Quem acordou cedo naquela primeira manhã de junho de 2002, ou já estava varado da maratona de jogos na madrugada, esperava uma vitória da Alemanha. Não tanto pelo momento que vivia o Nationalelf, e sim pela fragilidade do adversário. Por mais que a relevância dos clubes germânicos no cenário continental fosse enorme, a geração não empolgava tanto, especialmente pelos resultados ruins nos anos anteriores. De qualquer maneira, o favoritismo era mantido graças à fraca Arábia Saudita, bastante envelhecida. Poucos imaginavam, porém, que aquele confronto terminasse em estrondosa goleada por 8 a 0, como não se via no torneio desde 1982. E certamente ninguém previu que, naquela partida, nasceria o maior artilheiro da história das Copas: Miroslav Klose, um símbolo da seleção alemã neste século.

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Klose desembarcou no Japão sem tanto alarde, pouco conhecido para o público geral. Revelado pelo Homburg, estreou na Bundesliga em abril de 2000, nesta época já vestindo a camisa do Kaiserslautern. Teria uma ascensão meteórica, que se desenrolaria em pouco mais de dois anos. A primeira temporada como titular, em 2000/01, mereceu o reconhecimento da seleção alemã. Apesar das tentativas dos poloneses em persuadir seu conterrâneo a servir a equipe nacional, ele optou pelo país onde cresceu e desenvolveu sua paixão por futebol. Em março de 2001, fazia sua estreia no Nationalelf, sob as ordens de Rudi Völler. Vindo do banco de reservas, anotou dois gols logo nas duas primeiras partidas, que renderam duas vitórias nas Eliminatórias.

A partir de então, o novato começou a ganhar mais minutos com o treinador. Inicialmente, era visto como uma opção a Oliver Neuville, quase sempre substituindo-o. Ao lado de Carsten Jancker ou Oliver Bierhoff, desempenhava um papel de maior liberdade, em tempos nos quais a sua mobilidade se sobressaía até mais que o poder de definição. E a boa fase acabou por conspirar a favor de Klose. Cada vez mais protagonista do Kaiserslautern, anotou 16 gols na Bundesliga 2001/02, quinto na artilharia geral. Impulsionou-se também na seleção, em um momento de provação dos germânicos, especialmente após a histórica goleada da Inglaterra em Munique por 5 a 1 nas Eliminatórias. Saindo do banco para os 20 minutos finais daquele jogo e ausente na repescagem contra a Ucrânia, o jovem ganharia a posição nos amistosos disputados em 2002, com os últimos ajustes.

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Mais tarimbados entre os homens de frente da Alemanha, Bierhoff e Jancker jogavam mais por nome do que por fase em si. Assim, não tinha como se barrar a presença de Klose no 11 inicial. Nos amistosos preparatórios ao Mundial, o jogador do Kaiserslautern anotou duas tripletas, contra Israel e Áustria. O Nationalelf teve os seus tropeços, mas o potencial do novato estava bem claro, por tudo o que demonstrou às vésperas da competição.

Acima da mobilidade, do oportunismo, da presença de área ou da técnica gigantesca nas finalizações, Klose demonstrava uma enorme vontade, se entregando a cada bola. Escolha natural para o time titular na estreia contra a Arábia Saudita, no Sapporo Dome. Alguns poderiam estranhar a ausência do respeitadíssimo Bierhoff ou de Neuville, fundamental para as grandes campanhas do Leverkusen nos meses anteriores. Mas era o então desconhecido, prestes a completar 24 anos, que ganhava a chance ao lado de Jancker. Ganharia fama mundial em apenas 76 minutos em campo.

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Não vamos menosprezar que a Arábia Saudita implorou por uma massacre. A fragilidade defensiva da equipe era imensa. Klose, de qualquer maneira, não deixou de cumprir o seu papel. Aproveitando as jogadas de Michael Ballack pela esquerda, anotou os dois primeiros gols antecipando a marcação e fuzilando de cabeça. As duas primeiras de suas eternas cambalhotas. O próprio Ballack fez o terceiro, enquanto Klose desviou a bola de calcanhar para Jancker anotar o quarto. Já no segundo tempo, Thomas Linke marcou o quinto, antes de Klose dar a prova irrefutável de seu oportunismo, completando sua tripleta também de cabeça. Do banco, viu Bierhoff deixar o dele e Bernd Schneider fechar a goleada com o mais bonito, em pintura de falta. Naquele 1° de junho, o maior artilheiro das Copas abria sua conta. E o goleiro mais vazado, Mohammed Al-Deayea, se encaminhava a outro recorde.

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Ao longo da primeira fase, Klose continuou sendo decisivo para a Alemanha. Marcou o gol no empate contra a Irlanda e fechou a conta nos 2 a 0 sobre Camarões. Mas foi só a partir dos mata-matas que Völler passou a apostar de vez no potencial do camisa 11 como homem de referência, colocando Neuville no lugar de Jancker. Curiosamente, neste momento o artilheiro estacionou em seu número de gols. Apesar disso, auxiliava bastante por sua capacidade de abrir espaços aos companheiros e ir além de sua função como matador. Ajudou o Nationalelf a chegar à final da Copa, eleito ainda para o time ideal da competição.

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Depois disso, Miroslav Klose se transformou em uma das principais faces da Alemanha. Encabeçou o time nas enormes campanhas em 2006 e 2010, quando teve papel decisivo para a conquista do terceiro lugar em ambos, apesar das dolorosas quedas nas semifinais. E, em 2014, mesmo veteraníssimo, contribuiu bastante ao tetra. Sua importância esteve muito mais na experiência e no encaixe tático que proporcionou ao time de Joachim Löw. Mas ainda couberam mais dos gols. Os dois tentos que eternizaram o maior artilheiro da história das Copas, 16 ao todo, superando Ronaldo. Goleador e também campeão, em lenda iniciada sem tantas expectativas sobre si, naquela noite em Sapporo.