A Nigéria possui uma tradição que, pela terceira vez, se repetirá nesta Copa do Mundo. As Super Águias costumam levar não 23 jogadores ao Mundial, mas 24. O último homem, obviamente, não é inscrito no torneio. Ainda assim, faz parte da delegação e convive com o restante do grupo. Não deixa de ser mais um membro, ganhando experiência para voltar a campo logo depois do torneio. Nas duas primeiras vezes que os nigerianos fizeram isso, levaram jovens vistos como o futuro da equipe nacional. Em 2018, o escolhido é Carl Ikeme, goleiro titular que enfrenta uma leucemia desde julho de 2017. Exemplo que poderia ser espelhado por outras seleções, em casos específicos. E o Peru tem uma boa deixa para isso, com Sergio Peña. O meia de 22 anos acabou cortado da lista final, justamente por conta da liberação de Paolo Guerrero. O sonho do veterano é a frustração do jovem.

Revelado pelo Alianza Lima, Peña disputou 19 partidas pelo Granada na segundona espanhola, se ausentando em parte da campanha por causa de uma lesão no ombro. Já pela seleção, acumula cinco jogos. Entrou em campo três vezes nas Eliminatórias, inclusive no empate contra a Argentina na Bombonera, e disputou dois dos amistosos preparatórios neste ano. Neste domingo, ganhou a oportunidade de atuar durante 14 minutos na vitória por 3 a 0 sobre a Arábia Saudita, em St. Gallen. Serviu como despedida. Pouco depois, a federação anunciou o seu corte, fechando o grupo em 23 jogadores.

Peña participou das primeiras semanas de concentração da seleção peruana à Copa do Mundo. Viajou à Europa com o elenco na última semana, quando se esperava a definição da justiça comum suíça sobre o caso de Guerrero. Ao final, alguém precisaria ser cortado para que o artilheiro entrasse e, naturalmente, perderia a vaga no Mundial. Mas bem que a federação peruana poderia reconhecer o empenho do meia de outra forma. Ok, ser “café com leite” não deve ser das sensações mais agradáveis, só que ainda assim surgir como 24° jogador cairia como uma recompensa. Comporia o grupo, experimentaria o Mundial ao menos do lado de fora (como outros, que realmente não vão atuar), ajudaria nos treinos. Ganharia rodagem para, com 22 anos, seguir envergando a camisa albirroja nas próximas competições internacionais.

Em suas redes sociais, Peña publicou uma mensagem com um tom um tanto quanto melancólico, demonstrando tristeza, mas se negando a colocar a culpa em qualquer pessoa: “Hoje vivo o momento mais duro da minha carreira e sinto que não fiz o suficiente para poder estar no melhor torneio do mundo e representar o meu país da melhor maneira. Amanhã despertarei com mais forças que nunca e seguirei com o que mais amo da melhor maneira. Quero agradecer a todo o Peru que me apoiou, meus companheiros e ao comando técnico da seleção pela maneira como me trataram desde a primeira convocação. Merecem o melhor e sempre os apoiarei, porque me sinto parte desta família”, escreveu. “Sei que terei uma nova chance. Vamos, Peru!”.

Por outro lado, os companheiros o apoiaram publicamente, inclusive Guerrero. “Não há tempo para que fique triste. Sei que dói, mas tome isto como uma chance de dar a volta por cima. Olhe positivamente e trace seus objetivos pessoais no futebol, foque onde quer chegar. O futebol dá novas oportunidades e estou seguro que te oferecerá, sabemos do talento e da qualidade que você tem. O futebol é assim, cheio de alegrias e também de tristezas. Você tem muito futuro, mas dependerá de você e da preparação, física e mental, que deve ter. Estaremos sempre te apoiando. Te quiero mucho“, declarou o veterano. André Carrillo foi outro a se manifestar, já que, mais do que companheiro de seleção, Peña é seu amigo de infância.

Diante dos recados, fica claro que Peña é um jogador bastante querido pelo grupo. Talvez causasse ciúmes a brecha dada a ele, quando outros poderiam receber tal consideração? Talvez a quem vê de fora, mas se torna compreensível diante das circunstâncias. Incluí-lo, ainda que dependa de credenciais ou coisas do tipo, parece uma questão mais de querer do que de poder. Seria um grande ato à federação peruana, que tanto valorizou o lado humano de sua seleção e de seu povo nos últimos tempos. Seria bacana se a população, como fez com Guerrero, se mobilizasse por mais essa.


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