Dennis Bergkamp é o ídolo de uma geração holandesa. Quem não teve a sorte de ver Marco van Basten ou Ruud Gullit, certamente teve o craque de Ajax, Internazionale e Arsenal como grande referência. Por mais que a Holanda contasse com uma geração talentosíssima (para ficar em cinco nomes, Frank de Boer, Davids, Seedorf, Overmars e Kluivert) a qualidade técnica de Bergkamp era notável. A grande influência para os craques que seguiram os seus passos nos anos seguintes, incluindo Robin van Persie.

O atacante do Manchester United nunca escondeu a admiração pelo veterano. Sobretudo, por ter a sorte de atuar ao seu lado no Arsenal. De certa forma, de sucedê-lo como ídolo em Highbury. E se Van Persie superou os seus traumas, se tornando o maior artilheiro da seleção holandesa em todos os tempos, deve bastante à influência de Bergkamp. Ter a chance de acompanhar o velho craque de perto fez toda a diferença para Van Persie. Algo que ele mesmo afirma, relembrando de um capítulo especial.

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“Bergkamp estava se recuperando de uma lesão e treinando com dois garotos da base, junto com o preparador físico. Eles estavam fazendo exercícios de passe e chute. Ele era incrível. A forma como jogava, a forma como se portava. Ele sempre treinava com 100% de dedicação. Eu era um grande fã. Sempre que você admira alguém, quando conhece a pessoa, o seu sentimento muda. Mas não com Bergkamp. Eu continuei a idolatrá-lo mesmo quando jogava ao seu lado em campo”, afirmou Van Persie, em entrevista ao jornalista Henk Spaan, recontada pelo magistral 4D Foot.

O ano era 2004, quando Van Persie acabava de ser contratado junto ao Feyenoord, aos 21 anos. Havia encerrado o treinamento e se recuperava em uma banheira, que tinha vista para o campo de treinamentos onde Bergkamp trabalhava a parte. Começou a observar cada movimento do veterano. Ou melhor, a secá-los.

“Era uma sessão de 45 minutos. Eu sentei e comecei a assistir. Estava esperando pelo primeiro erro. Mas ele não veio. Não tinha um passe de Dennis que não era perfeito. Minhas mãos começaram a enrugar na banheira, mas fiquei esperando. Ele não errava. E fazia tudo com 100% de dedicação, ao máximo. Dava o mais duro possível para chutar, dominar, passar. Era maravilhoso. Para mim, isso é arte”, analisou.

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Foram 45 minutos definitivos para a carreira de Van Persie: “Assistir àquela sessão de treino respondeu a muitas questões para mim. Eu posso passar a bola bem, também. Eu sou um bom jogador. Mas aquele cara fazia tudo tão melhor. Ele tinha foco total. E eu percebi que tinha um passo enorme para chegar naquele nível. Se eu quisesse me tornar realmente bom, eu teria que me dedicar ainda mais. A partir daquele momento, eu passei a treinar com total comprometimento. A cada exercício, eu fiz tudo com 100% de dedicação. Eu tentava não errar nunca. E, quando eu errava, ficava bravo. Porque eu queria ser como Dennis Bergkamp”.

Van Persie nunca chegou ao nível técnico de Bergkamp ou à mesma idolatria no Arsenal, ainda mais depois da mudança conturbada para Old Trafford. Mas não dá para negar que o empenho nos treinamentos deu resultado, especialmente pela técnica na finalização – ou quem se esquece do gol do título pelo United em 2012/13 e da cabeçada contra a Espanha na Copa de 2014? Bergkamp certamente se sentiu orgulhoso.