Por Bruno Grossi*

O protagonismo de Karim Benzema na conquista do 34º título do Campeonato Espanhol do Real Madrid chama a atenção pela forma como colocou em xeque algumas verdades absolutas que muitos criaram nos últimos anos. Ou você não se lembra de ninguém que falou sobre o fim dos centroavantes e do amor à camisa no futebol?

Muitos já caíram na tentação de uma análise definitiva, baseada no saudosismo ou nos próprios gostos. É uma armadilha sedutora, de fato. Olhamos para falsos 9 e falsos ídolos e ficamos agitados querendo desabafar sobre a falta que faz um centroavante grandalhão trombando com zagueiros ou um jogador que honre as cores de nossos clubes aconteça o que acontecer.

Ficamos tão presos a esses desejos íntimos construídos por memórias afetivas ou o tal “ódio eterno ao futebol moderno” que muitas vezes esquecemos de olhar para o que está em nossa volta. Benzema, por exemplo, desmistifica essas duas verdades absolutas de uma vez só enquanto empilha gols, títulos e temporadas de identificação com o Real Madrid. Talvez você nem tenha percebido que o francês já soma dez anos de Santiago Bernabéu e consegue ser eficiente não só como artilheiro, mas também em suas funções táticas e dando assistências.

É claro que vão surgir respostas prontas dizendo que é fácil ficar tanto tempo em um clube quando se está no Real Madrid. É um dos ápices possíveis do futebol e ninguém chega ali pensando em sair tão cedo. Mas a história recente mostra que sobreviver à pressão merengue não depende só da própria vontade. Apenas neste século, conseguimos elencar com tranquilidade uma dezena de astros que sucumbiram ao peso imposto pelo carimbo de estrela do Real Madrid.

Benzema perseverou. Foi comparado a Ronaldo Fenômeno, obviamente não alcançou esse status na carreira, mas se consolidou com um dos 9 mais influentes e artilheiros do mundo. São 248 gols em dez anos de Real, gerando uma média de quase 25 tentos por temporada. Benzema também viveu à sombra de Cristiano Ronaldo, foi ofuscado pelo espetacularismo sobre Gareth Bale e novamente perseverou.

Quando CR7 foi embora, provou que o porto seguro do Real morava em seus confiáveis faro de gol e comportamento tático, e não nos brilharecos cercados por lesões e indolência do badalado galês. Foram anos em que Benzema foi colocado em prateleiras abaixo de Bale, tratado como um 9 operário de boa média de gols, mas sem brilho próprio. Preferíamos os malabarismos ocasionais de Bale e agora ficamos sem graça ao olhar para trás. Quando mais se esperava e exigia dessa dupla, foi o francês quem bateu no peito e decidiu.

O lado positivo de toda essa transformação merengue sem Cristiano Ronaldo é que Benzema conseguiu se provar como gigante do Real Madrid sem depender do distanciamento histórico, que costuma desfazer injustiças no futebol. Abriu-se aos olhos de todos que seus gols e seu esforço para abrir caminho para CR7 muitas vezes não foram valorizados como deveriam para o mundo exterior, mas certamente foram essenciais para que o Real conquistasse 18 títulos nos últimos dez anos.

*Bruno Grossi, 27, é jornalista e acompanha futebol profissionalmente desde 2012, quando estagiário na Gazeta Esportiva. Foi repórter do LANCE! e do UOL Esporte e atuou na cobertura de São Paulo, Palmeiras e Seleção Brasileira.

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