Dimitar Berbatov não é e nunca será lembrado como um dos grandes craques a desfilar na Premier League, mas o nível que apresentou sobretudo nos seis anos entre 2008 e 2014, entre Tottenham e Manchester United, já lhe garantiu um lugar na galeria de jogadores a marcar seu nome na história da competição. Vê-lo em campo era ter a sensação de que ele não estava tão ligado na partida, mas ele sempre interrompia essa visão com lances de genialidade aqui e ali. O hoje ex-jogador reconhece que seu estilo talvez colocasse dúvidas na cabeça dos torcedores, mas explica como conseguia ser tão efetivo mesmo sem a mesma intensidade de alguns de seus ex-companheiros.

Em entrevista à BBC Radio 5 Live, o búlgaro examinou seus anos como atacante na elite do futebol inglês e a fama que ele tinha entre muitas pessoas de não correr. “Todo mundo é diferente na maneira de ver o jogo e de jogar. Minha diferença era que, às vezes, você via que talvez eu não estava dentro do jogo. Mas, ao mesmo tempo, eu estava examinando o gramado para ver onde me posicionar no momento certo, em um pedaço de espaço. E aí você podia me dar a bola, para que eu tivesse mais tempo sozinho, sem alguém na minha cola”, começou a explicar.

Com toda sua carreira como exemplo para ilustrar seu ponto, Berbatov prosseguiu: “Algumas pessoas não entendem, mas, se você é inteligente mentalmente, mesmo se for lento, você ainda pode ser rápido. Você pode se posicionar melhor e ser ainda mais útil ao seu time”.

“Parece um pouco estranho, mas em todo time em que joguei, você vê meu estilo de jogo, e às vezes os torcedores e os jogadores não entendem isso e ficam com receio de que eu não esteja ajudando e não seja bom para o time. Porém, depois de um tempo, você se acostuma, porque esse estilo pode trazer resultados”, completou.

De fato, trazia. Além de contribuir enormemente para o jogo ofensivo das equipes que defendeu, com destaque para os quatro anos no Manchester United, Berbatov era capaz de criar momentos de pura magia, apoiado em sua enorme qualidade técnica, que parece ser cada vez mais apreciada à medida que o tempo passa.

Mais do que nunca, hoje a Premier League é uma competição muito dura fisicamente, em que certos tipos de jogadores encontram dificuldades para render. Quando chegou ao Tottenham em 2006, vindo do Bayer Leverkusen, o cenário já era parecido, e em teoria não seria este o lugar que você encaixaria alguém como o búlgaro. O sucesso que encontrou por lá, apesar de suas características, foi mais um testemunho de sua capacidade técnica. Mas isso não significa que Berbatov não tenha precisado se esforçar bastante para se adaptar no começo.

“Precisei me ajustar à velocidade da Premier League e à fisicalidade da liga. Vi jogadores que nunca tinha visto na Bundesliga, com físico de bodybuilder, e pensava: ‘O que é que está acontecendo?’. Eu sabia que eu precisaria usar meu cérebro ainda mais, foi um desafio. Precisei de alguns meses para me sentir preparado e para que meus companheiros me aceitassem.”

Depois de dois anos no norte de Londres, era hora de dar um salto em sua carreira. Ele sabia que a mudança para o Manchester United não seria bem aceita, mas precisava dar aquele passo: “Eu estava seguindo meu próprio caminho e sabia que, se perdesse aquela chance, não viria outra como ela. O futebol é assim”.

Falando de sua chegada ao United, Berbatov ecoa as palavras de outros jogadores de destaque que, mesmo com anos de experiência debaixo dos braços, se impressionaram ao constatar onde estavam.

“Eles tinham jogadores que haviam sido campeões, vencido a tríplice coroa, e eu pensei: ‘Eu finalmente consegui’. Foi para isso que eu havia trabalhado a minha vida toda. Eu estava feliz, mas pensava: ‘O que eu estou fazendo aqui?’. Como uma criança. Isso às vezes te impede de mostrar o que você é capaz de fazer”, lembra.

Analisando o momento atual, Berbatov acredita que Harry Kane, craque do Tottenham, está em um momento parecido com o que ele viveu ao deixar os Spurs. Os rumores crescem de que o atacante poderia estar vivendo seus últimos capítulos na equipe, e o búlgaro, com base em sua própria experiência, tenta imaginar o que se passa na cabeça do capitão da seleção inglesa.

“Como já foi estabelecido muito tempo atrás quais são os grandes clubes, você sempre terá essa situação com times como os Spurs, em que seus melhores jogadores precisam decidir se ficam ou vão para um clube maior. É exatamente o mesmo com Harry Kane no momento. Ele estará em uma encruzilhada, pensando o que fazer. (…) Será repetido várias e várias vezes, e muita gente ficará brava com isso, que a falta de títulos é o principal problema para jogadores como o Kane, que é capitão da Inglaterra e não está ficando cada vez mais jovem. Mas, quando ele estiver mais velho, vai querer dizer a seus filhos: ‘Olha o que eu venci’.”

Diferentemente de Kane, Berbatov, em seus dois anos de Tottenham, conseguiu um título: a Copa da Liga de 2007/08. Porém, a mudança ao United justificou-se mais tarde, e o búlgaro aumentou sua galeria de conquistas com duas Premier Leagues, uma Copa da Liga e um Mundial de Clubes.