Durante a rodada do final de semana, algumas equipes ao redor do Brasil realizaram os seus protestos contra as federações pela continuidade dos estaduais. Ainda assim, a ação mais contundente veio nesta terça-feira, em um dos campeonatos que não interrompeu suas atividades, ainda que tenha fechado os seus portões. Os jogadores do Baré entraram em campo usando máscaras para o duelo contra o São Raimundo, válido pelo Campeonato Roraimense, e abandonaram o jogo depois de permanecerem em campo um minuto parados.

Na manhã desta terça, a Federação Roraimense de Futebol definiu que o estadual não pararia. A competição realizaria suas últimas três rodadas da primeira fase com portões fechados e, só então, a paralisação ocorreria. Naquele momento, a Secretaria Estadual de Saúde havia confirmado cinco casos do coronavírus no estado e o governo já tinha suspendido as aulas. A posição da federação ante a escalada da doença desagradou o Baré.

Durante a reunião da FRF, na qual representantes de apenas dois dos cinco clubes do estadual estiveram presentes, o Baré foi o único contrário à continuidade do Campeonato Roraimense. Em nota oficial, o colorado reforçou que seu presidente “é profissional com formação na área da saúde” e “repudiou tal ato, analisando como total risco aos atletas, integrantes de comissão técnica e demais que trabalharão na logística de jogo”. A agremiação enviou ainda um documento à CBF, solicitando medidas de segurança cabíveis à integridade física de seus atletas e demais funcionários para o jogo desta terça, contra o São Raimundo.

“A gente enxerga isso como uma irresponsabilidade dos senhores que decidiram por continuar o campeonato. Em várias federações, os estaduais foram paralisados e a medida de fechar os portões não é suficiente para evitar que a pandemia (covid-19) se espalhe. A medida que vejo mais eficaz, seria não ter contato. Infelizmente não estão se atentando à gravidade do problema”, declarou o presidente Oziel Neto, ao Globo Esporte.

O dirigente também garantiu que dificilmente o Baré entraria em campo e afirmou que não temia sanções na competição. “Uma vez que um jogador é contaminado, o clube fica responsabilizado por eles. Muitos atletas estão alojados sob nossa responsabilidade e longe das famílias. E temos jogadores que moram com suas famílias, com idosos, crianças e recém-nascidos. É um risco para todos”, complementou, ao site do clube. Já na noite desta terça-feira, durante o duelo contra o São Raimundo no Estádio Ribeirão, a promessa se cumpriu.

Em sinal de protesto, os jogadores do Baré usaram máscaras hospitalares na entrada em campo. Ainda se perfilaram e participaram das cerimônias iniciais. Porém, após o apito, os atletas colorados preferiram ficar parados e deixaram o gramado ainda no primeiro minuto. Os reservas do São Raimundo, por outro lado, aplaudiram ironicamente a atitude dos adversários durante o pontapé inicial. Conforme informações do repórter Ivonisio Júnior, do GE.com, a partida foi suspensa e a decisão sobre o resultado caberá ao Tribunal de Justiça Desportiva de Roraima. O Baré é o lanterna do Roraimense, com duas derrotas nas duas primeiras partidas.

Vale lembrar que, nesta terça-feira, a CBF publicou em seu site que teve um faturamento de R$957 milhões em 2019. O valor-recorde representa um aumento de 43,3% em relação a 2018, impulsionado por patrocínios e direitos de transmissão, bem como ao que a entidade chamou de “Fundo de Legado da Copa do Mundo de 2014”. Segundo a própria CBF, “mais da metade desse montante foi aplicada direta e indiretamente no futebol”, com R$215 milhões investidos nas seleções nacionais e R$320 milhões na realização de competições.

Neste momento emergencial, e em face aos números, urge à confederação agir em prol dos clubes menores e evitar que riscos desnecessários à saúde sejam corridos por temores financeiros. Um plano de ação concreto e um fundo de apoio, como realizado por outras entidades ao redor do mundo, deveriam ser elaborados com urgência pela CBF.