A primeira conquista teve uma recepção fantástica. Afinal, Jupp Heynckes não apenas superou o Borussia Dortmund, como também quebrou quase todos os recordes possíveis. A segunda Salva de Prata também mereceu grande repercussão, pela maneira como Pep Guardiola conseguiu bater as marcas já impressionantes de seu antecessor. E o Bayern de Munique consuma o seu tricampeonato da Bundesliga já sem tantos confetes. Obviamente, os bávaros merecem todos os aplausos por mais uma campanha massacrante. Mas já virou mais do mesmo. A força do clube menosprezada pela falta de competitividade do resto dos oponentes. Não dá, no entanto, para negar os méritos. Afinal, eles são inúmeros.

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A supremacia é tão grande que o 25º título alemão do Bayern aconteceu da maneira mais sem graça dos últimos anos. Os bávaros comemoraram do conforto do sofá, enquanto assistiam à vitória do Borussia Mönchengladbach por 1 a 0 sobre o Wolfsburg – em resultado que também garantiu os Potros, ao lado dos Lobos e do Bayer Leverkusen, na próxima Champions. O Wolfsburg precisava ganhar, mas teve muito trabalho para segurar o empate e acabou cedendo à pressão no finalzinho. Restando quatro rodadas para o final do campeonato, o Bayern lidera com 14 pontos de vantagem e não pode mais ser alcançado pelo segundo colocado. O chope e a Salva de Prata estão garantidos para o próximo jogo na Allianz Arena.

Em uma campanha na qual sobrou durante todo o tempo, fica até difícil de destacar um protagonista específico na conquista. O ataque mantém altíssima produtividade e teve Arjen Robben como principal artilheiro, especialmente pela maneira como comandou as goleadas e decidiu alguns jogos sozinhos. Com a lesão do holandês, quem passou a se sobressair foi Robert Lewandowski, em ótima forma neste segundo turno. Além disso, Thomas Müller foi um excelente assessor no setor, com gols e assistências. Já o meio-campo viu o encaixe imediato de Xabi Alonso para ditar o ritmo, enquanto David Alaba fez de tudo um pouco com extremo vigor físico e categoria. Porém, se fosse preciso escolher “o cara” do tricampeonato do Bayern, talvez não haja ninguém mais representativo que Manuel Neuer, superando até os ótimos números de Robben.

Dá até para questionar se Neuer terminará a Bundesliga como o melhor goleiro do campeonato, diante de tudo o que Yann Sommer (Borussia Mönchengladbach) e Timo Horn (Colônia) vêm pegando. O terceiro melhor jogador do mundo em 2014 também não se saiu bem nas duas derrotas do Bayern na campanha, vendido junto com o resto da defesa na goleada do Wolfsburg e fazendo a pior partida da carreira diante do Gladbach. Mas teve um papel imprescindível mesmo em algumas das vitórias mais elásticas dos bávaros. Se o Bayern conquistou o título com tanta antecipação, o camisa 1 teve muita importância nisso.

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Neuer é o jogador mais difícil de substituir no elenco de Pep Guardiola, por mais que a capacidade individual de Robben e Ribéry faça falta. Não apenas por sua qualidade técnica, mas pela forma como o encaixe tático da equipe depende do goleiro. O camisa 1 garante que o sistema de pressão avançada e posse de bola no canto de ataque funcione, com suas saídas providenciais do gol. Sem deixar de cumprir muito bem sua função primordial sob as traves. Nem sempre o ataque do Bayern operou como um rolo compressor. Nestes jogos, especialmente, é que Neuer contribuiu para o tricampeonato, até porque os erros e a falta de velocidade da linha defensiva incomodaram mais do que deveriam nesta temporada.

Os melhores momentos aconteceram principalmente no final do primeiro turno, como nas vitórias sobre o Hertha Berlim e o Bayer Leverkusen, bem como o empate ante o Gladbach. O goleiro até podia ser pouco acionado. Porém, quando exigido, operou os seus milagres. Não à toa, Neuer fechou a primeira metade da Bundesliga ameaçando quebrar o recorde histórico do futebol europeu de menos gols sofridos em uma temporada. Em 17 rodadas, o alemão sofreu apenas quatro tentos, terminando invicto em 13 partidas.

O segundo começou de péssima maneira, com os quatro gols tomados diante do Wolfsburg. Ainda assim, a média de Neuer é muito acima da média. São apenas 13 gols levados em 28 partidas, melhor marca entre as cinco principais ligas da Europa. Se levar quatro nas quatro rodadas restantes, ainda assim bate o recorde histórico da Bundesliga, os 18 que sofreu em 2012/13. E mesmo se tomar mais um, supera a melhor marca do torneio em um segundo turno, os 11 encaixados por Pfaff em 1986/87, Kahn em 2002/03 e por ele mesmo em 2012/13.

Justo o jogo do “título” do Bayern define o papel fundamental de Neuer. Weiser e Schweinsteiger brilharam no ataque para superar o Hertha Berlim por 1 a 0. Mas o triunfo só saiu graças a uma defesa magnífica do paredão, quando o placar ainda estava zerado. Niko Schulz teve ótima oportunidade ao sair na cara do gol e poderia ter feito melhor. O que não anula também a grande defesa operada pelo alemão, excelente para fechar o ângulo do adversário e desviar a bola no reflexo. Isso sem deixar de mencionar a defesa sensacional no clássico contra o Borussia Dortmund, em cobrança de falta de Reus, vital para assegurar a vitória por 1 a 0 – talvez, a mais espetacular de todo o campeonato.

Nas próximas semanas, Neuer deverá encarar o maior desafio da temporada: Messi, Neymar e Suárez, nos duelos contra o Barcelona na Liga dos Campeões. Diante de tanto poder de fogo e da própria velocidade do trio, o goleiro terá bastante trabalho nas duas partidas. Será ainda mais importante se os bávaros quiserem voltar à final continental. Porque, no fim das contas, mais importante que o tricampeonato, neste momento, é repetir a Tríplice Coroa que aconteceu há duas temporadas.

Abaixo, o vídeo daquela que, na minha opinião, foi a melhor atuação de Neuer nesta Bundesliga: fora de casa contra o Gladbach


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