Bom jogador ou apenas um grande briguento, Joey Barton é um personagem dos mais interessantes do futebol inglês. Dentro de campo, colecionou inúmeras brigas com adversários, em lances até desleais, e ganhou a fama de violento. Fora dele, tem a língua afiada para dizer o que pensa sem muitos filtros. Neste sábado, o Times publicou uma entrevista que ajuda a entender um pouco mais o lado complexo do meio-campista de 32 anos que está sem clube desde o fim da temporada, quando foi dispensado pelo Queens Park Rangers.

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Barton nasceu em Huyton, nos arredores de Merseyside, uma cidade pequena, com 33 mil habitantes. Segundo ele, a violência era corriqueira no bairro onde cresceu. Mais do que isso, era encorajada. Um dia apanhou de um garoto na escola e voltou para casa procurando o abraço do pai. Recebeu um taco de beisebol ao invés disso. “Vá lá e bata nele. Se não, vou te dar uma boa surra. Se você não lutar, não responder com força, você nunca chegará a lugar nenhum na vida”, disse o papai Barton, de acordo a reportagem.

Barton afirmou que a violência mostrava o quanto você era durão por não permitir que os outros tirassem vantagem. Era a lei da selva, a norma, o passado que moldou a personalidade do jogador. “Eu ainda sinto o lobo dentro de mim. Talvez sempre esteja lá. Eu aprendi a aceitá-lo e controlá-lo. Não posso dizer que nunca mais vou cometer um erro com 100% de certeza, mas vou fazer o possível para fazer a coisa certa. Quando eu sinto a raiva crescendo, tenho mecanismos muito melhores para lidar com ela. Tenho bons amigos, pessoas para as quais posso recorrer. Tenho minha família. Tenho a filosofia”, disse.

Sim, a filosofia. Barton estuda os grandes pensadores na Universidade de Roehampton, em Londres. Assiste às aulas às terças e quintas durante o ano letivo e até fez amizade com o seu professor, o Raj. “Não estou dizendo que sou super inteligente, mas nada o impede de expandir sua mente se você tiver foco e disciplina. Você pode aprender muito sobre o mundo, e mais importante, sobre você mesmo”, contou.

Além da filosofia, o futebol também serviu para expandir os horizontes dele. “Onde eu cresci, homofobia era normal. Havia muito racismo também. As pessoas sentiam-se ameaçadas por qualquer um que fosse um pouco diferente. Mas joguei ao lado de jogadores negros, conheço pessoas homossexuais. O futebol quebrou barreiras para mim. Ele me ajudou a entender que as ideias que eu via enquanto crescia não eram verdades absolutas”, explicou.

E fica claro o desgosto de Barton por autoridades quando o estudante de filosofia começa a discorrer sobre religião. “Meu interesse principal é a religião. Eu não gosto da forma como as pessoas param de pensar sozinhas. Eu realmente acredito que a filosofia deveria substituir o estudo religioso nas escolas. As pessoas deveriam ganhar as ferramentas para entender quem são ao invés de simplesmente confiar nas palavras de figuras de autoridade”, justificou.

Será interessante ver esses conceitos sendo colocados em prática quando Barton tomar o próximo passo na carreira. Ainda é um jogador de futebol e busca um novo clube, mas, no futuro, talvez vire treinador, embora considere uma profissão arriscada. Troca e-mails com José Mourinho sobre liderança e tenta aprender. Cada dia um pouco mais.