa pelo Estádio Pierre Mauroy nesta temporada, após as demissões de Frédéric Antonetti e Patrick Collot.

Além disso, Bielsa serve como protagonista de um novo momento no norte da França. No último mês de janeiro, o empresário Gérard Lopez se tornou acionista majoritário e presidente do Lille. Dono de uma empresa de consultoria financeira, seu investimento mais famoso nos esportes foi a equipe Lótus, em seu retorno à Fórmula 1. O luxemburguês também preside o Fola Esch, clube de seu país pelo qual atuou na base. Resolveu, então, ampliar o escopo de seus negócios com os Dogues. E chegou mostrando a que veio, com a contratação de seis jogadores no último dia da janela de transferências – em gastos totais que atingiram os €13 milhões.

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A aproximação entre Bielsa e Lopez, aliás, não é recente. Antes de adquirir o Lille, o empresário também tentou assumir o controle do Olympique de Marseille. E seu projeto para os marselheses havia agradado o argentino, que deixara o Estádio Vélodrome por desavenças com dirigentes meses antes. A intenção no sul da França não foi para frente, mas o interesse se manteve no norte.

Com a confiança de um presidente que também é declaradamente seu fã, Bielsa encontrará (a princípio) o caminho livre para aplicar as suas ideias, algo que não teve em seus dois primeiros trabalhos na Europa, por Athletic Bilbao e Olympique de Marseille. A má relação com os cartolas (entenda-se: sua teimosia ao redor das convicções) preponderou bem mais do que os resultados em campo no encerramento de seus últimos contratos. Mais do que o futebol ultraofensivo dentro de campo, dá para se esperar o próprio remodelamento estrutural dos Dogues, conforme as preferências do novo comandante, extremamente detalhista neste ponto.

Além do mais, o Lille oferece a Bielsa uma das categorias de base mais referendadas da Europa, para que possa pinçar jovens promessas, como de costume. Se as revelações dos Dogues foram fundamentais para os sucessos recentes, com Eden Hazard como melhor exemplo, agora elas devem servir de espinha dorsal na montagem do elenco pelo argentino. E, ainda que nem todos sejam pratas da casa, o grupo atual conta com 12 atletas com 22 anos ou menos. Já um começo para o novo treinador.

Agora, resta esperar o início do trabalho de Bielsa, a partir de julho. Diante de todo o panorama, dificilmente ele desistirá no meio do caminho, como aconteceu com a Lazio. E poderá protagonizar outra empreitada intensa no futebol europeu. Aparentemente, não para registrar sucessos imediatos. Mas, talvez, para durar muito mais do que em suas experiências anteriores no Velho Continente.