Como quase todo atacante de sua geração, Karim Benzema foi bastante influenciado por Ronaldo Fenômeno. Em entrevista recente ao programa Universo Valdano, da emissora espanhola Movistar, o francês explicou como assistia ao brasileiro e tentava imitar seus movimentos e avaliou o diferencial do craque: “Não marcava apenas gols, fazia de tudo”.

“O Ronaldo era meu ídolo desde pequeno. Comecei a ver futebol por causa dele”, revelou Benzema. “Olhava seus movimentos e tentava copiar o que ele fazia. Mas não havia ninguém como ele, eu o admirava muito.”

Para o francês, embora alguns outros atletas da época tivessem algumas das qualidades do brasileiro, nenhum acumulava todas elas da mesma maneira que Ronaldo. “Alguns jogadores tinham sua velocidade, mas não o controle de bola e a habilidade ao mesmo tempo. As pessoas acham que ele apenas marcava gols, mas ele conseguia fazer de tudo. Os atacantes precisam saber como fazer várias coisas, não apenas gols, e ele era o exemplo perfeito disso. Aprendi muito com ele e com o Zidane.”

Com ídolos como esses, não é surpresa que Benzema tenha acabado no Real Madrid. São figuras como Ronaldo e Zidane que ajudaram a construir o imaginário dos merengues como o maior clube do mundo. E como uma instituição deste calibre, tudo que a acompanha é igualmente grandioso. Benzema afirma que não estava preparado para o nível de cobrança que enfrentaria em Madri quando chegou à capital espanhola, em 2009.

“Fiquei muito feliz em assinar (com o Real Madrid), mas não estava pronto mentalmente para tudo que veio com aquilo. O time, as pessoas, a pressão… Quando eu estava no Lyon, eu era protegido de tudo isso pelo presidente (Jean-Michel Aulas)”, relembrou.

“(O Real Madrid) É um clube que venceu vários títulos europeus e sempre teve estrelas. Foi muito difícil, especialmente considerando que eu estava sozinho e não falava espanhol. Aquele primeiro ano foi muito difícil, porque a maneira como você está se sentindo fora de campo é transmitida para o seu desempenho dentro dele. Eu era muito jovem e não conhecia os funcionamentos do clube. Pensei que apenas chegaria e jogaria. No fim, me senti perdido.”

Benzema tinha começado a pensar em um futuro longe do Madrid, até que recebeu uma visita em sua casa do presidente Florentino Pérez. A abordagem pessoal do dirigente fez toda a diferença para que o francês permanecesse no Real e desse continuidade ao que viria a ser uma história de grande sucesso, marcada por três títulos de La Liga e quatro conquistas consecutivas da Champions League, entre outras honrarias.

“Ele veio até minha casa. Nunca pensei que ele faria isso. Quando o vi lá, esqueci os outros clubes. Disse a ele que ele tinha a minha palavra (de que permaneceria no Real Madrid).”

Parte integral do sucesso do Real Madrid na última década, Benzema passou a ter um reconhecimento mais condizente com o que fez pelo clube apenas após a saída de seu ex-companheiro Cristiano Ronaldo, que foi para a Juventus em 2018. Jogando ao lado do ex-camisa 7, Benzema atuava em função do colega.

Quando CR7 deixou o Santiago Bernabéu, o francês assumiu o protagonismo dos gols, mas sem deixar de dar sua importante contribuição na construção de jogadas para os companheiros marcarem. Nas últimas duas temporadas, fez 57 gols e deu 22 assistências em 101 jogos. Sobre o período ao lado de Cristiano, Benzema avalia: “Ele (Cristiano Ronaldo) estava lá para marcar gols, e eu tive que mudar a maneira como eu jogava por ele, colocando de lado meu próprio desejo de marcar gols”.

Mesmo alcançando o status de grande craque do clube nos últimos dois anos, notavelmente essencial na conquista de La Liga na temporada passada, Karim Benzema não foi chamado de volta para a seleção francesa, da qual não participa há cinco anos. O atacante foi cortado no período que antecedeu a Euro 2016, que seria realizada na França, em meio ao incidente da sex tape de Mathieu Valbuena, então seu companheiro de seleção.

À época, um amigo de infância de Benzema obteve o vídeo comprometedor do meia francês e tentou suborná-lo. O atacante do Real Madrid então atuou como ponte de contato entre os dois, e até hoje é investigado por isso. Com o caso ainda sem solução, Benzema segue fora dos Bleus.

À Movistar, Benzema afirma que nunca teve uma resposta oficial por parte da Federação Francesa sobre sua exclusão da seleção. Acredita que a decisão tenha vindo do presidente Noël Le Graët, com quem já trocou farpas publicamente, e não do técnico Didier Deschamps.

“Acho que qualquer jogador quer jogar por seu país. Eu tinha um problema e disse a mim mesmo: ‘Preciso falar com o treinador’. Nunca tive uma explicação. Acho que foi tudo feito de cima pra baixo. O bom é que eu posso simplesmente focar no clube”, afirmou, tentando se concentrar no lado positivo disso tudo.

“Ver a França vencer a Copa do Mundo não me machucou. O que machucou foi a falta de diálogo com a comissão, a despeito das minhas perguntas (sobre sua exclusão). Mas minha vida agora é em Madri”, encerrou.