Entrevistas sinceras no futebol não são muito comuns, em tempos de assessorias superprotetoras e “media training”. Por isso mesmo, a conversa franca de Bas Dost com a TV Sporting ganha as manchetes. O holandês vive uma ótima temporada. Depois de ser vítima dos ataques ocorridos no CT leonino, agredido por ultras, o centroavante resolveu ficar e corresponde com gols. Já balançou as redes seis vezes em seis jogos pelo Campeonato Português, além de ter anotado dois na Taça de Portugal e mais um na Liga Europa. Mantém sua média alta no Alvalade. De qualquer forma, não nega que, em seu ofício, não pode dar qualquer bola por perdida. E por isso, o grandalhão admite que os “gols de merda” são maioria na sua carreira.

Dost chegou à conclusão quando relembrava um dos jogos mais marcantes de sua vida, quando ainda defendia o Wolfsburg e balançou as redes quatro vezes para dar a vitória por 5 a 4 sobre o Bayer Leverkusen. “Acho que nesse jogo tive quatro oportunidades e marquei nas quatro. Foram também grandes gols. Fiz muitos gols de merda na minha carreira, é o trabalho de um centroavante, mas nesse jogo todos foram bonitos. Foi um dia perfeito. E no último minuto marquei o gol da vitória, ganhamos por 5 a 4. Foi um resultado incrível”, rememorou.

O centroavante classifica a passagem pelo Wolfsburg como um período fundamental no desenvolvimento de seu futebol. Em quatro temporadas completas na Bundesliga, ele anotou 36 gols, embora tenha lidado com problemas de lesão. Foi importante no vice-campeonato nacional dos Lobos, em 2014/15, temporada na qual registrou os quatro gols no mesmo compromisso – 16 no total.

“No meu tempo de Wolfsburg, aprendi que futebol não é só jogar e ter a bola, também é não ter a bola. Nunca aprendi isso na Holanda. Só treinava com bola. De repente estava na Alemanha e todos os dias fazíamos caminhadas na floresta. Era tudo novo para mim. Tive problemas com isso, precisava evoluir. Também reparei que muitos treinadores alemães gostavam mais de atacantes que lutam do que daqueles mais tranquilos. Por isso, senti algumas dificuldades lá. Mas no final isso me tornou um jogador melhor”, apontou.

Sobre o Sporting, Dost ressaltou seu objetivo de marcar seu nome no clube: “É bom que as pessoas dizem que sou fundamental ao time. Significa que acrescento algo. Claro que é um futebol diferente quando eu jogo e quando não jogo. Sou um tipo de atacante que precisa de bons cruzamentos, de passes na frente do gol. Claro que é deferente quando sou eu ou outro qualquer. Mas é bom as pessoas dizerem isso. Como já disse, agora quero marcar 100 gols. É o próximo objetivo. Estou mais perto. Faltam 21. Vou fazer tudo o que puder para chegar aos 100 gols já nesta temporada”.

“Para ficar na história do Sporting é preciso ganhar um grande título. Os prêmios individuais não contam. Posso ser o artilheiro em todas as temporadas, mas se não formos campeões, não é suficiente. Esses objetivos individuais são bonitos mas o que eu quero é ganhar um título com a equipe. Por isso é que assinei um novo contrato, por mais três anos. Se não pensasse assim, nunca o teria feito. Acredito no meu futuro com o Sporting e amo este clube. Tenho uma noção cada vez melhor do que é este clube, todos os dias aprendo mais. Eu sou só uma parte desta máquina que é o Sporting. E todos estamos a trabalhar para ter sucesso”, complementa.

Dost, inclusive, demonstra um apreço especial pelo futebol em Portugal: “Eu jogava há quatro anos na Alemanha. Vim para Portugal e não fazia a mínima ideia do que podia esperar. Gostei das pessoas desde o primeiro momento. São muito educadas, gostam de conversar. São diferentes das pessoas na Alemanha e na Holanda. O sol me faz muito bem. Quando era novo já gostava de ir de férias para França ou para Espanha, por causa do sol. Aqui o sol brilha todos os dias. É algo de que gosto muito. E o Sporting, claro, todos aqueles que trabalham no clube, sabem que é um grupo, é uma família, aconteça o que acontecer. É verdade que no passado aconteceram coisas más, mas temos de seguir em frente. O Sporting é um clube com pessoas que muito dedicadas. Quando cheguei, senti imediatamente que fazia parte dessa família. Estou feliz por esta oportunidade”.

O holandês também discutiu seu papel como centroavante: “Um atacante tem que ser mortífero na área. Tem que aproveitar cada oportunidade. Isso é o principal. Mas proteger a bola e tomar as decisões certas quando se está longe da área também é muito importante. Muitos atacantes são capazes de marcar gols, mas outros não conseguem jogar bem com o resto da equipe. Por exemplo, Lewandowski, no Bayern, é incrível. Ele faz tudo. Marca, joga… Combinar estas duas coisas te transforma num grande atacante”.

Por fim, falou sobre as assistências, mais frequentes em suas atuações: “O meu trabalho é o de marcar gols e aceito isso. É o que todos esperam que eu faça. Mas não quer dizer que não goste de dar assistências. Por exemplo, no jogo com o Rio Ave, recebi uma assistência do Acuña, era impossível ter uma bola melhor do que aquela. Foi perfeita. É preciso finalizar depois, mas com cruzamentos assim é uma alegria jogar futebol”.