A Community Shield não costuma ser a competição mais valorizada pelos clubes ingleses. A “Supercopa da Inglaterra” tem o peso de um torneio amistoso, que rende um título e serve de termômetro no início da temporada, mas não vai muito além. Ainda assim, há uma história respeitável por trás do certame. Inspiração a outras “supercopas” pelo mundo, o torneio surgiu como um evento nobre, para valorizar as iniciativas de caridade da comunidade em Londres. E esse intuito continua, ainda que de maneira diferente. Neste domingo, em Wembley, Manchester City e Chelsea poderão oferecer a sua contribuição.

A primeira edição da Community Shield aconteceu ainda em 1898, como “Sheriff of London Charity Shield”. Thomas Dewar, então xerife de Londres, resolveu promover uma partida amistosa entre o melhor time profissional do país e o melhor amador. A renda da partida iria para organizações de caridade da capital, enquanto uma prataria seria oferecida ao campeão – um escudo imenso, considerado o maior troféu já criado na história do futebol. A ideia teve apoio de representantes importantes da Football Association, de políticos da época e também dos jogadores. Visava reforçar os laços entre jogadores profissionais e amadores, após a cisão na década anterior, culminando na criação do Campeonato Inglês.

Naqueles primórdios, os amadores eram representados pelo famoso Corinthian. O clube de Londres havia surgido justamente na esteira do profissionalismo, como um contraponto. Reunia os melhores jogadores amadores de Londres, a maioria deles de origem rica, que preferiam negar o dinheiro e ressaltar o caráter cavalheiresco do esporte. Desde o seu surgimento, o clube costumava desafiar as principais equipes profissionais – e conquistou grandes resultados no período. A Charity Shield vinha para oficializar o maior desafio envolvendo o clube. O adversário do Corinthian, por sua vez, geralmente era o campeão da Copa da Inglaterra ou da Football League, a primeira divisão Campeonato Inglês. A exceção aconteceu em 1899, quando o convidado foi o escocês Queen’s Park – uma equipe igualmente forte, reconhecida por ser a fundadora das bases daquilo que conhecemos como “jogo de passes”.

Ajudando as entidades de Londres, a Charity Shield continuou nesse formato até 1907. O Corinthian ganhou o titulo em duas oportunidades, enquanto compartilhou o troféu em outras duas. Enquanto isso, a lista de campeões entre os profissionais engloba Aston Villa, Tottenham, Sunderland, Sheffield Wednesday, Liverpool e Newcastle. Em 1908, porém, a Charity Shield original chegou ao fim. Houve uma cisão dentro da Football Association e os clubes amadores resolveram criar sua própria federação. Existiram ainda outras edições esparsas da velha competição, ligadas ao Corinthian e com o troféu original em jogo. Na década de 1930, veio para levantar dinheiro à criação de campos de futebol pelo país. Depois, nos anos 1960, para fomentar a fusão do Corinthian Casuals. Por fim, em 1983, para comemorar o centenário do clube amador. No entanto, para melhorar suas estruturas, o Corinthian Casuals leiloou o velho escudo na década de 1990.

Se não tinha o “Shield” original, a Football Association criou seu próprio troféu e sua própria competição a partir de 1908. Nos quatro primeiros anos, a nova Charity Shield era disputada pelo campeão da Football League e o campeão da Southern Football League, que concentrava os clubes do sul do país e servia como uma espécie de terceira divisão nacional. Em 1920, com o futebol restabelecido após a Primeira Guerra Mundial, os campeões da primeira e da segunda divisão se encararam pelo título. Já em 1921, foi organizada a primeira edição entre os vencedores da Football League e o da FA Cup.  Até 1929, algumas edições envolveram a seleção inglesa de amadores e a seleção inglesa de profissionais, como havia ocorrido também em 1913. Já em 1950, colocaram para jogar a seleção que disputou a Copa do Mundo contra a equipe nacional que havia feito uma turnê pelo Canadá. O padrão, de qualquer forma, concentrava mesmo os clubes.

O Manchester United é a equipe que mais ergueu o troféu, campeão em 21 oportunidades. Arsenal e Liverpool aparecem logo atrás, com 15 conquistas. Além disso, outras 22 equipes também se consagraram na competição. Em 2002, por questões burocráticas, a Charity Shield foi rebatizada com seu nome atual, Community Shield. Wembley é a tradicional casa do torneio, embora ela tenha sido realizada em dez estádios diferentes, incluindo também seis localizados fora de Londres.

E a caridade hoje em dia, onde está? A renda da partida (incluindo aí a venda de produtos e programas de jogo) é distribuída entre os 124 clubes que disputam a primeira fase da Copa da Inglaterra. São eles que decidem os projetos e as instituições de caridade ao redor do país, baseadas na comunidade local, que receberão o dinheiro. Parte do valor ainda vai para organizações parceiras da FA. Em 2016, ainda houve uma reconstituição do troféu original da Charity Shield de 1908, que seguiu a leilão. O dinheiro arrecadado foi para o Fundo Bobby Moore de Pesquisa ao Câncer. Já em 2017, Chelsea e Arsenal concordaram em doar a premiação referente ao torneio (total de £1,25 milhão) para as vítimas do incêndio na Grenfell Tower, em Londres, que deixou 79 mortos, dezenas de feridos e centenas de desabrigados.