“Malandro é malandro e mané é mané – podes crer que é”. A estrofe famosa resume bem o espírito de Bezerra da Silva, que completaria 90 anos nesta quinta se ainda estivesse vivo. O pernambucano se mudou ao Rio de Janeiro aos 15 anos de idade, fugindo da fome, e se tornou um dos símbolos do samba carioca. Um malandro autêntico, que viu sua vida se transformar através da música e contava sobre o cotidiano no morro enquanto cantava as suas letras. Algumas delas ganharam fama por fazerem referências às drogas, gerando controvérsias e o rótulo de ‘sambandido’. A maioria, porém, trazia críticas sociais e o humor ácido da periferia. Sua resposta sobre as acusações, aliás, vinha nas próprias composições: “Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado. Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado”.

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Apesar do personagem que criou em torno de si, Bezerra da Silva prezava mais pela inteligência do malandro do que pelo ‘jeitinho’ em si. Era como cantava: “Malandro é o cara que sabe das coisas, malandro é aquele que sabe o que quer. Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé Mané”. Fez da música o seu sustento e de muitos compositores da periferia, a quem ia visitar com um gravador em mãos, para levar o samba das vielas às gravadoras. Assim, nutriu um respeito enorme em vários cantos do Rio de Janeiro.

E como bom carioca adotivo, Bezerra da Silva cultivou duas grandes paixões: o carnaval e o futebol. No livro ‘Bezerra da Silva, produto do morro: trajetória e obra de um sambista que não é santo’, a autora Letícia C. R. Vianna descreve o escritório do músico como “uma espécie de santuário de uma cultura popular carioca”. Entre as capas de seus discos, recortes de jornal e imagens de divindades, as paredes também exibiam uma bandeira da Mangueira e um escudo do Flamengo. Amores que o sambista uniu em uma só música.