Há um ano e meio, a carreira de Hatem Ben Arfa parecia acabada. Devolvido pelo Hull City, em empréstimo encerrado antecipadamente, o atacante foi dispensado pelo Newcastle e ficou sem clube. Por conta das regras da Fifa, não poderia defender uma terceira equipe na mesma temporada. E cogitou até mesmo pendurar as chuteiras. Um passado que, agora, parece muito distante, levando em conta a realidade do francês. Pretendido por grandes clubes europeus, Ben Arfa estava próximo do Sevilla, mas assinou mesmo com o Paris Saint-Germain, até 2018. Vem para ser uma das estrelas na reformulação da equipe sob as ordens de Unai Emery. Uma reviravolta que dependeu do próprio talento do camisa 21, mas também da ajuda de clássicos da filosofia.

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Ben Arfa se reergueu no Nice. Passou os primeiros meses de 2015 apenas treinando. Época em que também encontrou um refúgio para a sua mente na literatura. “Eu sei que a imagem de um jogador que lê filosofia ou poesia pode provocar risos, mas, quando eu estava no abismo, encontrei forças para emergir graças a Nietzsche e Sócrates. Os autores abrem minha mente, oferecem novas perspectivas de reflexão. Então, eu vou recolhendo livros que acho perdidos em restaurantes, bares, aeroportos. Ou na internet, como todo mundo”, declarou em maio, durante entrevista à Gazzetta dello Sport.

Em Nice, Ben Arfa ganhou a confiança que precisava e se revolucionou. O ponta terminou a última temporada como um dos melhores jogadores da Ligue 1. Acumulou 17 gols e seis assistências, ajudando as Águias a terminarem na quarta colocação e a se classificarem à Copa da Uefa – apenas a dois pontos da última vaga na Champions. Destacou-se tanto que sua ausência na Euro 2016 foi reclamada por muitos. No entanto, o histórico de confusões do jogador de 29 anos parece ter pesado para Didier Deschamps. Problemas que, atualmente, ele indica ter superado. De promessa que explodiu na seleção francesa sub-17 e logo começou a ser comparado com Zidane, Ben Arfa aprendeu a lidar com os desencontros de sua carreira. Pronto para usar sua inegável habilidade da melhor maneira.

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“Meu caminho é todo de altos e baixos. Surgi muito cedo e depois afundei. Há um ano, estava a um passo do adeus, mas eu nunca teria me perdoado pela ideia de que me avaliassem como um talento desperdiçado. Hoje desejo chegar ao topo. Eu aprendi com meus muitos erros, mas é minha vida e eu não a renego”, aponta. “Poderia ter sido diferente, mas eu era jovem, não estava preparado para tanta pressão e notoriedade. Às vezes fui impaciente, não podia esperar a minha vez”.

No PSG, enfim, Ben Arfa terá a maior oportunidade de se afirmar como protagonista. Revelação do Lyon multicampeão nos anos 2000 e estrela do Olympique de Marseille que triunfou na Ligue 1 em 2009, o ponta perdeu embalo e nunca emplacou como se esperava no Newcastle. Agora, em um dos clubes mais poderosos do futebol europeu, o camisa 29 desfrutará de um ambiente favorável. Ao lado de Ángel Di María, tem condições de formar uma dupla infernal no Parc des Princes. Talvez o final feliz que o filme de sua vida espera.

“Tenho um diretor que me acompanha no dia a dia, que agora é parte de minha família. Ele está produzindo não um filme sobre o futebol, mas uma espécie de testamento, uma autobiografia em imagem. É um testemunho para mostrar como é a vida de um jogador profissional, que não é tão fácil. Quero corrigir os mitos, recontando a ascensão, a queda e a recuperação. É um filme sobre a vida, sem filtros. Embora eu nunca tenha desistido, não quero mandar uma mensagem. Todo mundo verá como realmente é”. O próximo capítulo começa em Paris.